5. Carolina.

1877 Words
A primeira coisa que reconheci foi o cheiro de café. A segunda foi a subida. Algumas memórias não precisam de fotografia. O carro avançava devagar pelas ruas do Morro do Horizonte enquanto eu olhava pela janela e tentava conciliar o lugar que eu lembrava com o que existia agora. A padaria da esquina tinha virado uma farmácia. O mercadinho continuava no mesmo lugar, só que maior. Tinha pintura nova em algumas fachadas, outras pareciam não ter recebido uma demão desde a época em que eu saí dali carregando livros demais e dinheiro de menos. Gente indo trabalhar. Criança uniformizada. Moto subindo. Uma senhora varrendo a calçada. Vida. Era engraçado como, de fora, algumas pessoas falavam de morro como se fosse uma coisa só. Como se ali só existisse violência. Eu sabia melhor. Ali tinha sido minha casa. O problema era que algumas partes da minha história também continuavam ali. E uma delas tinha quarenta e três anos, quase dois metros de altura e provavelmente estava puto porque a própria mãe tinha chamado uma advogada sem pedir autorização. Estacionei perto da casa de Celina. Antes de desligar o carro, Aline mandou mensagem. Qualquer coisa, me liga. Respondi: Eu vou atender um cliente, Aline. Não entrar numa operação policial. Ela digitou imediatamente: Você mesma descreveu o homem como Nero. Revirei os olhos. Porque é o vulgo dele. Isso não me tranquiliza. Sorri. Guardei o celular. Peguei minha pasta. Respirei. E desci. ⸻ Celina abriu a porta antes que eu batesse. — Meu Deus. Ela me puxou pra um abraço. Por alguns segundos, não era advogada. Era só Carolina. A menina que tinha comido bolo naquela cozinha, feito trabalho de escola naquela mesa e levado bronca daquela mulher mais vezes do que gostaria de admitir. — Olha você — ela disse, segurando meu rosto. — Tá linda. — A senhora tá igual. — Mentira descarada. — Respeito aos idosos. Ela bateu no meu braço. — Continua sem educação. — A senhora que me criou um pouco. — Por isso mesmo eu sei que tentei melhor. Ri. Então vi Benício. Estava encostado no corredor, camiseta escura, cabelo bagunçado, celular na mão. Mais alto do que a imagem que eu guardava dele. Muito mais velho. Ainda menino. — Você é a Carolina? — perguntou. — Depende. Falaram bem ou m*l? Ele deu um sorriso curto. — Minha vó fala bem. — Então sou eu. — Meu pai não falou nada. — Melhor ainda. Celina revirou os olhos. — Vocês dois não começam. Foi quando senti a presença atrás dele. Não precisei olhar imediatamente. Algumas pessoas mudavam o ambiente antes mesmo de entrar nele. Vicente apareceu no corredor. E por um segundo, o tempo fez uma coisa estranha. Eu lembrava dele mais novo. Menos barba. Mais pressa. O mesmo jeito de olhar como se estivesse sempre avaliando alguma ameaça. Agora havia fios grisalhos nas têmporas. A barba começava a acompanhar. O corpo continuava grande, forte, mas o rosto tinha alguma coisa que os anos tinham colocado ali. Peso. Ele parou. Me encarou. — Carolina. Não era pergunta. — Vicente. Benício olhou de um pra outro. — Vocês se conhecem mesmo. — Infelizmente — respondi. Celina abafou uma risada. Vicente não. — Minha mãe não precisava chamar você. — Concordo. Ele franziu a testa. — Então por que veio? Coloquei a pasta sobre a mesa. — Porque seu filho pode precisar de orientação jurídica relacionada ao plano de saúde. — Ainda não negaram nada. — Ótimo. — Então não tem problema. — Melhor ainda. Ele ficou me olhando. Eu conhecia aquele silêncio. Antigamente, muita gente preenchia rápido porque se sentia desconfortável. Eu nunca tive esse problema. — Terminou? — perguntei. Benício baixou a cabeça pra esconder um sorriso. Vicente puxou uma cadeira. — Você continua irritante. — E você continua achando que isso é argumento. — Meu Deus — Celina murmurou. — Quinze anos e vocês não amadureceram nada. — Eu amadureci — falei. — Não parece. Sentei. Abri a pasta. — Podemos falar do que importa? Foi Benício quem respondeu. — Por favor. Aquilo bastou. ⸻ Pedi o ultrassom. Benício me entregou. Li com calma. Não tentei interpretar o que não era da minha área. Advogado não era médico. E eu tinha horror a profissional que achava que diploma em Direito habilitava a diagnosticar pela internet. — O médico falou exatamente o quê? — perguntei. Benício respondeu antes do pai. Gostei disso. — Que tem um nódulo. Que algumas características precisam ser investigadas. Mandou procurar endocrino ou cirurgião de cabeça e pescoço. Falou que talvez precise de punção. — Certo. — “Certo” de bom ou “certo” de entendi? Olhei pra ele. — De entendi. Ele assentiu. — Eu não vou fingir que sei dizer o que esse exame significa do ponto de vista médico, tá? — Obrigado. A resposta dele saiu rápida. Vicente olhou pro filho. Benício continuou: — Todo mundo lê duas coisas no Google e começa a falar comigo como se eu já tivesse morrendo. Meu peito apertou. — Eu não vou fazer isso. — Ótimo. — O que eu posso fazer é ajudar vocês a organizar a parte do plano, se houver necessidade. Olhei para Vicente. — Qual é a operadora? Ele respondeu. — Carteirinha? Tirou a foto do celular e me mostrou. — Tempo de contrato? — Anos. — Dependente regular? — Sim. — Ótimo. Agora precisamos primeiro de médico. Vicente se inclinou. — Eu já consegui três nomes. Claro. — Pra quando? — Um hoje à tarde. Levantei uma sobrancelha. — Especialidade? — Cirurgião de cabeça e pescoço. — Rede do plano? Silêncio. — Particular — respondeu. — E os outros? — Particular. — Vicente. — Eu pago. — Eu sei que paga. — Então qual é o problema? — Nenhum, se essa for a escolha de vocês. Apontei discretamente para Benício. — De vocês. Ele olhou pro filho. — Ele vai ter o melhor. — Pai… — Não começa. Fechei a pasta. — Então eu vou embora. Vicente virou o rosto pra mim. — O quê? — Se a participação do Benício nas decisões já vai terminar antes da primeira consulta, eu não tenho utilidade aqui. — Carolina, ele tem dezesseis anos. — E câncer não foi diagnosticado. Benício ficou quieto. Celina também. — Não usa essa palavra — Vicente disse. Foi baixo. Olhei pra ele. Ali estava. Não na postura. Não na voz. Nos olhos. Medo. Cru. Ele tinha acabado de revelar sem perceber. — Qual palavra? A mandíbula dele travou. — Você sabe. — Sei. Baixei um pouco o tom. — E exatamente por isso a gente não vai antecipar diagnóstico. Nem pra dizer que é câncer. Nem pra dizer que não é. O silêncio da sala mudou. Vicente desviou o olhar. Pela primeira vez desde que cheguei, ele não parecia Nero. Parecia um homem tentando não ouvir uma palavra. Voltei para Benício. — Você quer ir ao médico que seu pai marcou? Ele pensou. — Quero. Vicente levantou os olhos. — Mas eu quero saber quem ele é antes. — Eu te mostro. — E quero que ele fale comigo também. Não só com vocês. — Ele vai falar. — Pai. — Que foi? — Você acabou de responder por ele de novo. Celina levou a mão à boca. Eu tive que me controlar. Vicente respirou fundo. — Foi m*l. Benício arregalou os olhos. — Caraca. — Não força. — Você pediu desculpa. — Benício. — Eu devia gravar. — Quer perder o celular? — Voltou ao normal. Dessa vez até Vicente sorriu. Pouco. Mas sorriu. A tensão cedeu alguns centímetros. ⸻ Peguei uma folha. — Vamos fazer direito. Consulta primeiro. O médico vai definir os exames ou procedimentos necessários. Tudo que for solicitado, a gente protocola no plano. — E se negarem? — Celina perguntou. — A gente pede a negativa formal, com justificativa. Guarda protocolo, relatório, pedido médico, tudo. Vicente apoiou os antebraços sobre a mesa. — E você entra na Justiça. — Se houver fundamento e necessidade, sim. — E demora quanto? — Não vou te prometer prazo. Ele me encarou. — Carolina. — Vicente. — Se meu filho precisar de uma coisa urgente, eu não vou ficar esperando papel. — Então torce pra nunca precisar depender de uma decisão judicial. — Não brinca com isso. — Eu não tô brincando. Minha voz ficou firme. — Eu trabalho com gente que chega no escritório achando que advogado tem um botão escrito “liminar” na mesa. Não existe. Eu posso preparar um pedido, demonstrar urgência, juntar relatório, provar negativa, fundamentar. Quem decide é juiz. Ele se recostou. — Então faz o juiz decidir. Quase sorri. Era exatamente ele. — Não funciona assim. — Tudo funciona de algum jeito. — E esse é o primeiro problema que você vai ter que entender. Os olhos dele escureceram. — Qual? — Nesse assunto, ninguém trabalha sob sua ordem. Celina fechou os olhos como quem previa uma explosão. Benício ficou imóvel. Vicente me encarou por alguns segundos. Eu sustentei. — Médico não trabalha sob sua ordem — continuei. — Plano não vai liberar porque você mandou. Eu não vou ajuizar medida sem documento porque você quer. E juiz não decide porque você tem pressa. — Meu filho pode estar doente. — Eu sei. — Não, você não sabe. A frase veio carregada. Não recuei. — Você tem razão. Eu não sei o que é ser pai dele. Respirei. — Mas sei o que é estar do lado de famílias quando o medo faz todo mundo querer atropelar etapa. E sei que, se você transformar tudo numa guerra antes da hora, o Benício vai ter que enfrentar a investigação e você ao mesmo tempo. Ele olhou pro filho. Benício baixou os olhos. Pronto. Eu não precisava dizer mais nada. Vicente passou a mão pela barba. — A consulta é às três. Olhei o relógio. — Então vocês têm tempo. — Você vai? A pergunta me surpreendeu. — Na consulta? — É. — Não. A expressão dele fechou novamente. — Por quê? — Porque eu sou advogada, Vicente. O médico precisa falar com o paciente e com a família. Eu entro quando existir uma questão jurídica. — E se ele pedir exame pelo plano? — Me manda. Benício apontou pra mim. — Gostei dela. — Ninguém perguntou — Vicente respondeu. — Eu também gostei de você — falei. — Tá vendo? Celina riu. Comecei a guardar os documentos. Foi quando Vicente perguntou: — Quanto você cobra? Olhei para ele. — Depois a gente conversa sobre honorários. — Eu não gosto de dever. — Então você vai amar meu contrato. Benício riu alto. A voz ainda saiu rouca. O riso morreu no rosto de Vicente imediatamente. Eu vi. Ele também. Benício pigarreou. — Tô bem. Vicente não respondeu. Só olhou para o pescoço do filho. Naquele instante, entendi uma coisa que talvez ele ainda não tivesse entendido. O problema não era apenas que seu poder não resolveria tudo. Era que, pela primeira vez na vida, ele já estava percebendo isso antes mesmo de saber contra o que estava lutando. Fechei a pasta. — Uma etapa de cada vez. Dessa vez, Vicente não discutiu. E vindo dele, aquilo já parecia o começo de alguma coisa.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD