O silêncio pairava na sala como uma sentença não proferida. Atlas e Luna estavam frente a frente, envoltos por uma tensão que ameaçava explodir a qualquer momento. Os olhos dele, outrora cheios de determinação, agora buscavam respostas no olhar enigmático dela. Ela, por sua vez, mantinha a postura ereta, o semblante inabalável, como se cada palavra dita anteriormente ainda ecoasse nas paredes.
— Você não entende, Atlas. Luna começou, sua voz baixa, mas carregada de intensidade. Eu não sou apenas a sua inimiga; sou o reflexo das suas escolhas.
Atlas cerrou os punhos, a raiva fervendo sob a pele. — Você fala como se tivesse o controle de tudo, como se fosse a única com cicatrizes.
— Cicatrizes? Ela riu, um som frio e cortante. Minhas cicatrizes são mapas das batalhas que enfrentei para chegar até aqui. Você não faz ideia do que precisei sacrificar.
— E acha que isso justifica o que fez com minha família?
— Não busco justificativas, Atlas. Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Busco compreensão. Você viveu sua vida alimentando o ódio, mas nunca questionou suas origens.
— Minhas origens foram manchadas por você! Ele gritou, a voz ecoando pelo cômodo.
— Não, Atlas. Ela sussurrou, agora tão próxima que ele podia sentir sua respiração. Foram moldadas por mentiras que você escolheu acreditar.
O olhar dele vacilou por um instante, a dúvida infiltrando-se em sua mente. — O que está tentando dizer?
— Que a verdade é mais complexa do que você imagina. Luna tocou levemente o peito dele, sobre o coração. E está enterrada aqui, esperando para ser desenterrada.
Atlas recuou, confuso e irritado. — Não brinque com minha mente, Luna.
— Não estou brincando. Ela afirmou, firme. Estou oferecendo a chance de ver além da vingança.
— E o que você ganha com isso?
— Talvez nada. Ela deu de ombros. Ou talvez tudo.
O silêncio voltou a se instalar, pesado e carregado de significados não ditos. Ambos sabiam que aquele confronto era apenas o início de uma batalha muito maior, onde verdades seriam reveladas e máscaras cairiam.
Atlas virou o rosto por um instante, tentando esconder o turbilhão que girava dentro dele. Não era medo. Era algo mais denso, mais íntimo. Era o reconhecimento de que Luna estava começando a mexer com partes dele que ele acreditava enterradas sob camadas de ódio.
— Você acha que vai me dobrar? ele murmurou, os olhos escurecidos por algo que nem ele mesmo compreendia. Você acha que pode me quebrar só com palavras?
Luna se aproximou ainda mais, até que seus corpos quase se tocassem. A tensão entre eles era elétrica, quase física, como uma corda esticada prestes a arrebentar. Seus olhos estavam fixos nos dele, como se quisesse desnudá-lo.
— Eu não preciso te dobrar, Atlas... Ela sorriu, com um canto da boca. Você já está se curvando.
Ele a agarrou pelo pulso, num impulso bruto, selvagem — não de desejo, mas de sobrevivência. Queria afastá-la, conter aquela presença que invadia sua mente, mas suas mãos tremiam. E Luna não resistiu. Pelo contrário. Ela se aproximou ainda mais.
— Me odeia tanto assim? ela provocou, sussurrando junto à mandíbula dele. Então me odeie direito. Me machuque. Me destrua.
A respiração de Atlas ficou pesada. O que era aquilo? O que ela queria dele? Cada palavra que saía de seus lábios era uma armadilha.
— Você é doente. ele disse, mas sua voz saiu fraca.
— Talvez. Luna respondeu, encostando os lábios no ouvido dele sem tocá-lo. Mas ao contrário de você, eu sei quem eu sou.
Ele a empurrou de leve, mas a presença dela já havia se entranhado como veneno. Não havia escapatória. A verdade era que ele não conseguia odiá-la como deveria. E isso o consumia.
— Você matou minha família.
— E você ainda me deseja. Luna respondeu, com um olhar de triunfo calmo e c***l. Essa é sua punição.
Atlas sentiu o mundo girar ao redor dele. A fúria pulsava como uma febre. Mas por baixo dela, havia algo mais perigoso: curiosidade. Fascínio. Uma atração involuntária que o puxava cada vez mais para dentro do abismo que era Luna Montenegro.
— Por que eu? ele perguntou, com a voz falha. — Por que me deixar vivo?
Ela ergueu o queixo, como se já esperasse por isso.
— Porque você era necessário. Ela disse, com frieza. — E agora, você é meu.
O silêncio que se seguiu foi denso, quase insuportável. Como se cada centímetro entre eles estivesse carregado de algo indizível — um tipo de desejo que não era carnal, mas sim destrutivo, como se só pudessem existir um no mundo do outro se um deles fosse aniquilado.
Atlas recuou, cambaleando, como se tivesse levado um soco invisível.
— Eu não sou seu, Luna. Nunca serei.
Ela deu um sorriso amargo, trágico, como se esperasse exatamente por isso.
— Não precisa ser agora. Mas vai ser.
— Quando você perceber que a única forma de sobreviver... é se rendendo a mim.
Ele levou as mãos à cabeça, a mente girando em espirais de dúvida, raiva e confusão. Luna estava desenterrando tudo o que ele tentou sepultar: o menino que chorava em silêncio, o órfão com sede de justiça, o homem que nunca soube amar.
— O que você quer de mim?! ele gritou, enfim, como se implorasse por uma resposta que acabasse com tudo aquilo.
Luna se aproximou com calma, com a precisão de uma predadora. Seu rosto estava sereno, mas seus olhos... os olhos estavam em chamas.
— Quero que você entenda.
— Que o seu maior inimigo... sempre foi você mesmo.
Ela o encurralou contra a parede, os corpos separados por milímetros. O calor do confronto se misturava à tensão e*****a de algo que nunca deveria existir. Algo que beirava o insano. Um amor que jamais se nomearia amor. Um desejo que era só ruína.
— E quando esse momento chegar...
Quando você me olhar e implorar para que eu te salve de si mesmo...
— Eu não vou hesitar. Eu vou te consumir. Inteiro.
O olhar de Atlas se perdeu no dela por um segundo que durou uma eternidade. E naquele segundo, algo nele quebrou. Um fio tênue, invisível, que sustentava o pouco de sanidade que ainda restava.
Ele não disse mais nada.
E Luna, satisfeita com o silêncio que ela própria arquitetou, virou-se e caminhou em direção à porta, como se nada tivesse acontecido. Mas antes de sair, ela parou e murmurou, com a voz baixa o suficiente para que só ele ouvisse:
— O fim começou, Atlas. E eu sou o começo da sua queda.
Então ela se foi.
Deixando o quarto frio, mas deixando Atlas em chamas.
Um incêndio interno.
Sem saída.
Sem ar.
Sem paz.
A porta se fechou com um estalo seco, e o silêncio tomou conta da sala. Mas a presença dela ainda pairava como uma sombra insuportável, esmagando qualquer resquício de resistência que Atlas ainda tentava manter. Ele permaneceu ali, encostado na parede fria, os olhos fechados, tentando juntar os cacos do que restava de si mesmo.
O ar parecia denso demais para respirar. Como se cada inspiração fosse uma luta contra o vazio que Luna deixara.
— Ela não entende... ele murmurou para si mesmo, a voz carregada de uma mistura de raiva e dor.
Mas, no fundo, ele sabia que ela entendia. Entendia demais. Entendia aquilo que ele mesmo temia encarar.
Um jogo de poder, manipulação e destruição. Um jogo onde eles eram as peças, e também os jogadores.
Seus dedos cerraram-se em punhos, latejando de tanta tensão.
— Eu não vou me perder... ele prometeu, mas as palavras soaram vazias.
Porque, naquele momento, Atlas sentiu que já havia cruzado a linha. Que o abismo que Luna falara não era mais uma ameaça distante — era seu presente.
E ele estava caindo.
A luz tênue da sala refletia em seus olhos, que agora brilhavam com uma fúria contida, uma tempestade prestes a explodir. Atlas deu um passo firme, rompendo a distância que Luna cuidadosamente mantinha, como se desafiar o espaço entre eles fosse um primeiro golpe invisível na guerra silenciosa que travavam.
— Você acha que pode controlar tudo, Luna? sua voz saiu baixa, mas carregada de ameaça. “Mas esquece que eu também sou mestre no meu próprio jogo.”
Ela não recuou. Pelo contrário, um sorriso frio desenhou-se em seus lábios, como se estivesse saboreando cada segundo daquela provocação.
“Você nunca entendeu quem realmente manda aqui,” ela respondeu, o tom desafiador, “e talvez nunca entenda.”
O ar entre eles parecia eletrificado, cada palavra um disparo, cada olhar uma faca afiada.
Luna deu um passo à frente, tão perto que seus corpos quase se tocavam. O cheiro dela, uma mistura de perfume amadeirado e algo mais primal, invadiu os sentidos de Atlas, confundindo sua raiva com uma excitação perigosa.
— Eu não preciso controlar você, Atlas. Sua voz caiu em um sussurro rouco, carregado de uma promessa sinistra. — Eu só preciso que você me queira. Que precise de mim da mesma forma que eu preciso destruir você.
O choque daquilo atingiu Atlas como um golpe direto no peito. Ele recuou, mas não porque queria. Era a luta interna, a batalha invisível entre a razão e o desejo, entre o orgulho e a necessidade.
Ele estava dividido, dilacerado.
— Você não vai me ter. Ele respirou fundo, tentando recuperar o controle. — “Nunca.”
Luna arqueou uma sobrancelha, divertida com a insistência.
— Vamos ver, então, até onde o seu orgulho aguenta antes de sucumbir.
E naquele instante, a guerra entre eles não era só de palavras — era um duelo silencioso de corpos e almas, onde cada gesto, cada respiração, era uma provocação, uma promessa de que nada jamais seria como antes.
Atlas prendeu a respiração.
Luna o observava como um predador observa uma presa que ainda acha que pode escapar. Havia uma calma ensurdecedora nela. Uma certeza gelada no olhar.
— O que você quer de mim de verdade, Luna? ele perguntou, sem rodeios, tentando arrancar dela uma fração de verdade. — Porque se for só vingança, você já conseguiu.
“A vingança foi só o começo.”
As palavras dela saíram como uma confissão sussurrada, quase um veneno depositado com carinho. Luna se aproximou ainda mais, encostando o corpo no dele, o toque quente e calculado de sua pele provocando uma corrente elétrica que percorreu o corpo inteiro de Atlas.
— Você foi a minha sentença, Atlas Damian.
Uma maldição que eu nunca escolhi carregar.
Mas agora... agora eu escolho como você vai terminar.
Ele a agarrou pelo pulso, não com violência, mas com uma necessidade bruta de interromper aquela narrativa insana. Seus olhos cravaram nos dela — quebrados, cheios de raiva, de uma dor que não era nova, mas que ela fazia questão de reabrir como uma ferida recente.
— Você destruiu tudo. Tudo.
Luna não reagiu. Nem uma piscada. Nem uma emoção.
“Eu destruí o que já estava condenado. Você só não sabia ainda.”
As palavras dela fizeram algo dentro dele se partir. Porque ele sabia. Sabia que havia algo de podre na base de tudo que acreditava ser verdade. O peso daquilo caiu sobre ele como uma avalanche silenciosa.
Mas o que Luna não esperava...
Era que ele iria revidar.
— Se você acha que eu vou me ajoelhar pra você... está mais perdida do que eu pensei.
Ele a empurrou contra a parede com um ímpeto que misturava raiva, desejo e medo. Seus corpos colidiram com uma intensidade sufocante. Ela ofegou, mas não demonstrou surpresa — era isso que ela queria.
— Me odeie, Atlas.
Mas me encare quando fizer isso.
Uma parte de você vai sempre me desejar.
A proximidade dos dois era insuportável. O cheiro dela, a respiração acelerada, a tensão física entre seus corpos — tudo era uma guerra em silêncio.
— Você matou minha família.
A voz dele saiu trincada, como vidro prestes a estilhaçar.
— Como espera que eu te perdoe?
Ela encostou a testa na dele, o olhar calmo. E então, com uma voz tão baixa que parecia uma oração profana, Luna sussurrou:
— Eu não quero o seu perdão.
Quero o seu colapso.