Capítulo 03

1651 Words
Melissa narrando Eu estava exausta. Eu olhava pro Noah dormindo e eu queria dormir também, minha cabeça estava doendo, meu corpo estava acabado, tudo doía, e eu não tinha nem roupa pra vestir, não tinha nada. Minha vida nunca foi fácil, mas eu tinha uma certa estabilidade desde nova. Minha mãe nunca me deixou faltar nada. Mesmo eu não tendo conhecido o meu pai, eu sempre tive uma vida tranquila. Não esbanjava nada, mas o essencial eu sempre tive. Eu tava sentada na beira da cama, olhando pro Noah dormindo tranquilo. As olheiras pesavam no meu rosto, minha cabeça latejava, e cada canto do meu corpo parecia ter levado uma surra, o que de fato aconteceu. Mas ver ele ali, sereno, me dava forças. Meu filho era minha maior motivação, meu motivo de levantar todos os dias, mesmo com o mundo desabando em cima de mim. — você não sabe o quanto eu te amo, meu amor… — sussurrei, passando a mão nos cachinhos dele. A casa do Bradock era um luxo que eu nunca tinha visto na vida. O ar-condicionado deixava o quarto fresco, tinha uma televisão enorme presa na parede, lençóis que pareciam seda, e o banheiro… Deus, o banheiro parecia de novela. Mas nada disso conseguia tirar a sensação de peso que eu carregava no peito. Minha mãe sempre falava: “Melissa, a vida é dura, mas a gente é mais”. E eu levei isso comigo. Minha mãe era uma guerreira. Trabalhava dia e noite pra que eu nunca sentisse falta de nada. Ela limpava casa, lavava roupa, cuidava dos filhos dos outros, mas sempre voltava pra casa com um sorriso no rosto e um abraço apertado pra mim. Quando eu era pequena, eu não ficava muito na rua. As meninas da minha idade estavam sempre fofocando nas esquinas, tentando chamar a atenção dos moleques mais velhos, mas eu não. Eu gostava de ir direto pra casa, fazer as coisas pra ajudar minha mãe, deixar tudo pronto pra quando ela chegasse. A gente era parceira. Melhor amiga uma da outra. Eu amava quando ela chegava em casa e nós cozinhávamos juntas. Tudo o que eu sei foi ela quem me ensinou, ela me mostrou tudo da vida. Ela me contava tudo o que a vida realmente era, as dores, as dificuldades, e o que valia a pena, que eram os nossos momentos juntas, que era o que fazia a vida dela colorida. Minha mãe e meu chão, minha base, minha força, e eu me dedico todos os dias pra ser pelo menos metade do que ela foi pra mim Quando eu conheci o Maurício, nós estávamos na escola ainda. Todos os meninos me queriam, apostavam pra ver quem teria a minha atenção, mas eu nunca dei confiança pra ninguém. Tinha listinha de votação e eu sempre era eleita a mais bonita, mas eu nem ligava pra essas coisas. As meninas me odiavam por todos os meninos me quererem, mas eu não via vantagem nenhuma nisso. Até o próprio Bradock, mas eu sempre o vi como um amigo, amava brincar com ele na rua, até ele mergulhar de cabeça na boca. Foi quando eu me aproximei e dei a******a pro Maurício, eu já estava iniciando a adolescência quando começamos a namorar Maurício era meu primeiro amor. Ele era o típico garoto popular da escola, e eu, a menina tímida que só queria passar despercebida. A gente começou a namorar cedo, ele foi meu primeiro beijo, meu primeiro tudo. E no começo ele era outro homem. Era gentil, carinhoso, fazia planos comigo. A gente começou nossa lojinha juntos, numa barraquinha na feira, vendendo coisas de celular. A gente ralou tanto pra ter o que tinha. Eu era menina ainda, mas já trabalhava como mulher, segurava a barra pesada com ele. Nunca corri do trabalho Tudo mudou quando engravidei do Noah. No começo, ele parecia feliz, empolgado, dizia que ia ser o melhor pai do mundo. Mas quando Noah nasceu e veio com suas necessidades especiais, ele se afastou. Ele nunca pegou Noah no colo. Nunca trocou uma fralda, nunca foi em uma consulta. Eu ia pra médico sozinha, me virando na pista, dirigindo sozinha com o Noah dando crise, muitas vezes eu tinha que ir com Noah no colo, ele chorando de dor, eu chorando junto por dentro, mas sem deixar uma lágrima cair na frente do meu filho. E ali eu já não tinha mais minha mãe pra me apoiar, pra me dar forças. Ela morreu dois meses após eu descobrir que estava grávida, nem chance de conhecer o Nono ela teve e isso me sangra o coração todos os dias Quando ela morreu, parte de mim morreu com ela. E foi exatamente nessa época que o Maurício começou a mostrar quem ele realmente era. — Acredita que eu já fui apaixonada por esse homem, Noah? — murmurei, olhando pra ele dormindo. Nós já tínhamos tudo quando o Noah nasceu, casa, carros, motos, estávamos com a vida estabilizada, foi por isso que eu decidi engravidar, não foi acidente. Foi muito bem planejado. Nós tínhamos uma vida perfeita Eu olho pro meu filho e as lágrimas caíam do meu rosto, ao relembrar todo o meu passado — A mamãe nunca vai te abandonar, meu amor… nunca — sussurrei, segurando a mãozinha dele. Maurício começou a sumir. Quando o Noah nasceu, minha vida virou um inferno, não pelo meu filho, mas pelo pai dele. Maurício voltava pra casa bêbado, às vezes nem voltava. O dinheiro da loja começou a sumir, as contas começaram a atrasar, ele vendeu as duas motos, ele vendeu um carro, e a luz foi cortada mais de uma vez. Era humilhante pedir favor pra vizinha pra dar banho no meu filho, porque ele não podia tomar banho frio por causa das crises. E Maurício? Ele tava sempre na rua, bebendo, se metendo com mulherada, gastando o dinheiro que deveria ser do nosso filho. Quando eu peguei a primeira traição foi horrível, eu chorei por dias, o nosso casamento morreu ali. Eu tinha acabado de sair do hospital com o Noah, nosso filho tinha duas semanas de vida, tinha levado ele pra fazer alguns exames. Nesse dia eu não fui pra casa direto. Eu estava sozinha, ainda tinha cada um o seu carro, eu passei na loja sem avisar a ele, ia fazer uma surpresa, mesmo as coisas já estando estranhas entre nós, mas eu estava tentando salvar a minha família. Afinal, seríamos só nós três dali em diante. Foi quando eu peguei a loja fechada, eu entrei e ele estava no depósito com as duas funcionárias fazendo um menage. Eu fiz um escândalo, quebrei a loja inteira, porque tudo ali também era meu, e mandei as duas embora por justa causa, e acabei o meu casamento Mas continuamos morando juntos, eu dependia da loja, a nossa casa foi construída com muito suor, eu não tinha pra onde ir. Então mesmo separada dele eu continuei na casa. Mas casamento não existia mais É mesmo depois de tudo isso eu tentei me dar bem com ele pelo Noah, e porque eu ainda não tinha como me virar, ele estava afundando a loja em dívidas, não me dava dinheiro. Eu entrei com benefício do governo para poder bancar o Noah, e tudo o que meu filho precisava, mas ainda assim não era o suficiente, e eu me via cada vez mais desesperada e sem chão Comecei a vender bolo na favela. Levava as formas pesadas de casa em casa, oferecia com sorriso no rosto. Os meninos da boca sempre compravam de mim, todo dia, todos os bolos, davam gorjeta, alguns até deixavam o dinheiro do bolo “pago” sem pegar o bolo. Mas Maurício… ah, esse desgraçado, roubava até o dinheiro que eu juntava pra comprar material, roubava dinheiro das consultas do nosso filho. Depois disso, desisti dos bolos. Comecei a fazer faxina, quando minha amiga Raquel podia ficar com Noah. Mas nem sempre ela podia, e aí eu tinha que recusar os b***s porque não tinha como fazer com ele Aqui no morro não tinha escola pra ele ainda na época, então eu cortava um dobrado, porque as escolas que o aceitavam eram caríssimas e eu não tinha como contar com o Maurício, eu tinha que me virar sozinha, e isso que me matava, porque nem estudo pro meu filho eu podia oferecer Era horrível, eu passei muita coisa porque não tinha recursos, não tinha o que fazer com o Noah, e sempre fui eu por ele e ninguém por nós. Aguentava muita humilhação do Maurício, em casa era de cachorra pra baixo, mas hoje ele me expôs na rua, me tirou pra merda, humilhou o ser mais precioso desse mundo, o meu tesouro. E ali mesmo sem condições, sem nada, eu tive a coragem de fazer o que já deveria ter feito a muito tempo. E assim a gente foi levando. Cada dia uma batalha. Cada dia uma luta diferente. Mas eu nunca desisti do meu filho, eu sempre me matei e lutei pela saúde do Noah e agora não vai ser diferente, ainda mais que o Bradock vai me ajudar, eu tenho que agradecer tanto a ele pelo que ele fez por mim, tanto! Ele não tem nem noção do quanto isso significa pra mim — Mãe, olha por mim daí de cima… porque tá difícil — murmurei olhando pro teto. Isso tudo não foi metade do que eu passei, mas ficar lembrando disso já estava me sufocando O Noah começou a se mexer muito e eu peguei ele no colo aninhando ele e fazendo ele dormir de novo Quando comecei a ouvir barulho na parte debaixo da casa e não demorou muito pro Bradock aparecer ali todo sujo de sangue e me olhando sério, me fazendo sentir um aperto no peito e um medo de como seria a minha vida daqui pra frente…
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