Capítulo 3

490 Words
Os dias no restaurante de Olívia seguiam sempre o mesmo ritmo: corridos, intensos e cheios demais para qualquer coisa fora do trabalho. Ela m*l tinha tempo para perceber rostos, muito menos para memorizá-los. Para ela, pessoas eram clientes. Pedidos. Números de mesa. Preferências anotadas. Nada além disso. Alguma coisa dentro dela parecia ter sido desligada com o tempo — como um botão silencioso que apagou a parte da sua vida que envolvia romance, encontros, expectativas. Ela não procurava ninguém. E também não esperava ser procurada. Naquele dia, entre um pedido e outro, ela passou rapidamente pelo salão conferindo uma entrega da cozinha quando percebeu o mesmo cliente de sempre no canto. Felipe. Ele estava ali outra vez. Calmo, observador, como se o mundo ao redor não o apressasse. Ela não pensou muito nisso. Apenas seguiu. — Mesa 3 pronta pra sair? — ela perguntou para um dos garçons, já virando para outra direção. — Tá quase, Oli. Ela assentiu e voltou para o balcão. Foi quando ouviu a voz dele pela primeira vez. — Seu restaurante fica mais cheio a cada semana. Ela parou por um segundo. Virou o rosto devagar. Felipe estava olhando para ela com naturalidade, como se aquilo fosse apenas uma conversa comum. Olívia deu um leve sorriso educado — automático, profissional. — Graças a Deus — respondeu simples, ajeitando uma mecha de cabelo preso. Ele assentiu, como se gostasse da resposta. — Deve ser difícil manter tudo assim. — É um pouco — ela disse, sincera, mas sem abrir espaço para mais. E voltou ao trabalho. Simples assim. Sem interesse. Sem prolongar. Mas Felipe não parecia incomodado com isso. Na verdade, parecia o contrário. Ele gostava da forma como ela era direta. Sem jogo. Sem esforço para impressionar. Ela passou por ele mais algumas vezes durante o dia, sempre apressada, sempre focada. E ele sempre ali. Observando. Não de forma invasiva — mas curiosa. Como alguém que tenta entender um livro sem ainda ter aberto todas as páginas. Em um momento mais calmo do movimento, ele voltou a falar. — Você sempre trabalha assim ou hoje está mais puxado? Olívia soltou uma leve risada pelo nariz, enquanto organizava uma bandeja. — Sempre é assim. — Sempre? — ele repetiu, como se aquilo fosse difícil de imaginar. Ela deu de ombros. — Restaurante não espera. Ela disse aquilo com tanta naturalidade que nem percebeu o próprio peso da frase. Felipe ficou em silêncio por um segundo. Depois apenas assentiu. — Faz sentido. E voltou a comer, respeitando o espaço dela. Olívia não percebeu, mas o sorriso que escapou dela naquele momento foi diferente. Pequeno. Quase imperceptível. Não era o sorriso de uma chef para um cliente satisfeito. Era algo mais leve. Mais humano. Mas ela apagou isso rápido. Porque para ela, ele ainda era só mais um cliente. E sua vida não tinha espaço para nada além disso. Nem para perguntas. Nem para distrações. Nem para sentimentos.
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