6. Benício

1342 Words
A consulta das três horas começou às três e vinte e sete. Eu sei porque passei os vinte e sete minutos olhando pro relógio da parede e fingindo que não estava olhando. Meu pai também. A diferença era que eu tentava disfarçar. Ele não. — Se continuar encarando, a hora não anda mais rápido — falei. Vicente virou o rosto pra mim. — Você e sua avó combinaram essa frase? — Não. É só muito fácil te conhecer. Celina estava do outro lado, mexendo numa revista que claramente não lia. — Eu avisei que ele precisava aprender a esperar. Meu pai bufou. — Eu sei esperar. Eu e minha avó olhamos pra ele ao mesmo tempo. — Tá bom — falei. — Qual é a graça? — Nenhuma. Era mentira. Tinha alguma coisa estranhamente boa em ver meu pai sentado numa cadeira comum de consultório, sem ninguém levantando quando ele entrava, sem rádio chiando, sem gente perguntando o que ele queria fazer. Só Vicente. Pai de paciente. Talvez por isso ele estivesse tão inquieto. Meu celular vibrou. Clara. “E aí?” Eu tinha dito que ia ao médico. Só isso. Não falei ultrassom, nódulo, tireoide, nada. Respondi: “esperando” Ela mandou: “vai me contar depois?” Fiquei olhando a mensagem. Digitei “sim”. Apaguei. Digitei “talvez”. Apaguei também. Guardei o celular. — Tá escondendo o quê? — meu pai perguntou. — Nada. — Com quem você tá falando? — Pai. — Perguntei só. — E eu tenho privacidade. Ele respirou fundo. Acho que lembrou da Carolina. Isso quase me fez rir. A porta abriu. — Benício Azevedo? Levantei. Meu pai levantou junto. A médica olhou pra ele, depois pra minha avó. — Os responsáveis podem entrar, se o Benício quiser. Todo mundo olhou pra mim. Aquilo me pegou de surpresa. Não porque eu não quisesse os dois lá. Porque alguém tinha perguntado. — Podem. Meu pai entrou sem fazer comentário. Já era evolução. ⸻ A médica se chamava doutora Helena Prado. Não sorria demais. Gostei dela por isso. Gente que sorria o tempo inteiro em consultório me dava a impressão de que alguma coisa muito r**m estava escondida atrás dos dentes. Ela olhou o ultrassom. Depois olhou pra mim. — Quem percebeu primeiro? — Eu. — Como? — Espelho. — Te incomoda? — Não dói. — Alguma dificuldade pra engolir? Olhei de relance pra minha avó. — Às vezes. — Desde quando? — Não sei direito. Uns dias. — Rouquidão? — Desde ontem. Meu pai se mexeu na cadeira. Helena não olhou pra ele. Continuou comigo. — Teve gripe? Infecção de garganta? Febre? — Não. Ela anotou. — Perdeu peso sem tentar? — Não. — Cansaço diferente? — Não. — Algum problema de tireoide na família? Celina respondeu: — Que eu saiba, não. A médica assentiu. Depois levantou. — Vou examinar seu pescoço, tudo bem? — Tá. Ela tocou a região. Mandou engolir. Virar a cabeça. Fez exatamente o que o outro médico tinha feito, mas com mais calma. Eu tentava ler a cara dela. Não consegui. Quando terminou, voltou pra cadeira. — O ultrassom mostra um nódulo que merece investigação. Isso não quer dizer, sozinho, que seja câncer. Meu pai perguntou antes que eu pudesse: — Mas pode ser. Helena finalmente olhou pra ele. — Pode. A palavra caiu na sala. Simples. Sem música. Sem efeito. Pode. Meu estômago apertou. Celina segurou minha mão. Eu deixei. — O próximo passo? — meu pai perguntou. — Eu quero complementar a avaliação. Vou pedir alguns exames de sangue e, pelo tamanho e características do nódulo, uma punção aspirativa por agulha fina. Eu sabia o que era “punção” só por alto. Agulha. Pescoço. Excelente combinação. — Vai enfiar uma agulha aqui? — perguntei. Ela percebeu minha cara. — É feita guiada por ultrassom. É um procedimento rápido. O objetivo é colher células do nódulo pra análise. — Dói? — Costuma ser suportável. Algumas pessoas sentem mais incômodo do que dor. — “Suportável” é uma palavra meio suspeita. Ela sorriu. Foi a primeira vez. — Justo. Meu pai já estava com o celular na mão. — Onde faz? Eu fechei os olhos. — Pai. Ele parou. Dessa vez sozinho. Guardou o telefone. — Foi m*l. Helena olhou de um pra outro. — O Benício precisa entender cada etapa. Mesmo sendo menor, ele é quem vai passar pelos procedimentos. — Eu sei — meu pai respondeu. — Tá aprendendo — falei. Ele me lançou aquele olhar. Minha avó apertou minha mão pra eu parar. Não parei de sorrir. ⸻ A consulta continuou com palavras que eu comecei a guardar em compartimentos diferentes da cabeça. Exame de sangue. Punção. Análise. Retorno. Investigação. Nenhuma delas era “câncer”. Mas todas pareciam caminhar na direção daquela palavra. Quando Helena terminou de preencher os pedidos, meu pai perguntou: — Isso tem urgência? — Precisa ser investigado sem demora desnecessária. Mas não quero que vocês transformem algumas horas ou poucos dias numa corrida desesperada. O importante é fazer cada etapa corretamente. Meu pai ficou quieto. Eu tinha certeza de que ele odiava aquilo. “Corretamente” significava que não dava pra cortar caminho. Helena entregou os papéis. — Você tem alguma pergunta, Benício? Tinha umas cinquenta. Nenhuma parecia boa. — Se der câncer… Minha voz falhou. Não pela rouquidão. Meu pai ficou imóvel. Continuei: — Se der câncer, eu vou morrer? Ninguém respirou direito por alguns segundos. Helena não respondeu rápido. Gostei dela ainda mais por isso. — Um diagnóstico de câncer não significa automaticamente morte. Existem vários tipos, comportamentos diferentes e tratamentos diferentes. Mas eu não vou te dar uma resposta sobre uma doença que a gente ainda não confirmou. Assenti. — Então a resposta é “não sei”. — A resposta é: ainda não sabemos o que você tem. Olhei pras minhas mãos. Era melhor que mentira. Só não era confortável. — Tá. Meu pai encostou o joelho no meu. Não falou nada. Talvez, pela primeira vez, ele tivesse entendido que silêncio também podia ser presença. ⸻ Quando saímos do consultório, ele foi direto ao balcão. Eu e Celina ficamos alguns passos atrás. — Vai começar — murmurei. — Deixa ele tentar. — Vai querer fazer tudo hoje. Meu pai virou. — A punção tem horário amanhã cedo. Arregalei os olhos. — Amanhã? — Tem vaga. — Como você… Ele levantou a mão. — Eu só perguntei. — Só perguntou? — E paguei particular porque o plano ainda não autorizou nada. Minha avó olhou pra mim. Eu olhei pro meu pai. — A Carolina não falou pra protocolar? — Falou. — Então? — Já mandei o pedido pra ela. Ela vai orientar o protocolo no plano. Isso aqui é uma opção se demorar. Fiquei em silêncio. — O quê? — ele perguntou. — Nada. — Fala. — Você ouviu alguém. — Não acostuma. Sorri. No estacionamento, meu celular vibrou de novo. Clara. “Beni?” Dessa vez respondi. “vão fazer uma punção amanhã” Ela demorou menos de dez segundos. “quer que eu te ligue?” Olhei pro meu pai abrindo o carro. Minha avó discutindo com ele porque queria sentar atrás comigo. Pensei em dizer que não. Era o que eu costumava fazer. Em vez disso, escrevi: “quando eu chegar em casa” Guardei o celular. Meu pai me esperou entrar. — Tudo bem? A pergunta parecia pequena. Mas não era. Olhei pela janela antes de responder. — Não sei. Ele assentiu. — Eu também não. Foi a primeira vez que ouvir meu pai admitir aquilo não me deu medo. Deu alívio. Porque talvez eu não precisasse fingir que estava tudo bem só porque ele também estava tentando fingir. O carro desceu em direção ao morro. No meu bolso, o papel da punção parecia pesado demais pra uma folha. E, pela primeira vez desde que vi aquele volume no espelho, eu parei de torcer apenas pra ele sumir. Comecei a querer saber o nome do que estava acontecendo comigo.
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