capítulo 15

869 Words
O carro subiu a estrada de terra devagar. A cada metro percorrido, o ar parecia mudar. Mais aberto. Mais vivo. Mais antigo. Quando a fazenda finalmente apareceu no horizonte, Olívia ficou em silêncio por alguns segundos. Felipe desacelerou um pouco o carro. — Nossa… que lugar bonito — ele disse, olhando pela janela. Olívia sorriu de leve. — É lindo mesmo. Fez uma pausa. — Às vezes eu sinto saudade daqui. Felipe olhou de canto. — Não parecia muito quando você estava comprando roupa de fazenda. Ela riu. — É que eu me desacostumei. Aqui eu era outra pessoa. Ele franziu levemente a testa. — Outra pessoa? Ela assentiu, olhando para fora. — Mais solta… mais bagunceira também. Ele soltou um sorriso. — Difícil imaginar. — Ah é? — ela virou pra ele. — Você tinha que me ver aqui. — Me conta. Olívia apoiou o braço na porta, ficando mais à vontade pela primeira vez na viagem. — Eu montava cavalo, corria por tudo isso aqui… esse gramado inteiro era meu. Felipe sorriu. — Sério? — Sério. Ela respirou fundo, olhando a paisagem. — Eu tenho dois cavalos. Ele ergueu a sobrancelha. — Você tem cavalos? — Tenho. Dois. O sorriso dela cresceu. — Um se chama Hércules… e o outro Máximos. Felipe riu. — Nomes fortes. — Meu pai que escolheu um deles — ela disse, mais baixa. — O Máximos foi presente dele. Fez uma pausa. — E o Hércules… eu ajudei ele nascer. Eu me apaixonei por ele na hora. Felipe ficou em silêncio, ouvindo. — Ninguém monta neles — ela continuou. — Eles não deixam. Só eu. Olhou para ele com um brilho diferente no olhar. — Eu corria por tudo isso aqui… pensava que esse lugar nunca ia mudar. O sorriso dela diminuiu um pouco. — Depois que meu pai morreu… tudo ficou mais pesado. A voz dela ficou mais baixa, mais sincera. — Meu tio cuidou de algumas coisas por um tempo… mas ele acabou… desviando parte das coisas da fazenda. Felipe franziu a testa. — Sério? Ela assentiu. — Hoje ele tem a própria fazenda. Nem fica muito longe daqui. Respirou fundo. — Aqui ficou só minha mãe, minha avó… e minha tia. Olhou pela janela. — E o marido da minha tia. Era basicamente isso. Uma pausa. — Depois de um tempo… eu não me via mais aqui. Ela engoliu seco. — Então eu fui embora. Felipe a olhava agora com mais atenção do que antes. — E você construiu tudo aquilo sozinha? Ela deu de ombros. — Comecei com um quarto alugado na cidade… pouco dinheiro… muita vontade. Sorriu de leve. — E muita fome de não voltar pra cá derrotada. Felipe ficou em silêncio por alguns segundos. — Eu tô completamente encantado pela sua história, Olívia. Ela o olhou rápido. E por um instante… os dois ficaram só se encarando. O mundo pareceu parar por um segundo curto demais. Até que uma voz quebrou tudo. — OLÍVIA! Ela virou de repente. — Mãe! A mãe dela e a avó vieram correndo pelo caminho, emocionadas. — Minha filha! — a mãe gritou, já a abraçando forte. — Meu Deus, minha menina! — a avó completou. Olívia riu, sendo apertada pelos dois lados. — Eu tô aqui, eu tô aqui! Felipe ficou um passo atrás, apenas observando a cena com um sorriso leve. — Que bom que você veio, meu amor — a mãe dela disse, segurando o rosto da filha. — Desculpa não ter ido antes… é muito trabalho lá na cidade, né? — É… muita coisa — Olívia respondeu. A avó a olhou com carinho. — Você precisa cuidar mais de você, minha filha. O trabalho sempre vem primeiro pra você. Ela sorriu de lado. — Mas agora pelo menos você casou, né? Isso me deixa mais tranquila. Olívia travou por meio segundo. E olhou para Felipe. A mãe dela acompanhou o olhar. — Nossa… minha filha… você casou com um rapaz muito bonito. Olívia baixou os olhos, vermelha. — Mãe… — Ué, é verdade — ela continuou. — Você sempre disse que ia casar com um homem alto, forte… desses aí. A avó riu. — Não é que conseguiu mesmo? Felipe riu também, leve, entrando no clima. — Eu tento manter o padrão, senhora. Olívia cobriu o rosto. — Vocês estão me matando… — Nada disso, minha filha — a mãe disse, rindo. — Agora deixa a gente conhecer direito ele. A avó estendeu a mão. — Eu sou Maria. Prazer, meu filho. Felipe apertou com respeito. — Prazer, senhora Maria. Eu sou o Felipe. — Finalmente, minha neta arrumou alguém — ela disse, sorrindo. — Ela vive pro trabalho. A mãe dela completou: — Agora ela precisa viver um pouco pra ela também. Olívia desviou o olhar, ainda tímida. Felipe olhou pra ela de lado. E sorriu. — Eu concordo com isso. Silêncio leve. Então a mãe dela abriu os braços. — Vamos entrar. Vocês devem estar cansados da viagem. E assim, entre abraços, risos e expectativas… Olívia e Felipe atravessaram juntos o portão da fazenda. Sem saber ainda que aquela casa… seria o lugar onde o “contrato” começaria a ser testado de verdade.
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