A estrada era longa.
O tipo de viagem que faz o silêncio ficar mais presente do que qualquer conversa.
Felipe dirigia com calma, enquanto Olívia olhava pela janela, já com algumas sacolas das compras no banco de trás.
O restaurante parecia longe demais agora.
E a fazenda… mais ainda.
— Tá cansada? — ele perguntou, sem tirar os olhos da estrada.
— Um pouco — ela respondeu. — Minha cabeça não para.
Ele assentiu.
— Você pensa demais.
— Eu trabalho demais — ela corrigiu.
Ele sorriu de leve.
— É quase a mesma coisa.
Olívia virou o rosto pra ele.
— Não é não.
— É sim.
Ela ia responder… mas acabou rindo.
E o silêncio voltou de forma estranhamente confortável.
Depois de horas, o céu já estava escuro quando eles pararam em uma pousada simples no meio do caminho.
— Vamos dormir aqui hoje — Felipe disse. — Não dá pra chegar direto.
Olívia soltou um suspiro.
— Perfeito… mais uma coisa fora do controle.
— Bem-vinda à viagem — ele respondeu.
A pousada era pequena, silenciosa, com corredores de madeira e luz amarelada.
Quando entraram no quarto, Olívia parou na porta.
— Só tem uma cama.
Felipe olhou.
— Eu tô vendo.
Ela cruzou os braços.
— Isso não foi planejado.
— Nada aqui foi planejado direito — ele respondeu com calma.
Ela passou a mão no rosto.
— Tá… ok. A gente já fez coisa pior.
— Isso é reconfortante ou assustador? — ele perguntou.
— Não sei ainda.
Ele riu.
Eles organizaram as coisas em silêncio, cada um tentando manter o espaço natural entre eles.
Mas à medida que o tempo passava, o cansaço começou a pesar.
Olívia saiu do banheiro com o cabelo preso de qualquer jeito, vestindo uma roupa simples de dormir.
Felipe já estava sentado na cama, mexendo no celular.
Quando ele a viu, parou por um segundo.
— O que foi? — ela perguntou, desconfiada.
— Nada.
Mas não era “nada”.
Ela percebeu.
— Felipe…
— Você tá cansada — ele desviou o assunto.
Ela suspirou e sentou do outro lado da cama.
— Só quero que esse fim de semana passe logo sem desastre.
— Vai passar — ele respondeu.
Silêncio.
A proximidade ali era diferente.
Sem restaurante.
Sem funcionários.
Sem distrações.
Só eles.
Olívia deitou primeiro, virando de lado.
— Boa noite, “marido” — ela disse baixo, tentando aliviar o clima.
— Boa noite, “esposa” — ele respondeu no mesmo tom.
Minutos se passaram.
O silêncio deveria ser normal.
Mas não era.
Felipe ainda estava acordado quando ouviu a respiração dela ficar mais leve.
Olívia tinha dormido.
Ele virou o rosto devagar.
A luz fraca da janela iluminava o rosto dela.
Sereno.
Cansado.
Real.
Ele ficou olhando por um tempo maior do que deveria.
A mão dele se moveu quase sem perceber… até parar no meio do caminho.
“Contrato.”
Ele respirou fundo.
— Isso aqui não pode sair do controle… — murmurou pra si mesmo.
Mas o problema era justamente esse.
Já estava saindo.
Ele se virou de lado, fechando os olhos.
E, sem perceber, acabou se aproximando um pouco mais dela durante a noite.
Não o suficiente para invadir.
Mas o suficiente para deixar tudo mais difícil no dia seguinte.