Os dias no restaurante de Olívia seguiam sempre o mesmo ritmo: corridos, intensos e cheios demais para qualquer coisa fora do trabalho.
Ela m*l tinha tempo para perceber rostos, muito menos para memorizá-los.
Para ela, pessoas eram clientes. Pedidos. Números de mesa. Preferências anotadas.
Nada além disso.
Alguma coisa dentro dela parecia ter sido desligada com o tempo — como um botão silencioso que apagou a parte da sua vida que envolvia romance, encontros, expectativas.
Ela não procurava ninguém.
E também não esperava ser procurada.
Naquele dia, entre um pedido e outro, ela passou rapidamente pelo salão conferindo uma entrega da cozinha quando percebeu o mesmo cliente de sempre no canto.
Felipe.
Ele estava ali outra vez.
Calmo, observador, como se o mundo ao redor não o apressasse.
Ela não pensou muito nisso. Apenas seguiu.
— Mesa 3 pronta pra sair? — ela perguntou para um dos garçons, já virando para outra direção.
— Tá quase, Oli.
Ela assentiu e voltou para o balcão.
Foi quando ouviu a voz dele pela primeira vez.
— Seu restaurante fica mais cheio a cada semana.
Ela parou por um segundo.
Virou o rosto devagar.
Felipe estava olhando para ela com naturalidade, como se aquilo fosse apenas uma conversa comum.
Olívia deu um leve sorriso educado — automático, profissional.
— Graças a Deus — respondeu simples, ajeitando uma mecha de cabelo preso.
Ele assentiu, como se gostasse da resposta.
— Deve ser difícil manter tudo assim.
— É um pouco — ela disse, sincera, mas sem abrir espaço para mais.
E voltou ao trabalho.
Simples assim.
Sem interesse.
Sem prolongar.
Mas Felipe não parecia incomodado com isso.
Na verdade, parecia o contrário.
Ele gostava da forma como ela era direta.
Sem jogo.
Sem esforço para impressionar.
Ela passou por ele mais algumas vezes durante o dia, sempre apressada, sempre focada.
E ele sempre ali.
Observando.
Não de forma invasiva — mas curiosa.
Como alguém que tenta entender um livro sem ainda ter aberto todas as páginas.
Em um momento mais calmo do movimento, ele voltou a falar.
— Você sempre trabalha assim ou hoje está mais puxado?
Olívia soltou uma leve risada pelo nariz, enquanto organizava uma bandeja.
— Sempre é assim.
— Sempre? — ele repetiu, como se aquilo fosse difícil de imaginar.
Ela deu de ombros.
— Restaurante não espera.
Ela disse aquilo com tanta naturalidade que nem percebeu o próprio peso da frase.
Felipe ficou em silêncio por um segundo.
Depois apenas assentiu.
— Faz sentido.
E voltou a comer, respeitando o espaço dela.
Olívia não percebeu, mas o sorriso que escapou dela naquele momento foi diferente.
Pequeno.
Quase imperceptível.
Não era o sorriso de uma chef para um cliente satisfeito.
Era algo mais leve.
Mais humano.
Mas ela apagou isso rápido.
Porque para ela, ele ainda era só mais um cliente.
E sua vida não tinha espaço para nada além disso.
Nem para perguntas.
Nem para distrações.
Nem para sentimentos.