O carro subiu a estrada de terra devagar.
A cada metro percorrido, o ar parecia mudar.
Mais aberto.
Mais vivo.
Mais antigo.
Quando a fazenda finalmente apareceu no horizonte, Olívia ficou em silêncio por alguns segundos.
Felipe desacelerou um pouco o carro.
— Nossa… que lugar bonito — ele disse, olhando pela janela.
Olívia sorriu de leve.
— É lindo mesmo.
Fez uma pausa.
— Às vezes eu sinto saudade daqui.
Felipe olhou de canto.
— Não parecia muito quando você estava comprando roupa de fazenda.
Ela riu.
— É que eu me desacostumei. Aqui eu era outra pessoa.
Ele franziu levemente a testa.
— Outra pessoa?
Ela assentiu, olhando para fora.
— Mais solta… mais bagunceira também.
Ele soltou um sorriso.
— Difícil imaginar.
— Ah é? — ela virou pra ele. — Você tinha que me ver aqui.
— Me conta.
Olívia apoiou o braço na porta, ficando mais à vontade pela primeira vez na viagem.
— Eu montava cavalo, corria por tudo isso aqui… esse gramado inteiro era meu.
Felipe sorriu.
— Sério?
— Sério.
Ela respirou fundo, olhando a paisagem.
— Eu tenho dois cavalos.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Você tem cavalos?
— Tenho. Dois.
O sorriso dela cresceu.
— Um se chama Hércules… e o outro Máximos.
Felipe riu.
— Nomes fortes.
— Meu pai que escolheu um deles — ela disse, mais baixa. — O Máximos foi presente dele.
Fez uma pausa.
— E o Hércules… eu ajudei ele nascer. Eu me apaixonei por ele na hora.
Felipe ficou em silêncio, ouvindo.
— Ninguém monta neles — ela continuou. — Eles não deixam. Só eu.
Olhou para ele com um brilho diferente no olhar.
— Eu corria por tudo isso aqui… pensava que esse lugar nunca ia mudar.
O sorriso dela diminuiu um pouco.
— Depois que meu pai morreu… tudo ficou mais pesado.
A voz dela ficou mais baixa, mais sincera.
— Meu tio cuidou de algumas coisas por um tempo… mas ele acabou… desviando parte das coisas da fazenda.
Felipe franziu a testa.
— Sério?
Ela assentiu.
— Hoje ele tem a própria fazenda. Nem fica muito longe daqui.
Respirou fundo.
— Aqui ficou só minha mãe, minha avó… e minha tia.
Olhou pela janela.
— E o marido da minha tia. Era basicamente isso.
Uma pausa.
— Depois de um tempo… eu não me via mais aqui.
Ela engoliu seco.
— Então eu fui embora.
Felipe a olhava agora com mais atenção do que antes.
— E você construiu tudo aquilo sozinha?
Ela deu de ombros.
— Comecei com um quarto alugado na cidade… pouco dinheiro… muita vontade.
Sorriu de leve.
— E muita fome de não voltar pra cá derrotada.
Felipe ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu tô completamente encantado pela sua história, Olívia.
Ela o olhou rápido.
E por um instante… os dois ficaram só se encarando.
O mundo pareceu parar por um segundo curto demais.
Até que uma voz quebrou tudo.
— OLÍVIA!
Ela virou de repente.
— Mãe!
A mãe dela e a avó vieram correndo pelo caminho, emocionadas.
— Minha filha! — a mãe gritou, já a abraçando forte.
— Meu Deus, minha menina! — a avó completou.
Olívia riu, sendo apertada pelos dois lados.
— Eu tô aqui, eu tô aqui!
Felipe ficou um passo atrás, apenas observando a cena com um sorriso leve.
— Que bom que você veio, meu amor — a mãe dela disse, segurando o rosto da filha. — Desculpa não ter ido antes… é muito trabalho lá na cidade, né?
— É… muita coisa — Olívia respondeu.
A avó a olhou com carinho.
— Você precisa cuidar mais de você, minha filha. O trabalho sempre vem primeiro pra você.
Ela sorriu de lado.
— Mas agora pelo menos você casou, né? Isso me deixa mais tranquila.
Olívia travou por meio segundo.
E olhou para Felipe.
A mãe dela acompanhou o olhar.
— Nossa… minha filha… você casou com um rapaz muito bonito.
Olívia baixou os olhos, vermelha.
— Mãe…
— Ué, é verdade — ela continuou. — Você sempre disse que ia casar com um homem alto, forte… desses aí.
A avó riu.
— Não é que conseguiu mesmo?
Felipe riu também, leve, entrando no clima.
— Eu tento manter o padrão, senhora.
Olívia cobriu o rosto.
— Vocês estão me matando…
— Nada disso, minha filha — a mãe disse, rindo. — Agora deixa a gente conhecer direito ele.
A avó estendeu a mão.
— Eu sou Maria. Prazer, meu filho.
Felipe apertou com respeito.
— Prazer, senhora Maria. Eu sou o Felipe.
— Finalmente, minha neta arrumou alguém — ela disse, sorrindo. — Ela vive pro trabalho.
A mãe dela completou:
— Agora ela precisa viver um pouco pra ela também.
Olívia desviou o olhar, ainda tímida.
Felipe olhou pra ela de lado.
E sorriu.
— Eu concordo com isso.
Silêncio leve.
Então a mãe dela abriu os braços.
— Vamos entrar. Vocês devem estar cansados da viagem.
E assim, entre abraços, risos e expectativas…
Olívia e Felipe atravessaram juntos o portão da fazenda.
Sem saber ainda que aquela casa…
seria o lugar onde o “contrato” começaria a ser testado de verdade.