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1274 Words
COCA NARRANDO Dei um soco na parede, depois, comecei a arremessar as coisas da mesa pela casa. Talvez eu seja um pouco explosivo demais, mas nessa situação, o que eu poderia fazer? Eu acabei de descobrir que possivelmente tenho um filho ou uma filha e fico me perguntando: Como ela ou ele seria? Na manhã seguinte, dirigi até fora do morro, queria pegar um ar. Sei que é perigoso, mas às vezes eu só quero desaparecer daqui e esquecer todas as minhas obrigações. Acabei indo para a cidade do lado, aonde busquei socorro no hospital local. Estacionei em frente a uma pré-escola, e vi mães, pais e cuidadores deixando seus filhos ali. Me atentei nas crianças de três anos, pois, se eu tiver um filho, ele terá aproximadamente essa idade. Não acho que meu filho ou filha esteja tão perto, até porque, a Jéssica não seria burra ao ponto de entregar a nossa criança para alguém há poucos quilômetros de distância. Então, vi um rosto conhecido: Era a mulher de cabelo longo, até a cintura, preto e liso, que me atendeu no hospital. Como era o nome dela, mesmo? Ângela? Sabrina? Não, não... Era Safira. Me lembro bem dela. Safira desceu do carro popular vermelho e caminhou até uma das portas na parte de trás, onde abriu e tirou uma garotinha loira, de aproximadamente três anos dali. A garotinha, com o cabelo amarrado em dois e franjinha cobrindo a testa, parecia uma espécie de anjinho vindo do céu. Safira carregava uma mochila rosa de unicórnio em um braço, e a menininha no outro. — Tchau, filha! Divirta-se na aulinha hoje! — Ela disse, colocando a garotinha no chão e ajeitando a mochila em suas costas. Depois de trocarem um beijo no rosto, a garotinha entrou correndo e feliz para a escola. Eu não sei por qual motivo, mas decidi descer do carro e falar com Safira. Fui até ela enquanto ela se aproximava novamente do carro vermelho. — Safira? — Chamei, e ela olhou, levemente assustada. — Ah, oi. — Ela disse, estranhando minha presença. — O que você está fazendo aqui? — Se eu te contar, você não vai acreditar. Mas independente do que me trouxe aqui, fico feliz em te ver. Aquela é sua filha? — Perguntei. — É. — Ela disse, engolindo seco e entrando no carro. — E-eu preciso ir, Rafael. Tenho que entrar no trabalho... — Tá com medo de mim, boneca? — Perguntei, e ela respirou fundo, colocando as mãos no volante. — Talvez eu esteja um pouco assustada com o fato de um paciente meu, que apontou uma arma para um médico, estar na frente da escola da minha filha. — Eu passei a mão em meu próprio cabelo, loiro como o da filha de Safira, e respirei fundo. — Eu não queria te assustar com aquilo, me desculpa. — Disse. Ela parecia pronta para sair com o carro, e eu estava em pé, do lado do motorista, tentando puxar assunto. — Poderia por favor me dar licença? — Ela pediu, finalmente olhando para o meu rosto. Na hora que nossos olhos se encontraram, percebi o quão linda essa mulher é. Fiquei até com raiva. Por que ela não mora no meu morro? Se morasse, com certeza estaria aos meus pés como todas as outras. — Posso, é claro. Mas antes, deixa eu me explicar... — Falei, e ela suspirou. — Eu não estou aqui te perseguindo, se é o que está achando. Foi uma coincidência e eu decidi vir dar oi para a mulher que me socorreu outro dia. — Tá. — Ela respondeu. — Agora pode me dar licença? Aquela manhã, que era para eu "esquecer o meu problema", acabou me trazendo mais um: Safira Sanches, uma mulher durona de vinte e dois anos, mãe de uma garotinha de três anos que ainda nem sei o nome, mas em breve vou descobrir. — Eu não sou um monstro, Safira. — Falei, enquanto ela arrancava com o carro, e me olhava pelo retrovisor. Safira é uma mulher difícil. Infelizmente, parece que eu gosto de coisas difíceis... Porque, caramba, pensar nessa mulher faz minha calça querer explodir. E isso me dá mais raiva dela ainda. Acho que no final das contas, o misto de ódio e desejo é letal e viciante. Parti com meu carro em direção ao morro, mas antes de entrar, tive um flashback de novo do dia que encontrei o teste de gravidez de Jéssica. Por que ela mentiu? Por que ela faria algo tão r**m quanto isso? Ela queria quebrar meu coração mais do que já estava quebrado? Isso é completamente injusto... Cheguei em casa, e vi a destruição que eu mesmo fiz algumas horas antes. Girei meus olhos em raiva e fui beber e fumar. São as únicas coisas que me acalmam no momento. Então, além disso, peguei meu celular e comecei a mexer em algumas coisas... Até que lembrei do rosto de Safira, e decidi procurá-la online. Não foi difícil de encontrar Safira no i********:. Ela tem um nome diferente, e assim que a encontrei, fui mexer nas fotos, que não eram muitas, mas todas demonstravam uma felicidade fora do comum. Ela sabe como viver a vida ao lado da filha. É uma moça boazinha, não vai em festas, e bom... O único homem da vida dela, é o pai dela, conhecido como Pastor Sanches. É por isso que a garota é difícil, ela é crente. Vou pular desse barco antes mesmo de entrar, porque sinceramente, crente me irrita. Se bem que, os olhos dela... E aquele cabelo... Porcaria, por que eu estou tão obcecado com essa mulher? O que ela tem de tão especial? Que droga! — Coca? — Sorriso entrou na minha casa, com os olhos arregalados. — O que você fez, cara? — Eu tô puto. — Respondi, tomando um gole da bebida que estava em minha mão, e depois fumando o cigarro. — O que precisa? — Tenho uma novidade sobre... O caso do seu filho ou filha. — Sorriso disse e eu fui com pressa até ele. — Me fala, por favor. O que você achou? — Perguntei. — Na verdade, o carro apareceu de novo e entregou mais um bilhete. — Sorriso disse. Eu peguei o bilhete e o abri, e então, li o que estava escrito em voz alta. — O que é um pontinho loiro, indo embora do país, para Nova Iorque? Isso mesmo, o papai está perdendo tempo e sua cria está fugindo do país... Não há nada que você possa fazer para impedir. Meu coração estava muito acelerado, como da primeira vez. — Eu sinto muito, Coca. — Sorriso olhou para baixo. — Eu mandei fazerem uma busca em todos os hospitais da região e descobri uma coisa... — O que? — Perguntei, nervoso. — A Raíssa realmente teve um bebê. No prontuário não diz o sexo, só diz que foi encaminhado para a adoção. Ela sequer deu um nome para o bebe, cara. Era a confirmação que eu precisava. Agora, eu sei que eu sou pai, e eu preciso desesperadamente encontrar essa criança, não importa se ela está aqui, ou nos estados unidos. — Eu preciso ir pra Nova Iorque. — Avisei. — Preciso encontrar essa criança, Sorriso... — Eu sei. Eu vou providenciar os documentos falsos... Acredito que em alguns dias você consiga embarcar. Vou mandar duas pessoas com você, não quero você andando sozinho por aí. — Obrigado, Sorriso. Você é um chefe sem igual. — Falei e ele sorriu. — Você é meu braço direito, me ajudou muito quando eu estava precisando. Uma mão lava a outra.
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