Meu nome é Sebastian Crowe.
E naquela noite, eu me tornei exatamente o tipo de desgraçado que sempre prometi ser. Um cara moldado pelo aço, pelo gelo e pelo triunfo absoluto. Rico pra c*****o. Intocável. Vitorioso. Um predador no topo da cadeia alimentar dessa selva de pedra corporativa, onde se tu vacilar um segundo, o abismo te engole sem mastigar. A hesitação é o primeiro passo pra virar comida de tubarão, e eu, meus amigos, eu sou o megalodonte dessa p***a.
Eu não cheguei nesse patamar por sorte. Sorte é a desculpa que os fracassados e os medíocres usam pra justificar por que a vida deles é uma bosta enquanto a minha é um comercial de luxo. Eu construí cada centavo do meu império com uma estratégia implacável, uma frieza que os otários chamam de crueldade, mas que eu chamo de visão. Eu tenho uma capacidade quase doentia de enxergar o ouro onde os outros só veem lama e ruína. Eu não recuava diante do risco; eu devorava o risco no café da manhã e cuspia os ossos.
E naquela noite, o mundo inteiro se curvou pra confirmar que eu sou o dono do tabuleiro.
O salão de festas era um monumento à falta de modéstia, um deboche na cara da pobreza. Lustres de cristal maciço pendiam do teto como sentinelas de luxo, jogando um brilho sinistro sobre o mármore impecável que refletia a minha cara de quem manda em tudo. Ali, o brilho dos saltos das piranhas de luxo e o corte dos ternos que custam mais que um carro popular eram só a moldura pro verdadeiro espetáculo: o meu poder. Ninguém entrava naquela p***a por acaso, e ninguém saía sem saber que eu era o cara.
Eu tava no centro de tudo. O eixo onde essa elite financeira nojenta girava.
— Sebastian... — o investidor alemão estendeu a mão, com um sorriso mais falso que nota de três reais, ostentando aquela cara de quem acha que sabe jogar. — Você acaba de redefinir as regras do jogo, meu caro.
Apertei a mão do sujeito com a pressão exata pra ele sentir que, se eu quisesse, eu esmagava os ossos dele ali mesmo. Controle é tudo.
— Eu não redefino as regras, seu bosta — respondi, mantendo o tom baixo, grosso, direto na alma dele. — Eu domino o tabuleiro. As regras são o que eu digo que são.
O cara riu. Um riso carregado de medo enrustido de admiração. Todo mundo ali ria pra mim. Babavam o meu ovo buscando uma migalha da minha atenção, um reflexo da glória que eu emanava. O contrato tava fechado. Assinado com o sangue dos meus competidores que eu atropelei sem dó e blindado por uma assessoria jurídica que custa mais que o PIB de um país pequeno. Era um negócio que ninguém teve culhão pra tocar.
Mas eu tive. E agora, o mundo era meu brinquedo.
— Você tem noção da magnitude dessa p***a? — Rafael surgiu do meu lado, já com um copo de cristal na mão, com aquela cara de quem ganhou na loteria. — Sebastian, esse contrato coloca você num patamar onde só os deuses pisam, irmão.
Aceitei o uísque que o garçom me ofereceu com um gesto coreografado. Nem olhei pra ele; pra mim, ele era só um móvel que se mexia.
— Eu já tava nesse patamar, Rafael — retruquei, sentindo o líquido âmbar descer queimando a garganta, uma chama elegante que alimentava o meu ego. — O mundo é que finalmente aprendeu a olhar pra cima e ver quem é que manda.
Nada naquela noite era barato. Nada era pequeno. Nada era comum. Eu sentia o cheiro do dinheiro e do medo no ar, e era o melhor perfume que eu já tinha sentido.
— Isso aqui... — Rafael gesticulou pro salão que fervia — é o nascimento oficial de um magnata. Um rei, p***a!
Eu não corrigi o cara. Magnata tinha o peso certo. Um magnetismo que batia de frente com a realidade que eu criei do nada. Eu sentia isso no modo como as mulheres me comiam com os olhos por cima das taças de champanhe, no silêncio que se instalava quando eu abria a boca e na forma como os caras se aproximavam com um respeito que beirava o pavor. Ali, eu não era mais um empresário que deu certo. Eu era o próprio destino de cada um naquela sala.
— Senhor Crowe... — uma mulher vestida numa seda vermelha que deixava pouco pra imaginação se aproximou. O perfume dela era caro, exótico, mas pra mim cheirava a interesse. — Dizem que o senhor acaba de adquirir metade das propriedades de luxo da costa. É verdade?
Olhei pra ela com um desdém polido, percorrendo aquele rosto perfeito com um olhar de quem tá vendo um objeto de decoração.
— Metade é meta de quem se contenta com pouco, boneca — afirmei, deixando o gelo da minha voz entrar nos poros dela.
Ela mordeu o lábio, tentando usar aquele charme que eu já cansei de ver em mil outras faces interessadas na minha conta bancária.
— Então o senhor pretende tomar o resto?
Inclinei o corpo pro lado dela, o suficiente pra ela sentir o frio da minha presença e tremer na base.
— Eu não pretendo. Eu tomo. Eu busco o que eu quero e ninguém tem força pra me impedir.
O sorriso dela vacilou, a ficha caiu que eu não era um desses playboys fáceis de dobrar. Perdi o interesse antes dela terminar de respirar. Virei as costas, buscando o próximo gole, o próximo aperto de mão de algum hipócrita que meses atrás torcia pra eu cair e agora queria um lugar na minha sombra.
— Um brinde! — alguém gritou, tentando aparecer mais que a música.
Centenas de copos se ergueram num uníssono ensaiado.
— Ao homem da noite!
— Ao novo rei do mercado!
— Ao magnata Sebastian Crowe!
A palavra ecoou pelas paredes de mármore como um mantra. Ergui meu copo num gesto solitário de triunfo, olhando pra minha própria imagem no vidro.
— Ao poder — disse eu, baixinho, só pra mim. Porque o poder de verdade não precisa de plateia pra saber que existe.
Eles repetiram em coro, mas o significado era meu. Pra eles, era o fim de uma festa cara. Pra mim, era o início de uma era onde o meu nome ia ser escrito com letras de sangue e ouro. A música subiu, o ritmo pulsando nas minhas têmporas, e o salão começou a parecer uma caixa de sapato. Eu tinha crescido demais praquelas quatro paredes.
— Sebastian, vai com calma, p***a — Rafael riu, tocando no meu ombro. — Você já conquistou o mundo hoje. Guarda um pouco pra amanhã, o fígado agradece.
— O amanhã é uma promessa incerta, Rafael. O hoje é o meu território, e eu vou marcar ele até a última gota.
— Você vai acabar se consumindo nesse ritmo de louco.
— Eu não quebro, irmão. Eu me fortaleço no fogo.
Eu acreditava nisso com uma convicção quase religiosa. Eu sentia que era feito de uma liga diferente, imune a cansaço, medo ou erro. Eu era um deus andando entre mortais de terno.
Saimos daquela p***a e o ar da rua me atingiu como um tapa na cara necessário. Frio, úmido, com aquele cheiro metálico de metrópole que eu amo. A cidade brilhava sob a chuva, as luzes refletindo nas poças como diamantes jogados na lama. Ver as pessoas comuns passando, vivendo aquelas vidinhas medíocres e limitadas, me deu uma descarga de adrenalina que uísque nenhum daria.
Eu tava acima de tudo e de todos.
— Pra onde vamos agora, chefe? — perguntou um dos sócios, babando pra continuar na minha cola.
Girei a chave do meu monstro de seiscentos cavalos entre os dedos, o metal frio prometendo velocidade e morte.
— Pra onde a noite ainda tiver fôlego e pra onde o perigo me chamar.
— Você vai dirigir? — Rafael perguntou, preocupado com o tanto que eu bebi.
Encarei ele com um olhar que faria um leão recuar.
— Eu sempre tô no controle, Rafael. Da minha empresa, da minha vida e dessa máquina. Ninguém segura o volante por mim.
Entrei no cockpit de couro e fibra de carbono. O silêncio ali dentro era o vácuo perfeito pro meu ego explodir. Liguei o motor, e o rugido que ecoou pela rua deserta foi a resposta que eu precisava. Era o som da fera acordando pronta pra destruir o que viesse pela frente.
— Esse é o som da vitória, p***a — sussurrei pra penumbra do carro, pisando fundo e sentindo o asfalto se curvar diante de mim.