Vicente me mandou oito mensagens antes das nove da manhã.
A primeira era uma foto do pedido médico.
A segunda, uma foto da carteirinha do plano.
A terceira, o número do protocolo.
As outras cinco eram reclamações.
A última dizia:
“Eles estão enrolando.”
Eu estava entrando no escritório quando li.
Respondi:
“Bom dia pra você também.”
Ele visualizou na mesma hora.
“Carolina.”
Sorri sozinha.
— Já começou? — Aline perguntou atrás de mim.
— Começou o quê?
— A cara.
— Que cara?
— A cara de que alguém tá testando sua paciência antes do café.
Entrei na minha sala.
— Cliente.
— O do morro?
Parei.
— Como você sabe?
— Ontem você saiu dizendo que ia pro Morro do Horizonte e voltou perguntando de cobertura de punção, rede credenciada e prazo de autorização.
— Detetive.
— Secretária jurídica.
— Pior ainda.
Ela colocou uma caneca na minha mesa.
— O menino tá bem?
A pergunta tirou a brincadeira da sala.
— Fez a punção hoje cedo.
— Dezesseis anos, né?
— Dezesseis.
Aline assentiu devagar.
— Pesado.
Era.
Só que eu tinha aprendido a não carregar para dentro do atendimento o peso que pertencia à família.
Se eu fizesse isso em todos os casos de saúde, não duraria seis meses.
Peguei o telefone.
Havia outra mensagem.
“A atendente falou que o prazo de análise continua em aberto.”
Liguei.
Vicente atendeu no primeiro toque.
— Finalmente.
— Você me mandou mensagem há sete minutos.
— Sete minutos é tempo.
— Pra café, não.
— Meu filho fez uma punção hoje.
— Eu sei.
A voz dele mudou um pouco.
— Como?
— Você me mandou isso às seis e quarenta e dois da manhã.
Silêncio.
— Ah.
— E eu estava dormindo.
— Foi m*l.
Quase deixei o telefone cair.
— Você pediu desculpa?
— Não acostuma.
Ri.
— Como o Benício tá?
Demorou um pouco.
— Disse que tá bem.
— E você acredita?
— Não completamente.
— Ótimo. Primeiro avanço do dia.
— Carolina.
— O quê?
— O plano tá enrolando.
Sentei.
— Com o quê exatamente?
— Os exames de sangue pedidos ontem. Falaram que parte vai pra análise técnica.
— Isso é diferente de negar.
— Pra mim, se não autorizou, tá negando.
— E esse é o motivo pelo qual você não vai falar juridicamente com ninguém.
— Eu sei falar.
— Esse é o segundo motivo.
Ouvi uma respiração pesada do outro lado.
— Você gosta de me irritar.
— Não. Só acontece com facilidade.
Abri o protocolo que Aline tinha separado.
— Me manda os pedidos completos.
— Já mandei.
— Todos?
— Todos.
— Ótimo. Agora deixa eu trabalhar.
— Quanto tempo?
— Vicente.
— Só perguntei.
— E eu vou responder quando tiver uma resposta real.
— Eu posso ligar pra operadora.
— Não.
— Posso ir lá.
— Menos ainda.
— Eu não vou ameaçar ninguém.
— Você está dizendo isso num tom que parece ameaça.
Ele bufou.
— Então o que eu faço?
A pergunta me fez parar.
Porque não veio carregada de ironia.
Veio cansada.
— Fica com o Benício.
Silêncio.
— Ele tá dormindo.
— Então deixa ele dormir.
— E eu fico fazendo o quê?
— Nada.
— Eu não sei fazer nada.
— Eu já percebi.
Desliguei antes que ele respondesse.
⸻
Renata entrou na minha sala meia hora depois com uma pasta.
— Esse é o caso novo?
— Ainda não é processo.
— Então por que tem cara de processo?
Empurrei os documentos pra ela.
— Adolescente. Nódulo na tireoide. Investigação em curso. Punção já realizada particular porque a família preferiu não esperar autorização.
Ela começou a ler.
— E agora?
— Exames laboratoriais solicitados. Parte autorizada, parte em análise.
— Alguma negativa?
— Ainda não.
Renata levantou os olhos.
— Então ainda não tem questão judicial.
— Exatamente.
— E quem tá querendo entrar com ação?
— O pai.
— Claro.
Sorri.
— Você conhece?
— Só de nome.
— Melhor assim.
Ela continuou analisando os pedidos.
— Carolina, se ainda não existe negativa e não há urgência médica formal para esses exames específicos, não tem o que judicializar agora.
— Eu sei.
— Então por que tá me mostrando?
— Porque eu quero você acompanhando comigo.
Ela fechou a pasta devagar.
— Por quê?
Conhecia Renata.
Ela não perguntava sem motivo.
— Porque eu conheço a família há muitos anos.
— Quanto é “muitos”?
— Desde antes da faculdade.
— E o pai?
Olhei pra ela.
— Também.
— Entendi.
— Não tem nada pra entender.
— Ótimo. Então fica fácil manter limite.
Encostei na cadeira.
— Eu sempre mantenho limite.
Renata sorriu daquele jeito irritante de quem não precisava dizer mais nada.
— O quê?
— Nada.
— Você e a Aline tão insuportáveis hoje.
— É a equipe.
⸻
Perto do meio-dia, consegui falar com a operadora.
Nada dramático.
Nada que justificasse manchete.
Só burocracia.
Um dos exames havia sido liberado automaticamente.
Outro precisava de análise porque o código informado na solicitação não coincidia com o cadastrado no sistema.
Uma pendência simples.
O tipo de coisa que, pra quem está do lado de fora, parece pequena.
Pra uma família esperando saber se um filho tem câncer, qualquer palavra como “pendência” vira uma ameaça.
Pedi orientação formal.
Número de protocolo.
Prazo.
Canal para complementação.
Tudo registrado.
Liguei para Vicente.
— O problema é cadastro.
— Como assim?
— O código da solicitação não bateu com o sistema da operadora. O médico ou a clínica precisa ajustar ou complementar.
— Isso é ridículo.
— Pode ser. Continua sendo resolvível.
— E se demorarem?
— A gente cobra.
— E se negarem?
— A gente analisa a negativa.
— E se…
— Vicente.
Ele ficou quieto.
— Você tá criando vinte problemas antes de resolver o primeiro.
— É meu filho.
A frase veio seca.
— Eu sei.
— Não parece.
Respirei.
— Não confunde calma com indiferença.
Silêncio.
Continuei:
— Meu trabalho é justamente conseguir olhar pra isso sem entrar em pânico. Se eu sentir tudo do jeito que você sente, eu viro mais uma pessoa desesperada na sala. Você não precisa disso.
Do outro lado, nada.
— Me manda o contato da clínica — falei. — Eu peço a correção.
— Tá.
Antes de desligar, ele perguntou:
— Você falou com o Benício?
— Não.
— Ele perguntou de você.
Aquilo me surpreendeu.
— O quê?
— Se você tinha conseguido alguma coisa.
— Ah.
— Achou que era o quê?
— Nada.
Ele riu.
Baixo.
Foi a primeira vez que ouvi Vicente rir desde que voltei ao morro.
— Vou desligar.
— Carolina.
— Oi?
— Obrigado.
Dessa vez eu não fiz piada.
— De nada.
⸻
A correção saiu no início da tarde.
A autorização veio pouco depois.
Mandei a confirmação diretamente para Vicente e, em seguida, para Celina.
Três minutos depois, meu telefone tocou.
Era Benício.
Atendi.
— Oi.
— A senhora resolveu?
— Primeiro: “a senhora” é a sua avó.
Ele riu rouco.
— Tá. Você resolveu?
— A clínica corrigiu a solicitação. O plano autorizou.
— Meu pai falou que você fez a operadora liberar.
— Seu pai gosta de dramatizar.
— Então você não fez?
— Eu organizei o caminho pra eles analisarem o pedido certo.
— Isso é resolver.
Sorri.
— Como você tá?
— Com o pescoço dolorido.
— Falaram que podia acontecer?
— Falaram.
— Então acompanha conforme a orientação médica. Se piorar ou aparecer alguma coisa diferente, avisa seu pai e sua avó.
— Sim, doutora.
— Benício.
— Tô brincando.
Ouvi um barulho ao fundo.
Depois a voz de Vicente:
— Beni, quem é?
Benício respondeu alto:
— A mulher que resolveu o negócio que você não conseguiu resolver!
Fechei os olhos.
— Benício, não provoca.
Do outro lado, Vicente:
— Me dá esse telefone.
— Não.
— Benício.
O garoto riu.
Por alguns segundos, ouvi apenas os dois discutindo.
Normal.
Pai e filho.
Sem exame.
Sem protocolo.
Sem câncer.
Só uma discussão i****a por causa de um celular.
E talvez fosse justamente aquilo que precisasse ser preservado.
— Carolina? — Benício voltou.
— Tô aqui.
— Valeu.
— Não precisa agradecer.
— Precisa sim.
A voz dele ficou mais baixa.
— Porque todo mundo tá falando das coisas como se eu não entendesse nada.
Fiquei séria.
— Se alguém fizer isso comigo por perto, você me fala.
— Meu pai principalmente?
— Principalmente.
— Eu ouvi! — Vicente gritou ao fundo.
Benício riu.
Eu também.
Quando desliguei, fiquei olhando para o protocolo encerrado na tela.
Era só uma autorização.
Pequena.
Burocrática.
Nada perto do que ainda poderia vir.
Mas naquele caso eu começava a entender que minha função não seria apenas enfrentar uma operadora, se fosse necessário.
Talvez também fosse impedir que o medo de Vicente ocupasse espaço demais numa história que, antes de ser dele, pertencia ao próprio Benício.