7. Vicente

1427 Words
Quando chegamos em casa, Benício subiu direto pro quarto. Minha mãe ficou parada na cozinha, me olhando como se estivesse esperando eu fazer alguma coisa errada. — O quê? — perguntei. — Nada. — Você tá com cara de “nada” desde que saímos do consultório. Ela abriu a geladeira. — Só tô tentando decidir se faço café ou se você já tá acelerado o bastante. — Engraçadinha. Meu telefone vibrou. Carolina. Abri a mensagem. “Preciso do pedido médico, do ultrassom, da carteirinha do plano e do documento do Benício. Tudo legível. Vou protocolar ainda hoje.” Respondi: “Já mandei.” Ela digitou. “Recebi. Não faça nada com a operadora por conta própria.” Parei. “Como assim?” “Exatamente como está escrito.” Eu quase liguei. Preferi escrever. “Eu só quero agilizar.” A resposta veio rápido. “E eu quero evitar que você transforme um pedido de autorização em uma ameaça. Deixa comigo.” Minha mãe viu minha cara. — Carolina? — Ela acha que eu sou um animal. — Às vezes você se esforça pra manter a reputação. Ignorei. Subi. A porta do quarto do Benício estava encostada. Bati. — Entra. Ele estava deitado, fone em um ouvido, câmera em cima da cama. — Tá tudo bem? — Você vai perguntar isso de cinco em cinco minutos? — Talvez. — Então não. Sentei na ponta da cama. — Quer falar sobre amanhã? — Não. — Tá. Ele virou o rosto pra mim. — Só isso? — Você disse que não quer falar. — Estranho. — Tô tentando aprender. — A Carolina fez lavagem cerebral em você? — Cuidado. Ele riu. A voz ainda saiu arranhada. Meu peito fechou de novo. Eu odiava aquilo. O som. O curativo que ainda nem existia e eu já conseguia imaginar. A palavra “punção”. A outra palavra que ninguém queria dizer. — Pai. — Hum? — Não fica com essa cara. — Que cara? — Como se eu já tivesse alguma coisa. Desviei os olhos. — Eu não tô. — Tá sim. Fiquei em silêncio. Ele se sentou. — Eu tô com medo também. Aquilo me acertou. Benício quase nunca dizia medo. Raiva, sim. Irritação. “Tá de boa.” “Relaxa.” Medo, não. — Eu sei. — Mas se você ficar me olhando assim toda hora, eu vou começar a achar que tem uma coisa pior que ninguém tá me contando. Cheguei mais perto. — Ninguém tá escondendo nada de você. — Promete? — Prometo. Ele assentiu. — Então beleza. Levantei. — Dorme cedo. — Tenho dezesseis anos. — Continua precisando dormir. — Você e a vó são iguais. — Ela vai gostar de ouvir isso. Saí. No corredor, liguei pro número que eu já tinha conseguido da clínica onde fariam a punção. Atenderam no terceiro toque. — Boa noite. É sobre o procedimento do Benício Azevedo amanhã. A atendente confirmou os dados. — Eu queria saber quando sai o resultado. — O prazo do laboratório costuma ser de cinco a sete dias úteis, senhor. Parei. — Não. Eu quero saber quanto custa pra sair antes. Silêncio. — Senhor, o prazo é técnico. — Eu pago o que precisar. — Não é uma questão de valor. Senti a impaciência subir. — Deve existir urgência. — Se o médico solicitar prioridade por justificativa clínica, o laboratório avalia. Mas o processamento precisa respeitar as etapas. — E o menor prazo possível? — Não consigo garantir antes disso. Desliguei. Cinco a sete dias. Parecia uma piada. Eu conseguia resolver problema em cinco minutos. Conseguia fazer gente atravessar a cidade em uma hora. Dinheiro comprava carro, consulta, exame, porta aberta. Mas não comprava célula pronta pra análise. Não comprava tempo biológico. Aquilo começou a me irritar num nível que eu não sabia administrar. Liguei pra outro laboratório. Depois pra outro. A resposta mudava pouco. Quatro dias. Cinco. Sete. “Depende do material.” “Depende da análise.” “Depende.” Eu odiava essa palavra. Meu telefone tocou. Carolina. Atendi. — O que foi? — Você tá ligando pra laboratório? Fechei os olhos. — Quem te falou? — Não importa. — Importa pra mim. — Vicente, você acabou de entregar meu argumento. — Eu só tô tentando diminuir o prazo. — Você não consegue comprar processamento técnico. — Todo mundo tem um preço. Silêncio. — É exatamente esse tipo de frase que você não vai usar com médico, laboratório, plano ou qualquer pessoa envolvida no tratamento do seu filho. — Não começa. — Você que começou. Andei até a varanda. Lá embaixo, o morro seguia vivo. Moto. Música. Gente chamando alguém da janela. Meu mundo. Um mundo em que eu sabia como as coisas funcionavam. — Eu não vou ficar parado esperando uma semana. A voz dela baixou. — Você não tá parado. — Parece. — Porque você confunde movimento com controle. A frase me irritou porque eu sabia onde ela queria chegar. — Não me analisa. — Não tô analisando. Tô te falando como advogada e como alguém que acabou de conversar com um pai apavorado. — Eu não tô apavorado. Carolina ficou em silêncio por dois segundos. — Claro. — Carolina. — O plano recebeu o pedido. Tem protocolo. Mudei de assunto na hora. — E? — E agora eles analisam. — Quanto tempo? — Depende do procedimento e do fluxo de autorização. Se houver urgência médica formalmente justificada, isso precisa ser considerado. Mas não inventa urgência onde o médico não colocou. — Eu posso pagar amanhã. — Pode. — Então pra que eu preciso do plano? — Porque você paga por ele há anos e porque esse pode ser o começo de uma investigação mais longa. Se vier tratamento, cirurgia, internação, exames seriados ou medicamento, talvez você descubra que até muito dinheiro tem limite. Olhei pro quarto de Benício. A porta continuava fechada. — Ele vai ter tudo. — Eu sei que é isso que você quer. — Não. Ele vai ter. — E se algum dia o que ele precisar não depender de você? Não respondi. Ela também não. — Boa noite, Vicente. — Carolina. — Oi? — O resultado da punção demora cinco a sete dias. Minha voz saiu diferente. Menos dura. — Eu sei. — Isso é normal? — Pode ser. Quem precisa te orientar sobre prazo médico é a equipe que está conduzindo o caso. — E durante esses dias eu faço o quê? Dessa vez ela demorou um pouco. — Você fica com seu filho. Simples. Como se fosse pouco. — Boa noite. Ela desligou. Fiquei na varanda por algum tempo. Depois meu telefone vibrou de novo. MT. “Preciso falar contigo. Kadu tá pressionando por resposta sobre a Baixa.” Olhei a mensagem. Em qualquer outra semana eu teria descido. Resolvido. Escutado. Mandado. Em vez disso, escrevi: “Você decide. Só me chama se for algo que não puder esperar.” Ele respondeu: “Tem certeza?” Olhei pro corredor. “Tenho.” Guardei o celular. ⸻ No dia seguinte, Benício tentou fazer piada até entrar na sala da punção. — Se eu morrer com uma agulha no pescoço, vou assombrar vocês. — Para com isso — minha mãe repreendeu. — Tô aliviando o clima. — Tá piorando. Ele olhou pra mim. — Pai? — O quê? — Tá branco. — Eu sou moreno. — Tá branco por dentro. Quase mandei ele calar a boca. Em vez disso, ri. A enfermeira chamou. Dessa vez, perguntaram se ele queria acompanhante. Ele olhou pra mim. — Você entra. Minha mãe me encarou. Eu não esperava. — Eu? — É. Mas sem dar ordem em ninguém. — Benício. — Condição. — Tá bom. Entrei. Ele deitou na maca. O médico explicou o procedimento. Ultrassom. Higienização. Agulha fina. Coleta. Parecia simples quando dito assim. Até eu ver meu filho apertando os dedos contra a maca. Fiquei ao lado. — Olha pra mim. — Tô olhando pro teto. — Então olha pra mim. Ele virou os olhos. — Você tá nervoso? — Não. — Mentiroso. Segurei a mão dele. A agulha entrou. Benício fechou os olhos. Não gritou. Não se mexeu. Só apertou minha mão com força. E ali, naquela sala pequena, eu finalmente entendi o que Carolina tinha tentado me explicar. Eu não precisava abrir porta nenhuma. Não precisava mandar. Não precisava resolver. Naquele minuto, a única coisa que meu filho precisava de mim era uma mão que não saísse dali. Então eu fiquei. Mesmo sem saber quanto tempo ainda teria que aprender a fazer exatamente isso.
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