03. Para de ser lerdo

1182 Words
Na hora do meu almoço mamãe chega com a mesma roupa de ontem, fico encarando ela para ver se dava alguma explicação. Nunca fez isso, é a primeira vez que aparece com a roupa anterior como se não tivesse voltando para casa, como papai não ficou em casa por conta da hora extra não percebeu que dona Beatriz não voltou para casa cedo e ela aproveitou disso. — Pode ir almoçar, filha! — ela beija minha bochecha e segue para o escritório. Não digo nada e nem consigo falar alguma coisa. Combinei almoçar com Emily e Guilherme, os dois já estão na porta me esperando. Emily trabalha no mercadinho perto, umas duas quadras daqui, ela tem o mesmo horário de almoço que tenho na confeitaria, achei um máximo e como ela é do caixa pensava que não iria conseguir esse feito. Já Guilherme trabalha no escritório desses mesmo mercadinho, ele que conseguiu a vaga para Emi. — Vamos? — digo saindo da confeitaria. — Aconteceu alguma coisa? — pergunta minha amiga. — Nada demais ... — minto. Óbvio que aconteceu, à noite eu quase fui abusada e abusei de um homem. Minha sorte é que não vou vê-los tão cedo. Fora o fato de mamãe estar meio estranha e contente demais. — Tem certeza? — Guilherme fica me olhando. — Aconteceu algo, Mila? — Ah, só minha mãe que está feliz demais. — Então ela não pode estar feliz? — Emily parece um pouco confusa com o meu comentário. — Ela sumiu a noite e aparece hoje com a mesma roupa de ontem. Os dois ficam em silêncio, talvez não precise de comentários para saber que algo está errado e só meu pai e minha mãe poderiam resolver isso. Não tem muito mistério nessa grande felicidade de mamãe, está muito estampado na cara que ela está de caso com alguém. — Será que ela está... — Está e muito — Emily me interrompe. — A mãe da Camila está traindo o pai dela? — Guilherme ficou pensando nos botões. — Como assim? — Senhor amado!!! — Emily bufa — para de ser lerdo Gui! — Não brinca? — ele fica chocado como se tivesse descoberto o mistério da felicidade de Beatriz. Depois desse assunto ficamos em silêncio e caminhamos para o restaurante. Durante o almoço ficamos conversando sobre o curso de Emily, ela entrou esse ano na faculdade, Guilherme foi quem ajudou a estudar algumas matérias que ela tem dificuldade para conseguir passar no vestibular e agora ele está me ajudando. — Droga! — acabo falando alto o meu pensamento quando olho para a porta que se abre e entra o Bonitão de ontem à noite. — Que foi, Camila? — Emily olha para a porta. — Nossa, gato! — comenta enquanto leva uma garfada de arroz na boca. Fico tentando esconder o meu rosto para ele não me ver quando se vira na direção da nossa mesa. Tento comer o mais rápido possível para sair do restaurante o quanto antes. Não quero nem pensar o que pode acontecer se ele me ver aqui, só falta me abordar para questionar o meu desaparecimento ontem no bar e por não dizer o meu nome. — Para que tanta pressa? — pergunta Guilherme com boca cheia. — Preciso voltar na confeitaria. — Sua mãe já chegou, pode ficar tranquila. — Emily comenta e volta a tomar suco de laranja. Termino de comer e tomar o meu suco, procuro pelo rapaz com os olhos, não quero levantar bem na hora que ele olha para a mesa. Ele está sentado perto do banheiro, o pior lugar no restaurante, pelo menos consigo sair daqui sem que ele olhe para o meu rosto. Coloco os talheres sobre o prato e pego minha bolsa já levantando da cadeira. — Você já vai? — pergunta Emily terminando de beber o último gole. — Nem conversamos direito. — Preciso ir. Agradeço a companhia dos dois e saí da mesa prometendo mandar mensagem para eles quando chegar em casa, provavelmente a Emily irá dormir comigo ou a Rafaella resolve me ligar para sair com ela e levar mais um bolo para casa, que não dúvido muito. — Você! — escuto uma voz masculina quando trombo com uma garçonete e derrubo a bandeja de sua mão. Agacho para ajudar a moça e esconder de quem é que estava falando comigo, não que eu já saiba quem é o dono daquela voz, mas quem sabe eu fingindo que não é comigo funcione. — Mil perdões! — fico falando para a mocinha. — Não foi minha intenção. Óbvio que não foi, eu estava preocupada em acabar sendo pega pelo Bonitão, mas por fim acabei sendo e com um desastre típico de Camila Mendonça. — Sem problemas, acontece! — a garçonete sorri e se levanta já com a bandeja em mãos e se retira. — Parece que vamos nos encontrar sempre que você tiver em casos desastrosos. — ele ri. — Parece que sim — respondo olhando para o Bonitão da noite anterior parado na minha frente. Não sei como ele veio parar aqui, talvez eu fiquei perdida nos meus devaneio e não percebi quando ele veio atrás de mim. — Não vai dizer o seu nome, não é? — ele fica me encarando. — Se não falar eu irei falar com seus amigos. — Como está sua mão? — olho para a mão dele que deu um soco naquele homem e tento mudar o rumo da conversa. — Está sim, não como gostaria — ele abre e fecha a mão na minha frente. — Preciso dela cem por cento. — Trabalho? — Sim, preciso das duas mãos. — Ele sorri de lado. — Já que não quer falar o seu nome, você não quer saber o meu nome? — Por que você quer colocar nossos nomes no meio dessa historia? Só seja o Peter Pan! — respiro fundo. — Além do mais não precisamos de ter contato depois de ontem. — Ok, eu sou o Peter Pan — ele ri  —E você seria quem? — Alice. — Por que a Alice? Poderia ser a Wendy. —  Óbvio que não, Wendy tem vários  irmãos, prendada e sabe fazer bordado e não é uma garota maluca. — fico olhando em seus olhos. — E a Alice é? — arqueia das sobrancelhas. — Claro que sim, ela estava sozinha lendo um livro quando viu o coelho branco, entrou no país das maravilhas e só fez maluquice por lá. — franzo o cenho. — quem mais maluco que ela para entrar em uma toca do coelho? — E por que eu seria o Peter Pan? — Tu tem cara de ser sonhador, além de ser bem curioso. — torci os lábios. — Parece bem aventureiro. — digo para não dizer que parece uma criança birrenta que não quer crescer. — E agora a Alice precisa voltar para a toca do coelho branco. — Foi um prazer te ver novamente, Alice. Sorrio sem graça e vou direto para o caixa, assim que pago minha conta volto para a confeitaria.
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