O COMEÇO DO FIM

2000 Words
Havia algo quebrado no silêncio que se instalou entre eles. O toque de Atlas ainda queimava no pulso de Luna, mas ela não se afastava. O corpo dela continuava colado ao dele, como se aquele contato fosse mais uma arma do que um gesto. Seus olhos o encaravam sem piscar, lendo cada nuance da emoção que escorria dele como sangue. E Atlas... ele estava desmoronando por dentro. “Eu não quero o seu perdão. Quero o seu colapso.” Aquelas palavras continuavam vibrando dentro dele, ecoando como uma sentença. Luna não era só c***l — ela era calculista, estratégica e c***l por escolha consciente. Ele sabia que deveria afastá-la. Que deveria virar as costas e encerrar aquilo de uma vez. Mas seu corpo... seu corpo não obedecia. Porque algo naquela mulher o puxava para o abismo como uma corda no pescoço. — Você quer me ver ruir? A voz dele saiu baixa, rouca. — Então assista. Porque eu não vou implorar. Eu vou te odiar até o último segundo. Mas vou te deixar me destruir se isso significar que eu te entendo. A confissão saiu com a força de um soco. Luna piscou devagar, mas não disse nada. Em vez disso, ela deslizou a mão pelo peito dele, os dedos traçando uma linha invisível sobre sua camisa. Um toque que não pedia permissão — tomava posse. — Não é ódio o que eu vejo nos seus olhos, Atlas. É fascínio. Um fascínio doente. Ele pegou a mão dela e afastou, apertando com força. — E o que você vê nos seus, Luna? Ela sorriu, aquele sorriso que cortava mais do que qualquer lâmina. — Eu vejo um reflexo. Porque você é tudo que eu neguei ser. E eu sou tudo o que você está se tornando. Era verdade. Eles estavam se confundindo um no outro. Perdendo identidade, limites, lógica. Dois monstros enjaulados no mesmo corpo de guerra. Naquela mesma noite, Luna estava sozinha no terraço do dormitório. As luzes de Manhattan abaixo piscavam como um milhão de julgamentos silenciosos. Ela tragava o cigarro como quem engolia memórias. Atrás dela, o som de passos denunciou a presença de alguém. — Você está brincando com fogo. — disse Yuri, encostada no batente da porta. Luna não olhou para trás. Apenas tragou mais uma vez. — Eu sou o fogo. Yuri bufou, cruzando os braços. — O Atlas não é como os outros. Você sabe disso. Ele pode te destruir. — É por isso que eu quero ele, — respondeu Luna, virando-se devagar. — Porque ele pode. E mesmo assim, não vai. Yuri se aproximou, agora com os olhos carregados de algo que parecia pena — ou medo. — E se ele descobrir a verdade? Sobre o pai dele? Sobre a sua mãe? Luna não respondeu de imediato. Ela caminhou até a beirada do terraço e olhou para o céu escuro. — Ele vai me odiar. Uma parte dele já odeia. Mas outra parte... outra parte vai querer mais. Atlas estava deitado em sua cama, o olhar fixo no teto. Aquela mulher havia se enraizado na cabeça dele como um veneno lento. Ele podia sentir as palavras dela ainda dançando sob sua pele. A verdade era que ele não conseguia pensar em mais nada. “Eu sou a sua morte, Atlas.” Mas ela era também a única coisa que o fazia se sentir vivo. Ele sabia que não conseguiria ficar longe. Que cada vez que se afastasse, algo o puxaria de volta — ódio, desejo, confusão. Ele se sentou na cama, os olhos escuros, selvagens. — O jogo mudou. Agora eu sei que estou jogando com uma cobra... mas talvez eu aprenda a morder também. No dia seguinte, eles se cruzaram no corredor do dormitório. O mundo parou por dois segundos. As pessoas ao redor viraram sombras irrelevantes. Havia apenas eles. Um encarando o outro. E no olhar de Atlas, havia uma nova promessa. Não de submissão. Mas de guerra. Luna sentiu o impacto. Ela sorriu de lado, como se dissesse “eu estava esperando por isso”. Atlas passou por ela, roçando o ombro no dela, e sussurrou: — Você quer o meu colapso? Então se prepare pro seu. E seguiu em frente, sem olhar para trás. O passo de Luna hesitou por um instante. Atlas não havia apenas falado — ele havia declarado guerra. E ela sentiu. Sentiu no corpo, na espinha, no centro do estômago onde nascem as decisões perigosas. Ela ficou ali, parada no meio do corredor, enquanto ele desaparecia pela escada. Não havia plateia. Não havia joguinhos. Apenas os ecos de uma promessa. Uma promessa de destruição mútua. Ela fechou os olhos por um segundo, e por um instante breve — brevíssimo — quase perdeu o controle. Porque ele não estava mais sob seu domínio. Atlas estava acordando. E um Atlas acordado era uma ameaça que ela nunca quis ver viva. Mas então ela sorriu. Um sorriso curto. Contido. Letal. — Finalmente, Atlas Damian. Agora começa o jogo de verdade. Na biblioteca antiga do campus, Atlas abriu uma pasta surrada. Era um dossiê. Não sobre Luna. Sobre os Montenegro. Ele a roubou da sala do diretor na noite anterior, quando todos pensavam que ele estava em outro surto. Mas Atlas não era mais o garoto quebrado esperando a morte. Agora ele estava farejando o sangue do passado. As páginas falavam de alianças empresariais, acordos de silêncio, chantagens. Nomes conhecidos. Famílias inteiras. Mas havia um em específico que congelou o olhar dele: Leonardo Damian – desaparecido em 2009. Última ligação rastreada: propriedade Montenegro. Leonardo Damian. Seu pai. O homem que sumiu sem deixar rastros. Que todos disseram ter morrido num acidente. Mas não havia corpo. Nunca houve. Atlas sentiu o chão girar. — Você mentiu pra mim, Luna. Você sempre soube. Luna estava no porão dos fundos do campus, um lugar onde poucos sabiam como entrar. Ela atravessava caixas antigas, pastas, registros médicos, arquivos de segurança. Estava procurando algo que nunca deveria ter sido registrado — mas foi. E encontrou. “Interrogatório Montenegro – Caso Damian.” Ela passou os dedos sobre a capa e respirou fundo. Se Atlas visse aquilo, tudo mudaria. E ela sabia: ele já estava procurando. À noite, o céu pesava sobre Manhattan como um segredo prestes a explodir. Atlas estava em seu quarto quando a porta se abriu. Luna. Sem bater. Sem hesitar. — Você encontrou, não foi? — ela disse, a voz baixa como trovão antes da tempestade. Ele não respondeu. Apenas jogou a pasta em cima da cama. — Você sabia o tempo todo. Era meu pai. — Ele foi assassinado. E você acobertou. Luna ficou imóvel. — Eu fiz o que era necessário. Ele se aproximou, o olhar escuro queimando. — Você matou o meu pai, Luna? — Responde. Ela não piscou. — Eu acabei com um homem que ameaçava destruir o que restava da minha família. E sim... ele era seu pai. Mas ele também era um monstro. Atlas deu um passo à frente, agora tão perto que ela sentia a respiração dele contra sua pele. — E o que isso faz de você? Luna não recuou. — Alguém pior. Os dois estavam em combustão. Ela não tentou se explicar. E ele não pediu clemência. E foi ali, naquele quarto abafado, que a tensão finalmente rompeu a linha do insuportável. Atlas empurrou Luna contra a parede, os olhos transbordando fúria e desejo em igual medida. — Você destruiu minha vida. — E você ainda me quer. — ela sussurrou. Sim. Ele queria. O ódio virou toque. A dor virou pele. E quando seus lábios se encontraram, não houve delicadeza — só necessidade crua e animal de sentir o outro de verdade, como se pudessem sangrar as verdades um do outro através da carne. Era guerra. Era s**o. Era punição. Era redenção. Era tudo ao mesmo tempo. O beijo não era um pedido. Era um ataque. Atlas pressionou Luna contra a parede, como se quisesse gravar nela a dor de cada perda, de cada mentira. Mas Luna... Luna sorria entre os dentes dele. Porque ela sabia. Sabia que ele estava cedendo. Os dedos dele agarraram seus quadris com força, e os dela puxaram os cabelos na nuca dele com uma selvageria que não pedia permissão. Os corpos se colidiram como tempestades em rota de destruição. E não havia espaço para suavidade. Era brutal. c***l. Honesto. — Isso é o que você quer, Luna? — ele rosnou contra o pescoço dela. — Me provocar até eu perder o controle? Ela arqueou o corpo, ofegando: — Não. Eu quero que você nunca mais consiga recuperá-lo. Ele a levantou com as mãos fortes, colando-a na parede como se o mundo inteiro dependesse daquilo. As pernas dela o envolveram com o mesmo desespero de quem está prestes a se afogar e agarra o ar como último recurso. Atlas era o abismo. Luna era o salto. — Você me odeia tanto assim? — ele murmurou, a boca roçando o maxilar dela. — Eu odeio o fato de que você me entende. — ela respondeu com a voz trêmula de raiva e desejo. — Odeio que você seja o único que pode me quebrar. — Então me deixa fazer isso. Me deixa te quebrar agora. As roupas foram arrancadas como pecados antigos. A blusa de Luna se rasgou sob os dedos famintos de Atlas. As unhas dela deixaram marcas nas costas dele — como se estivesse talhando território. A respiração virou gemido. O gemido virou ameaça. A ameaça virou prazer. E quando ele entrou nela, não houve sutileza. Foi guerra. Um campo de batalha onde o corpo era a única arma, e o desejo era o único vencedor. Ela o arranhava com fúria, como se quisesse rasgar o passado que os prendia. Ele a segurava com força, como se quisesse manter o presente estático, eterno. O som de seus corpos se chocando ecoava no quarto abafado — um som úmido, ritmado, indecente. — Atlas... Ele grunhiu, puxando os cabelos dela para trás, expondo o pescoço. — Diga meu nome como se fosse sua última palavra. — Atlas... — ela repetiu, mordendo os lábios, os olhos vidrados. — Você não tem ideia do que acabou de fazer. — Acabei de tomar o que sempre foi meu. Ela sorriu com selvageria. — Então me destrua por completo. E ele destruiu. Com movimentos intensos, dominadores. Com a boca explorando cada pedaço da pele dela como se procurasse respostas. O ritmo era feroz. Suado. Real. Até que os gemidos viraram gritos contidos, e os olhos se fecharam com força no momento em que ambos despencaram juntos no abismo que eles mesmos cavaram. O silêncio veio depois. Mas não era paz. Era o silêncio que precede a destruição. Atlas se afastou. Respirando fundo. Os olhos ainda cheios de raiva, mas agora... com algo mais. Confusão. Culpa. Desejo. E Luna se recompôs, puxando o lençol para o corpo suado e marcado. Seus olhos estavam distantes, como se calculassem o próximo passo em um tabuleiro mortal. — Isso não muda nada. — ela disse. — Não muda quem eu sou. Nem o que eu fiz. — Mas muda quem eu sou agora. — Atlas respondeu. Porque naquele quarto, naquele instante... ele deixou de ser apenas um sobrevivente. E Luna... começava a perder o controle. Luna virou o rosto para a janela, os olhos fixos no vidro embaçado pela respiração pesada. — Você me teve... mas não me venceu. Atlas passou a mão pelos cabelos úmidos, encarando-a com a mandíbula tensa. — Eu não queria vencer você, Luna. Eu só queria te entender. Ela riu, um som amargo, quase doloroso. — Então está mais perdido do que eu pensei. O silêncio pairou, denso, cortante. E foi então que Luna sussurrou: — A guerra entre nós está só começando. Atlas se aproximou devagar, seus olhos cravados nos dela. — Que seja. Mas dessa vez, não vai haver sobreviventes. Luna sorriu com crueldade, sabendo: que ele estava mais perto da queda do que jamais soubera.
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