Capítulo 04

2554 Words
Bradock narrando Essa p***a não ia ficar assim, de jeito nenhum. Enquanto eu dirigia de volta pra boca depois de deixar a Melissa e o pequeno em casa, minha cabeça fervia. A cena da praça não saía da minha mente. O sangue no rosto dela, o desespero no choro do moleque... Mano, eu já vi muita coisa por aqui, mas aquilo ali mexeu comigo de um jeito que eu não esperava. "Covarde do c*****o", eu pensava, apertando o volante com força. Maurício ia aprender hoje que aqui, na minha favela, ninguém faz esse tipo de merda e sai ileso. O filho da p**a bateu na mulher, tentou pegar o moleque... e ainda desrespeitou todo mundo na frente de geral. Não ia rolar. Estacionei o carro em frente à boca e desci com a Glock na cintura, pronto pra resolver essa parada. Os soldados tavam todos de prontidão, porque já sabiam que a bronca era séria. — Fala, chefão! — Russo veio na minha direção com aquele jeito debochado dele, mas quando viu minha cara fechada, entendeu que a coisa era outra. — Cadê o merda? — perguntei seco, sem olhar muito pra ele. — Tá na salinha, desacordado ainda. A porrada que tu deu deixou o cara de molho, mas já tão jogando água na cara dele pra acordar — respondeu Russo, acendendo um cigarro. — Bora lá então. Quero resolver isso logo. Russo chamou mais dois caras, Bala e Tijolo, e seguimos juntos até a salinha. Era um cômodo pequeno, sem janela, usado só pra resolver esse tipo de situação. No chão, Maurício tava jogado, com a cara toda amassada e um corte na sobrancelha. Tava molhado da água que jogaram nele, começando a abrir os olhos devagar. — Levanta essa p***a aí — mandei, e Tijolo puxou o cara pelo braço, botando ele de pé. Maurício tava grogue, mas quando me viu, tentou se soltar. Russo deu uma cotovelada nas costelas dele, e ele parou de se mexer na hora. — Tá querendo bancar o valentão agora, é? — falei chegando perto. — Onde tava essa coragem toda quando tu bateu na Melissa e tentou pegar o moleque, hein, desgraçado? Ele não respondeu, só me olhava com ódio. Isso só piorou minha vontade de descer a mão nele. — Não vai falar nada, não? Beleza. Então vou te lembrar das regras do morro. Aqui ninguém encosta numa mulher, ainda mais na mãe do próprio filho. E outra coisa: desrespeitar criança aqui é pedir pra morrer, vacilão. Antes que ele pudesse reagir, dei o primeiro soco, bem no meio da cara dele. O barulho do impacto ecoou na sala, e o sangue já começou a escorrer do nariz dele. Russo e Bala seguravam ele firme, pra não cair. — Tá achando que eu tô brincando, Maurício? Isso aqui é Cidade de Deus, parceiro. Aqui eu mando, e quem desrespeita minhas regras paga caro — falei, com a voz firme e fria, enquanto socava a cara dele sentindo os ossos dele estalarem do sob os meus dedos Ele cuspiu sangue no chão e me olhou com aquela expressão de ódio misturada com medo. Era sempre assim. No começo, eles bancam os fodões, achando que não vai dar nada. Mas quando sentem o peso da porrada, o discurso muda. — Fala alguma coisa, p***a! — gritei, acertando mais um soco no estômago dele. Ele se dobrou de dor, mas os caras seguraram firme pra ele não cair. — Bradock... eu... eu só tava nervoso, cara. Eu bebi demais, não queria bater nela nem no moleque — ele gaguejou, tentando justificar. — Não queria o c*****o! Tu tava bem consciente quando chamou teu próprio filho de defeituoso na frente de todo mundo. Isso eu não esqueço — falei entredentes, sentindo a raiva subir de novo. Dei mais um soco, dessa vez na costela, e senti ele grunhir de dor. O sangue já pingava no chão, e a respiração dele tava pesada. — vocês tão vendo, né? — olhei pros meus soldados. — Isso aqui é exemplo do que acontece com quem não respeita a própria família. — Vai matar ele, chefia? — perguntou Russo, ainda segurando Maurício. — Não. Ainda não. Matar seria fácil demais. Esse arrombado vai sair daqui sabendo que nunca mais encosta na Melissa e nem olha pro Noah. Entendeu, Maurício? — falei, segurando o queixo dele e fazendo ele me encarar. Ele não respondeu, só balançou a cabeça devagar. Eu soltei o queixo dele com força, e ele caiu de joelhos no chão. Mas aquilo ainda não parecia suficiente. A cena dele tentando arrancar o moleque do colo da Melissa, indo pra cima dela na minha frente, ainda me deixava pilhado. O sangue dela escorrendo pela cara, o choro desesperado do Noah... Eu não ia deixar passar barato. — Levanta essa p***a de novo — ordenei, acendendo um cigarro enquanto caminhava devagar pela salinha. Russo e Tijolo pegaram Maurício pelos braços e o botaram de pé mais uma vez, mesmo que ele m*l conseguisse ficar em pé por conta própria. — Escuta aqui, Maurício, presta atenção, porque eu só vou falar uma vez — comecei, tragando o cigarro e soltando a fumaça devagar. — A partir de hoje, tu tá fora do meu morro. Não encosta mais na Melissa, não olha pro Noah e não pisa nessa favela nunca mais. Tá entendendo? Ele balançou a cabeça, mas continuava com aquela expressão de ódio, como se ainda tivesse alguma coragem sobrando. — Não, não. Responde direito, p***a! Tu entendeu ou não? — gritei, chegando bem perto dele. — Entendi... entendi — ele gaguejou, cuspindo mais sangue no chão. — Ótimo. Mas antes de sair daqui, tem uma coisa que tu precisa aprender — falei, olhando pros meus soldados. — Bala, Russo, Tijolo... Mostra pra ele o que acontece com covarde que levanta a mão pra mulher e desrespeita criança no meu território. — Deixa com a gente, chefia — disse Bala, com aquele sorriso sádico que ele sempre dava antes de partir pra cima de alguém. Os três começaram a bater nele sem dó, soco, chute, o que viesse. Eu fiquei encostado na parede, fumando e observando, sem desviar o olhar por um segundo. Cada porrada que ele levava parecia aliviar um pouco da raiva que eu ainda sentia. Maurício gemia, tentava se proteger, mas não tinha pra onde correr. Russo acertou um chute forte nas costelas dele, e eu pude ouvir o estalo do osso. Ele caiu de lado no chão, se contorcendo de dor. — Bora, levanta! Não acabou ainda, não — Tijolo puxou ele pelo colarinho, mas Maurício m*l conseguia manter os olhos abertos. — Chefia, vai deixar a gente arrebentar ele até o fim? — perguntou Russo, enquanto acendia outro cigarro e olhava pra mim, esperando a ordem final. Traguei meu cigarro uma última vez, joguei a bituca no chão e pisei em cima. — Chega. Já tá bom. Não quero ele morto, só quebrado — falei, dando de ombros. — Agora bota ele num carro e joga lá na entrada do asfalto. Quero ele bem longe daqui. Os soldados pararam de bater, mas Maurício já tava um trapo no chão, todo arrebentado. Sangue escorria da boca, do nariz, e eu sabia que ele ia lembrar dessa lição por muito tempo. — E ouve bem, Maurício — falei, me abaixando pra ficar na altura dele, enquanto ele gemia de dor. — Se eu ouvir que tu chegou perto da Melissa de novo, ou até tentou contato, tu não vai sair vivo da próxima. Aqui no meu morro, mulher e criança têm valor. E quem não entende isso, aprende na porrada. E já que tu é tão brabo, tu vai sair com a roupa do corpo e se virar por conta própria - eu falo dando um tapa na cara dele Ele tentou balbuciar alguma coisa, mas eu não dei ouvidos. Levantei e fiz sinal pros soldados. — Bora, resolve isso logo. Joga ele fora daqui. Não quero mais ver esse arrombado. Russo e Bala levantaram Maurício do chão, cada um segurando um braço, e arrastaram ele pra fora da salinha. Tijolo foi atrás, dando cobertura. Fiquei ali por uns segundos, sozinho, olhando o chão sujo de sangue e pensando no que tinha acabado de acontecer. Eu já fiz muita coisa nessa vida, já vi muita cena pesada, mas ver a Melissa naquela situação, defendendo o filho sozinha, me pegou de jeito. Era uma mulher forte, guerreira. E aquele moleque, o Noah... ele só queria paz. Traguei fundo mais uma vez e saí da salinha, sentindo o ar quente da noite bater no meu rosto. A rua tava silenciosa, o morro inteiro sabia que alguma coisa séria tinha acontecido, mas ninguém se atrevia a perguntar. Antes de voltar pra casa, passei na boca de novo. Os soldados ainda tavam lá, atentos, mantendo a segurança. Bala veio na minha direção depois de deixar Maurício no asfalto. — Chefia, tá resolvido. O cara foi largado lá na entrada, bem fodido. Não volta tão cedo. — Beleza. Qualquer coisa, me chama. Fica esperto aí. — Pode deixar. Aqui tá tudo no esquema. Subi pro carro e peguei o caminho de volta pra minha casa. A raiva já tava passando, mas ainda me sentia pilhado. Eu estava todo sujo do sangue daquele merda e precisando de um banho. Quando cheguei em casa, a Melissa tava sentada no quarto com o Noah dormindo no colo. Ela me olhou, e eu vi que os olhos dela ainda tavam vermelhos de tanto chorar. — Tá tudo certo agora — falei, direto. — Ele não vai mais te incomodar. Ela não respondeu, só deu um suspiro de alívio e olhou pro Noah, que dormia tranquilo. Aquela cena, deles dois ali, me fez pensar em muita coisa. Eu sempre fui o Bradock, o chefe, o cara que manda no morro. Mas ali, naquele momento, eu me senti mais do que isso. Me senti responsável por eles. — você precisa de alguma coisa? — perguntei, meio sem jeito. — Não, só... obrigada — ela disse, com a voz baixa. — Esse molecão ai come pizza? Por que eu to cheio de fome, e aposto que ele vai acordar com fome — eu sorri — Pior que ele adora pizza — ela falava olhando pra ele com tanto amor, passa os dedos desenhando o rostinho dele — Então nosso jantar hoje vai ser pizza — eu sorri e peguei o celular ja mexendo no w******p e pedindo a pizza. — E ele gosta de quê? Calabresa? Frango? — perguntei, já digitando no celular. — Calabresa... sem cebola, ele odeia cebola — Melissa respondeu, ajeitando Noah no colo com cuidado. Dei risada baixo, porque era engraçado ver como ela sabia cada detalhe sobre o moleque. Coisa de mãe, né? Eu podia até ser o chefe do morro, mas respeito por mulher guerreira era uma parada que eu carregava desde moleque, e Melissa tava me provando que ela era braba mesmo. — Beleza, calabresa sem cebola, tá anotado. Pedi umas de queijo também, porque eu tô com fome de pedreiro hoje. E um refrigerante grande, que ninguém aqui vai dormir de barriga vazia — falei, largando o celular no bolso - eu já volto jae- eu falo e ela concorda Fui no meu quarto e tomei um banho rapidão, tirei aquele cheiro de suor e sangue, me sequei, vesti uma bermuda, passei um perfume e voltei pro quarto onde ela estava Assim que eu entrei ela me olhou fixo, e eu pude ver ela engolir seco, mas logo desviar o olhar. Me aproximei e sentei na beirada da cama, olhando pra ela, e o Noah ainda dormia no seu colo… Melissa não disse nada, só deu aquele sorriso discreto, meio sem jeito, e ficou quieta. Parecia que ela tava aproveitando o momento de paz, porque, pelo jeito, não era algo que ela tinha com frequência. Noah começou a se mexer no colo dela, como se sentisse que o clima tava mais tranquilo. Ele abriu os olhinhos devagar e olhou ao redor, meio confuso, até que viu Melissa. Automaticamente, ele abriu um sorriso largo, inocente, puro. Aquilo bateu em mim de um jeito que eu não sei explicar. — Ei, campeão! Tá de boa? — perguntei, levantando a mão pra ele. Noah ficou me encarando por uns segundos, meio tímido, mas aí Melissa sussurrou alguma coisa no ouvido dele, e ele, ainda sonolento, esticou a mãozinha e bateu na minha, do jeito dele. Eu ri. — Esse moleque é firmeza, hein. Já tá fazendo amizade com o tio aqui — falei, tentando quebrar o gelo. — Ele demora um pouco pra se soltar, mas quando gosta de alguém, fica grudado — Melissa explicou, passando a mão pelos cabelos bagunçados dele. — E parece que ele gostou de você. — Quem não gosta de mim, né? — brinquei, piscando pra Noah, que riu baixinho. A campainha tocou, e eu me levantei. E fui até na sala pra pegar. Bala abriu o portão e subiu com as pizzas. — Tá na mão, chefia. Pediu caprichada, hein? — Bala comentou, largando as caixas na mesa de centro. — Claro, aqui não tem miséria — falei, já abrindo as caixas e sentindo o cheiro invadir a sala. Vejo ela descendo com o Noah e ele já estava com os olhos brilhando, o bala me olha, e olha pra ela, e eu faço sinal pra ele vazar, ele já sai logo correndo — Vem cá, Noah, vamos comer essa pizza antes que esfrie. Noah desceu do colo da Melissa e veio até a mesa. Eu peguei um pedaço de calabresa e coloquei no prato dele. — Sem cebola, como o chef pediu — brinquei, entregando o prato. Ele pegou o pedaço com as mãozinhas e deu uma mordida, todo concentrado, enquanto Melissa colocava uma toalha no colo dele pra não sujar a roupa. A cena era tão simples, mas ao mesmo tempo tão diferente de tudo que eu costumava ver no meu mundo. — Tá gostosa, campeão? — perguntei, e ele balançou a cabeça afirmativamente, com a boca cheia. — Ele ama pizza, né, filho? — Melissa disse, olhando pra ele com aquele olhar de mãe que faz tudo valer a pena. — Desde pequeno, sempre foi a comida favorita dele. A gente ficou ali, comendo e trocando ideia. Eu tentava não pensar no caos que tinha rolado mais cedo, mas era inevitável. Ver Melissa relaxada, cuidando do Noah, me dava uma sensação esquisita, uma vontade de proteger eles mais do que eu já tinha feito. Depois de um tempo, Noah começou a ficar com sono de novo. Melissa levantou com ele e foi até o quarto que eu tinha arrumado pra eles. — Eu vou deitar ele um pouquinho. Ele sempre dorme cedo, e hoje foi muita coisa pra ele — explicou, ajeitando Noah no colo. — Beleza, fica à vontade. Se precisar de alguma coisa, só gritar — falei, enquanto terminava minha pizza. Ela subiu as escadas devagar, e eu fiquei ali, olhando pra sala. Aquela casa, que sempre foi só minha, de repente parecia diferente com eles ali. Não era só uma questão de abrigo. Era como se, de alguma forma, eu tivesse encontrado uma responsabilidade maior do que comandar o morro. Eu não queria admitir.
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