Capítulo 05

2030 Words
Melissa narrando Quando eu vi o Bradock eu fiquei nervosa, não sei explicar. Ele disse que estava tudo resolvido, mas naquele momento eu não quis nem perguntar a ele como, ou o que ele fez, eu só agradeci. Eu queria ficar em paz um pouco sabe, queria não lembrar de toda a merda que aconteceu na minha vida, de como as coisas viraram do nada, de como eu fui do mil ao zero Eu não culpo o meu filho por nada, ele é meu anjo, minha fortaleza. O único culpado de toda essa merda foi o Maurício, ou até mesmo eu, por ter me permitido ficar nesse emaranhado com ele. Mas quando nos relacionamos com alguém almejamos o máximo, que vai dar tudo certo, e não que fosse tudo desabar dessa forma… Mas apesar de tudo, nunca me faltou forças pra me levantar, como minha mae sempre me ensinou, e também nunca tive tempo pra fazer a vítima, esse dom eu não tenho, e nem quero ter. Eu vou a luta quantas vezes forem necessárias pelo meu filho. Pra dar o melhor a ele sempre. Quando o Bradock voltou pro quarto depois de já ter pedido a pizza. Ele daquele jeito, só de bermuda, super a vontade, confesso que me fez engolir seco, eu fiquei nervosa com a presença dele, ele daquele jeito me deixava intimidada, e eu não conseguia desviar o olhar do seu corpo, p***a… que corpo, que homem… suas costas largas, aquele jeito dele de homem decidido, sua barba bem feita, e aquele perfume que exalava pelo quarto invadindo o meu espaço e me deixando sufocada, e hipnotizada Nos descemos pra comer a pizza e ele estava super a vontade com o nono, assim como o meu filho estava tranquilo, não chorou, não se irritou com nada. Isso me surpreendeu muito. Ele só estranhou quando acordou - ele é um amigo da mamãe, o tio Bradock - eu falo no ouvidinho dele que olha desconfiado ainda acordando e assimilando as coisas mas depois de solta Ele comeu e eu ainda estava sem fome, só ajudei meu pequeno mesmo, minha cabeça estava cheia, meu corpo doendo, eu estava exausta, minha boca estava inchada, e doendo horrores… mas eu não podia reclamar… pelo menos, nem que por algumas horas, eu estava longe do Maurício e em paz com o meu filho, mesmo que no dia seguinte minha vida fosse virar um inferno o de novo, mas agora eu não estava afim de pensar nisso… Eu subi com o Noah mas senti os olhos do Bradock queimando em mim, eu não sei porque, mas ficar perto dele me deixa tão tensa, nervosa, parece que eu nem tenho tanta liberdade com ele, como se eu não o conhecesse, não sei, eu fico nervosa demais perto dele, como se fosse uma adolescente de novo O Noah finalmente apagou no colchão macio daquele quarto que parecia mais um cenário de novela. A tranquilidade no rostinho dele me fez soltar um suspiro aliviado. Parecia que ele tava em casa, como se aquele fosse o lugar dele desde sempre. Meu peito tava mais leve, mas o cansaço ainda pesava nos meus ombros. Cada parte do meu corpo doía, desde os hematomas até a alma. — Dorme bem, meu amor… — sussurrei, ajeitando os cachinhos dele no travesseiro. Desci as escadas devagar, com medo de acordar ele, mas também porque cada passo parecia puxar um gemido de dor das minhas costelas. Quando cheguei na sala, o cheiro de pizza recém-saída do forno tomou conta do ambiente. Bradock tava sentado no sofá, de bermuda e sem camisa, cheio de tatuagens que contavam mais histórias do que qualquer livro. Ele segurava uma taça de vinho numa mão e com a outra fez um gesto pra eu me aproximar. — Chega aí, Melissa. Come alguma coisa, tu tá branca igual vela de igreja. — Tô sem fome, Bradock… só queria um banho e uma roupa limpa. — Ô, mulher teimosa! — Ele bufou, se levantou e pegou uma taça de vinho no balcão. — Vem, toma um gole. Vai relaxar. Tô vendo que tu tá na tensão ainda. Fiquei parada por uns segundos, olhando pra ele com desconfiança. Minha mente gritava que aquilo ali não era certo, que eu não podia ficar perto dele assim… mas meu corpo pedia descanso, pedia paz. Acabei pegando a taça da mão dele. — Só um gole — avisei. — Jaé — ele sorriu de canto e voltou a se sentar no sofá, puxando uma fatia de pizza da caixa. Me sentei do outro lado do sofá, longe, mas perto o suficiente pra sentir aquele cheiro amadeirado do perfume dele misturado com cigarro. Dei um gole no vinho, sentindo o líquido escorregar pela garganta. Fazia tempo que eu não tinha um momento assim… quase normal. É que eu podia respirar — eu precisava voltar lá em casa, pegar umas roupas, umas coisas do Noah, mas… — eu falei depois de um longo tempo em silêncio, e minha voz falhou. — Eu não quero dar de cara com o Maurício, não hoje, não agora. Eu tô muito cansada pra mais uma briga. Ele ficou em silêncio por um tempo, apenas me encarando. Eu sabia que ele tinha algo pra falar, mas ele se segurou. — Amanhã a gente vê isso. Hoje, tu vai descansar. — Ele pegou uma fatia de pizza e colocou num prato pra mim. — Come. Vai fazer bem. Tua boca tá doendo muito ?- ele pergunta e eu concordo respirando fundo e me encostando no sofá Aceitei, mesmo sem fome, mas cada mordida parecia trazer um pouco mais de calma pro meu corpo. O silêncio entre nós não era desconfortável, pelo contrário, era quase acolhedor. — Ô, Melissa… — ele quebrou o silêncio depois de um tempo, com um sorriso sacana no rosto. — Tu parou de falar comigo só porque eu virei bandido, né? Pô, mó vacilação tua.- ele me pegou muito de surpresa com essa Dei uma risada baixa, mais pra disfarçar o embaraço do que por achar graça. — Não foi isso, não, Bradock… — comecei, mas ele me interrompeu. — Foi sim! Tu me via na rua, desviava, fazia cara de paisagem. Eu tava ligado. Maior vacilona tu - ele aponta pra mim com uma fatia de pizza na mão — Ah, para! — revirei os olhos, mas acabei sorrindo também. — Eu não te evitava, só que… sei lá, a gente cresceu, as coisas mudaram, né?- eu tento me safar — Mudaram, é? — Ele arqueou uma sobrancelha, segurando a taça de vinho perto da boca. — Ou tu ficou marrenta demais depois que virou dona de loja? E começou a me esnobar - ele fica me provocando Bradock sempre tirou 10 quando o assunto era me provocar Eu ri de verdade dessa vez, um riso que pareceu limpar parte do peso que eu carregava no peito. — Eu nunca fui marrenta, seu bobo. É que… sei lá, a vida foi levando a gente pra caminhos diferentes. E você também estava sempre com p**a, vive um monte saindo na mão por sua causa, já pensou se elas pensam algo sobre mim e me julgam errado ?- eu falo horrorizada — Mas tu era minha parceira, p***a. Duvido alguém te botar a mão e eu ficar quieto - ele fala e eu sinto o meu rosto ferver- A gente zoava, brincava na rua. Lembra das pipas? Quem era que corria atrás das pipas comigo quando caía no telhado dos outros?- ele fala com maior sorrisão que eu me lembrava bem, mas não via a muito tempo — Eu! — respondi, rindo. — Eu era tua parceira nas loucuras mesmo. Lembra quando seu João correu atrás da gente porque invadimos o quintal dele pra pegar bola e vimos ele traindo a mulher dele ?- eu relembro gargalhando quase me engasgo com a pizza — c*****o papo reto, nem lembrava desse bagulho - ele fala rindo muito - E agora tu tá aqui, no meu quartel-general — ele disse, abrindo um sorriso de lado. — E olha, tu tá bem protegida. Aqui ninguém mexe contigo nem com o Noah.- ele fica me encarando e eu fico em silêncio sem saber o que dizer A forma dele me olhar parece que tá vendo a minha alma, como se ele pudesse ler cada ferida minha, mas ao mesmo tempo o olhar dele era enigmático A menção ao meu filho trouxe de volta aquela onda de emoção que parecia me acompanhar desde cedo, aliás, nos últimos anos, eu tenho estado sempre a flor da pele. Dei mais um gole no vinho pra afastar as lágrimas. — Valeu, Bradock. De verdade… — minha voz saiu baixa, mas cheia de gratidão. Ele assentiu com a cabeça, olhando pra frente, como se estivesse perdido nos próprios pensamentos. Nós ficamos muito tempo em silêncio, um silêncio que falava muito, e que eu precisava também… Só aproveitei o gosto doce do vinho que descia pela minha garganta me acalmando… Depois de um tempo, ele se levantou, foi até a escada, e eu só conseguia reparar na largura das suas costas, e na sua pose de macho alfa… - vigia Melissa, se coloca no teu lugar - eu falo comigo mesmo e tomo mais um gole terminando a taça de vinho… Vejo ele descendo as escadas e ele voltou com uma camiseta branca e uma bermuda larga. — Toma, coloca isso. É meu, mas acho que vai servir. — Ele jogou as roupas no meu colo. — E depois disso, vai dormir. Amanhã a gente resolve tudo. E conversa mais, agora você precisa descansar- ele fala firme e a sua pose de liderança é algo que eu não costumo acatar, mas que a tanto tempo eu não sentia essa proteção de um homem que eu fiquei nervosa e acatei sem discutir Peguei as roupas, olhando pra ele com uma mistura de surpresa e gratidão. Era estranho ver aquele homem, tão temido no morro, sendo tão cuidadoso comigo. — Valeu, Bradock… eu… eu nem sei como te agradecer. — Não precisa agradecer nada, Melissa. Tu já aguentou coisa demais. Só relaxa, mulher.- ele sempre me olhando nos olhos me deixando nervosa e me fazendo desviar o olhar Me levantei, segurando as roupas, e fui pro banheiro. Quando fechei a porta atrás de mim, soltei um suspiro pesado. Era como se aquele banheiro fosse um santuário. Liguei o chuveiro e deixei a água quente escorrer pelo meu corpo, levando com ela parte do medo, do cansaço e do sangue seco que ainda manchava minha pele. Depois do banho, coloquei as roupas que ele me deu. A camiseta era enorme, chegava até metade das minhas coxas, e a bermuda parecia mais uma calça larga. Não deu pra usar a bermuda, ela caia pela minha cintura, então fiquei só com a camiseta mesmo. Dei uma risada fraca me olhando no espelho. Desci novamente e vi que Bradock tava sentado na varanda, olhando pro horizonte escuro do morro. A lua iluminava o rosto dele, e as sombras das tatuagens davam um ar ainda mais pesado àquele homem. — Vai descansar, Melissa. Amanhã é outro dia — ele falou sem olhar pra mim. - só vim pegar uma água pra tomar o remédio - eu falo e ele vira um pouco me olhando de lado O clarão da lua refletindo a sua pele me fazia arder. Eu peguei a água rápido e fiquei olhando pra ele por alguns segundos - boa noite, Melissa - ele fala com aquela voz grossa de um então seco - boa noite, Bradock- eu sinto minha garganta rasgando ao falar com ele E subi novamente pro quarto. Noah ainda dormia tranquilo, respirando baixinho. Me deitei ao lado dele, puxei o cobertor e fechei os olhos. Pela primeira vez em muito tempo, eu me permiti sentir segurança. O silêncio da noite envolveu a casa, mas meu coração ainda batia forte. Bradock era um enigma, um homem que carregava nas costas mais histórias do que eu conseguiria entender. Mas ali, naquela casa, eu sabia que ninguém encostaria em mim nem no meu filho. E isso, por ora, já era suficiente.
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