SAFIRA NARRANDO
Meu nome é Safira Sanches, tenho vinte e dois anos e alguns anos atrás, quando eu era apenas técnica de enfermagem, uma coisa muito louca aconteceu comigo. Uma moça entrou em trabalho de parto no hospital e, eu, como técnica de enfermagem, estava ajudando como podia. Mas então, depois que ela teve aquela linda menininha, a moça me disse que queria que eu ficasse com a bebê. Fiquei muito chocada na hora, afinal, havia acabado de entrar na faculdade de enfermagem e não sabia como seria cuidar de uma criança. Mas, ao mesmo tempo, ao olhar os olhinhos verdes da bebê, eu decidi aceitar o que aquela moça me pediu.
Eu não sabia, mas aceitar cuidar de Abigail, mudaria por completo a minha vida... E pra muito melhor. Pelo menos foi o que aconteceu, até agora.
Abby tem três anos, é muito inteligente, sorridente, e é uma menininha loirinha de olhos verdes. Eu sou diferente dela, tenho olhos grandes e castanhos, cabelos quase pretos e até a cintura. Abby me chama de mamãe, e ela ainda não sabe direito que é adotada, afinal, ela tem apenas três anos. Sempre falo que ela foi gerada no meu coração e não na minha barriga. Quando ela estiver pronta, nós teremos essa conversa...
Hoje é o primeiro dia de aula da Abby, ela está elétrica. Fiz duas chiquinhas no cabelinho dela, e ela ficou linda. Está levando sua mala de unicórnio com todas as suas coisinhas. Descemos do meu carro, que graças a Deus conquistei com muito esforço no meu trabalho, e fui andando com ela até a escolinha.
— Bom dia, meu amor, divirta-se e obedece a professora. — Falei, dando um beijo em sua pequena testa e ela correu para dentro da escola, feliz da vida.
— Tchau, mamãe! — Ela gritou, de dentro da escola, acenando para mim. Devo dizer que ela fica muito fofa com o uniforme branco e azul!
Entrei no meu carro e fui para o hospital onde trabalho, tranquilamente. Eu não sabia, mas hoje seria um dia complicado na nossa vida!
O dia em que eu conheceria um homem c***l, que mexeria com minha sanidade: Rafael, também conhecido como Coca. Ele chegou baleado ao hospital e eu, que agora sou enfermeira padrão, sabia que o caso dele viria para mim, porque é sempre assim: Tudo que é complicado demais cai na minha mão.
Quando ele chegou, o hospital virou um pandemônio. Isso porque ele entrou com seus homens armados, foram discretos, mas era possível ver as armas por baixo da roupa. O cara é tão orgulhoso que chegou com um tiro na perna andando.
— Preciso de cuidados. — Ele disse, na recepção. Rafael é um homem alto e bonito, loiro, de olhos verdes brilhantes. Tem tatuagens por todo o corpo, bom, pelo menos nas partes que suas roupas nos deixam ver.
— Safira! — A recepcionista gritou. Eu já sabia. — Avalia esse paciente, por favor? O doutor está tomando café.
— Por um acaso você sabe quem eu sou para delegar o meu caso para uma enfermeira? — Ele disse, e um dos seus homens levantou a blusa, mostrando a pistola pendurada em sua cintura.
— Rafael, como diz na sua ficha. Eu não sei quem você é, senhor, mas o médico do hospital não está nem aí pra você ou pra qualquer paciente. O melhor que posso fazer é colocar você com a Safira até ele retornar. Ela é uma excelente enfermeira, faz mais procedimentos que ele aqui nesse hospital. — A recepcionista finalizou.
O homem, nervoso, passou a língua nos dentes, com a boca fechada. Suas narinas estavam mais abertas que o normal, mostrando o quanto ele estava bravo.
— É melhor você saber o que está fazendo. — Rafael disse, olhando para mim de cima a baixo.
Nós não esperamos pessoas como Rafael aqui nesse hospital. Moro no interior do Rio Grande do Sul, e sei que se esse homem é um bandido, veio do Morro do Monte. Sei que o líder de lá é um tal de Sorriso, dizem que ele é um bom homem, apesar de mexer com a bandidagem.
— Não se preocupe, senhor, irei fazer o meu melhor. Me acompanhe, por favor. — Eu disse.
Eu o levei até a salinha do médico e então, ele se sentou na maca, para que eu pudesse avaliar. Observei sua perna tatuada ferida à bala, e suspirei.
— Tá r**m? — Perguntou. Eu neguei com a cabeça.
— Não muito. — Respondi, enquanto pegava os utensílios para a extração. — Queimou um pouco sua carne... Mas não é nada que um homem como você não aguente. — Eu sorri, de forma doce, passando a falsa calma que passo para todos os pacientes.
— Vai ficar cicatriz? — Perguntou. Eu concordei com a cabeça.
— Com certeza.
— Eu estou aqui porque a última vez que tomei uma bala de um inimigo, ela estava envenenada. Será que dá pra descobrir se essa também está? Eu quase morri com um tiro de raspão no braço da última vez. — Ele reclamou e eu concordei com a cabeça.
— Vou pedir alguns exames pra você, e deixar aqui na mesa para o doutor assinar. — Falei e ele concordou.
Continuei o atendimento e comecei a retirar a bala da perna dele. Ele apertou as mãos na maca e fingiu que não estava com dor.
— Se você quiser, posso aplicar uma anestesia local. — Eu disse.
— Não precisa. Só termine isso, eu tenho mais o que fazer. — Eu dei os ombros ao ouvir e acelerei o serviço.
Já que ele gosta de sofrer, vamos fazer ele sofrer!
Costurei a perna dele à sangue frio, depois de uma higienização intensa. Ao meu ver, não tem nada de mais e não precisa de nenhum exame, mas se ele alega que a bala pode estar envenenada, vou solicitar os exames.
— Prontinho. — Falei, assim que terminei. Ele queria se levantar, mas eu neguei com a cabeça. — Você ainda precisa ficar aí, vou tirar seu sangue pra ver se a bala causou alguma infecção.
Naquele momento, o doutor entrou e me olhou de cima a baixo, com desprezo, como sempre.
— O que está fazendo na minha sala, ninfeta? — Ele disse e eu ergui as sobrancelhas. — Saia já daqui!
— Epa! — Rafael disse, olhando com ódio para o médico. — Se você estivesse na sua sala fazendo seu trabalho, ela não estaria aqui. — Rafael sacou a arma e apontou diretamente para o médico, que arregalou os olhos. — Eu não gosto de gente otária. Agradeça à sua enfermeira por não atirar de ódio na sua cara pela sua demora.
— D-desculpe, senhor, eu não quis ofender, eu só... — Rafael se levantou e foi para cima do médico, o agarrando pelo jaleco e colocando a arma embaixo de seu queixo. Meu coração acelerou e eu engoli seco. Eu assistia tudo atônita, com medo por ele e por mim também.
— Cale a boca. Assine os papeis do meu exame e atenda melhor a população dessa cidade, se não, meu amigo, você vai acabar em uma vala com a boca cheia de formiga. — Ele concluiu.
Rafael guardou a arma. Nunca vi o médico assinar os papeis tão rápido quanto naquele momento. Sinceramente, ao invés de ficar com medo dele, por todas as ameaças ao doutor com a arma, eu senti um prazer sádico. Tava na hora de alguém dar uma lição nesse velho i****a. Ele nunca atendeu bem a população e isso sempre me irritou demais.
Como eu suspeitava, os exames de Rafael estavam bons, então, eu fui liberá-lo.
— Deu tudo certo, não tem nenhum veneno no seu corpo. — Eu falei e ele concordou com a cabeça.
— Valeu, garota. Você tem minha gratidão. Se você precisar de mim, é só me ligar.
Eu olhei para ele meio confusa. Ele sorriu de forma maliciosa e então, eu peguei meu telefone. Ele havia ligado para o celular dele e salvado o número como "Rafael Coca".
Acho que ele desiste de mim rapidinho quando souber quem eu sou, que eu tenho uma filha adotiva e sou virgem, por ter feito um voto de castidade com Deus.