RAFAEL COCA NARRANDO
Fumo meu cigarro rapidamente enquanto termino o balanço dos meus negócios. Ontem eu levei um tiro, mas acho que foi mais que isso: Aquela maldita enfermeira não sai da minha cabeça. Eu jurava que ela me ligaria, afinal, fiz o favor de deixar meu telefone no celular dela, mas ela não se deu ao trabalho.
Passei minhas duas mãos em meu próprio rosto e bufei de raiva. Não sei o motivo, mas estou bravo com ela. m*l a conheço. Acho que estou assim porque, pela primeira vez em muito tempo, uma mulher não me olhou com desejo ou me deu atenção como eu gostaria... É, eu não sei ser rejeitado. Não depois do que a maldita da Raíssa fez comigo.
Três anos e pouco atrás, eu estava noivo, cara. Hoje tenho trinta e dois anos, mas eu conheci a Raíssa quando eu tinha vinte e sete. Ela era uma mulher linda, tudo que eu sempre quis em uma mulher, mas ela sempre teve problema com drogas. No meu meio, é comum isso acontecer, afinal, eu sou um traficante de cocaína e sub do Morro do Monte. Meu chefe, Sorriso, é um cara bem bacana e ele sempre tentou me alertar sobre a Raíssa, mas eu não consegui me desfazer daquilo que eu sentia por ela... Até ser tarde demais.
Raíssa foi embora e desapareceu. Fiquei sabendo que ela morreu, mas não sei se isso realmente aconteceu. Tudo que sei é que ela me transformou em um monstro sem coração.
— Coca, o Fumaça quer ver você. — Um dos meus ajudantes disse. — Ele disse que tem que ser pessoalmente.
— Quem é o Fumaça, meu amigo? Tá achando que tenho um HD dentro da cabeça pra decorar o nome de todo mundo que trabalha pra mim?
Meu funcionário riu.
— É um aviãozinho. Ele disse que é importante. — Eu girei os olhos ao ouvir e saí da cozinha, indo em direção a porta de entrada da minha casa.
Lá estava o tal Fumaça: Um garoto de treze anos, que ajuda sendo olheiro e passando droga pra quem a gente precisa.
— Fala, garoto. Seja rápido porque estou ocupado.
— Chefe... — Ele disse, tirando uma carta de dentro do short colorido. — Isso é pro senhor.
— O que é isso? — Perguntei, pegando o envelope.
— Olha, um cara em um carro preto apareceu no pé do morro mais cedo, me chamou e disse para entregar diretamente ao senhor. Eu não abri, mas pelo carro do cara, ele parecia ser rico.
Olhei para ele meio desconfiado.
— Como era esse homem? — Perguntei, e ele deu os ombros.
— Ele estava mascarado. Me entregou a carta e foi embora. — Eu concordei com a cabeça.
— Se você souber de mais alguma coisa, me avise. E vai com o meu amigo aqui... — Apontei para um dos meus funcionários. — E descreve o carro, a placa, tudo que puder ajudar a identificar quem é essa pessoa, ok? — Fumaça concordou ao me ouvir.
— Ok, chefe.
Entrei em casa de volta, com a carta na mão. Isso não é muito comum de acontecer, na verdade, desde que me meti no tráfico, nunca recebi uma "carta anônima". É algo realmente novo.
Me sente à mesa e abri a carta, tirando o bilhete de dentro.
Aquele bilhete mudaria tudo. O bilhete dizia o seguinte:
"Rafael,
Você não me conhece, mas eu sei tudo sobre você. Coisas que nem mesmo você sabe! Eu queria te contar um segredo: O que é, o que é, um pontinho loiro no hospital, há três anos atrás, saindo do meio das pernas da Raíssa?
Isso mesmo, Rafael! Você é papai! Parabéns!
Você tem uma semana para encontrar essa criança, antes que eu a mate.
Abraços,
G."
Eu comecei a tremer descontroladamente. Aquilo não podia ser real.
— Sorriso! — Eu gritei, saindo correndo pela casa, em busca do meu chefe. — Sorriso, pelo amor de Deus. — Falei, entrando no escritório dele.
— O que houve, cara? Parece que viu um fantasma. — Ele falou, se levantando da cadeira.
— Olha isso! — Eu disse, entregando a carta para ele.
Enquanto Sorriso lia, eu passava as mãos no meu cabelo de forma descontrolada e andava de um lado para o outro. Um flashback veio em minha cabeça, da época em que Raíssa sumiu. Raíssa era morena, como poderia ter dado a luz a um filho loiro sem ser meu? Não, não mesmo.
Lembrei-me de quando achei um teste de gravidez no lixo de Raíssa. Ela disse que era de uma amiga, que eu não precisava me preocupar. Eu acreditei nela, como sempre fiz... Agora, estou pensando que talvez ela tenha mentido pra mim sobre isso também.
— Isso não é bom, cara. — Sorriso disse. — Olha, na época que a Raíssa foi embora, teve um boato de que ela estava grávida, mas...
— Eu sei disso. Mas ela jurou que não estava. — Eu falei.
— A Raíssa não era muito confiável. Talvez você realmente tenha um filho ou filha, Coca. Só que eu não faço ideia de como podemos achar essa criança...
O funcionário entrou com algumas anotações, e entregou para mim. Era tudo que ele conseguiu extrair do Fumaça.
— Vamos ver o que temos aqui... O carro era provavelmente um Cadillac, preto, com os vidros muito escuros. A placa estava tampada, o homem vestia luvas e capuz. Ele realmente não queria ser identificado. Só que o garoto viu um enfeite de capacete no carro.
— Capacete? Que tipo de capacete? — Sorriso perguntou.
— Ele disse que é um capacete do Free Fire. É jogo de criança, isso? — Perguntei e Sorriso concordou.
— Sim, é. E bom, um Cadillac por aqui não deve ser difícil de achar. Tem muito carro bom por aqui, mas um Cadillac com vidros pretos pode chamar mais atenção do que não chamar. Acho que a pessoa errou em escolher esse carro. — Sorriso concluiu.
Depois daquele momento, Sorriso foi entrar em contato com algumas pessoas e eu fui entrar em contato com outras pessoas, tudo a fim de achar a pessoa do Cadillac, para então, tentar tirar a limpo essa história e descobrir se eu tenho um filho ou não. Isso é realmente assustador.
O dia foi cansativo, liguei para meio mundo, Sorriso também... Mas não conseguimos muitas informações. Isso é bem triste. Já eram onze horas da noite quando debrucei na mesa da cozinha e fechei meus olhos, muito cansado. Eu não conseguia parar de pensar no que a Raíssa havia feito...
Será que eu sou pai? Será que eu tenho um filho ou uma filha? Por algum motivo, sempre me imaginei como pai de menina. Mas ao mesmo tempo, morro de medo disso.
Minha vontade é sair atirando e destruindo tudo. Mas o cansaço é maior, então, é melhor eu ir dormir.
Deitei na minha cama e dei uma última olhada no meu celular. Safira havia postado um status no w******p, uma foto dela sorrindo e segurando uma bíblia, e ao fundo, havia uma igreja. A legenda dizia: "Dia de culto, o papai irá pregar!"