A noite ainda cobria a fazenda com seu manto escuro. Nem os galos haviam cantado. Tudo estava quieto, exceto dentro de Antônio. No alojamento, deitado em sua cama dura, ele encarava o teto de madeira como se fosse um tribunal prestes a condená-lo. O som dos outros peões roncando soava distante, abafado pelo tumulto dentro de sua própria cabeça. Virava-se de um lado para o outro, mas o sono não vinha. Cada vez que fechava os olhos, via o líquido escorrendo pelo chão da garagem, os tubos cortados, a faca brilhando sob a luz da lua. Era como se a cena se repetisse sem parar. — Que que eu fiz… — murmurou em voz baixa, coberto de suor frio. A ideia de que, naquele momento, Henrique e Bela dormiam tranquilos sem imaginar a armadilha, corroía suas entranhas. O bebê. A família. Todos em perigo

