Paris - Saguão do aeroporto
Soraya não suportava a ideia de ter que retornar ao Brasil. Sentia como se pertencesse a Europa, podendo jurar a si mesma que em vidas passadas provavelmente fora uma parisiense legítima e que a reencarnação como brasileira provavelmente seria para pagar alguma penitência.
Muito do seu desgosto era por saber que no Brasil não faria frio o suficiente que lhe permitisse usar os inúmeros casacos de pele que comprara e que quase ninguém no Brasil ficaria com inveja de seus Loiboutin, já que para Soraya, os brasileiros m*l eram capazes de distinguir uma havaianas de uma melissa.
Baltazar, seu marido a acompanhava. Em todo tempo havia sido contra aquela viagem a Paris, afinal e contas, estavam em completa falência e o o que os mantinha naquele status por hora fora o casamento arranjado do sobrinho Bruno com a distante Lorena.
- Para quê tantas coisas, Soraya? - Baltazar tentava se equilibrar carregando o excedente de bagagens que não coubera no carrinho que Soraya empurrava.
- Você faz ideia de para que serve cada coisa que eu comprei, querido? - O tom de voz da megera era irônico e com pitadas leves de desdém. Ela achava o marido um tanto pouco inteligente.
- Não. Nem imagino! Só sei que estão muito pesadas! - Queixava-se o pobre homem.
- Então não há porquê perder tempo explicando. Você não seria capaz de entender, meu docinho! Mas vamos logo , antes que eu desista dessa loucura de retornar à terras tupiniquins. Só de imaginar o calor que faz naquele protótipo de país de submundo já sinto urticárias por todo o corpo!
- Eu não sei como iremos pagar por essa viagem. - Murmurava Baltazar não conseguindo esconder sua insatisfação.
Irritada, porém sem demonstrar - pelo contrário - com um sorriso sarcástico, Soraya retirou seu óculos de sol da Dolce e Gabana e aproximou-se do marido lentamente.
- As malas estão pesadas, meu pedacinho de céu? - A megera desatou o lenço branco do pescoço - Talvez consiga carregar isso aqui também! - Disse ela segurando o lenço.
- Mas não tenho mãos para carregar mais absolutamente nada, minha florzinha!
Soraya riu.
- Claro que tem, meu pitel. - Soraya dobrou o lenço e de maneira ágil o enfiou todo na boca de Baltazar, que passava a grunhir com um som abafado pelo tecido em sua boca - Viu? Agora essa sua boquinha serve para algo mais útil do que ficar falando asneiras - a mulher piscou para o marido - E vamos de vez que já estou exausta! - DEcretou retomando seu caminho em direção ao portão de embarque.
Mansão Malota
Lorena sentia um misto de inúmeras fragrâncias misturadas pelo ar e junto disso diversos olhares curiosos a observando. Contudo, nada que a surpreendesse tanto, afinal, a sua maneira sofisticada de vestir-se e os modos elegantes a destacariam sem sombra de dúvidas. Não se tratava de uma mulher que passava despercebida de olhares, principalmente dos homens.
Lúcio e Celeste mantinham-se como dois cães de guarda logo atrás de Lorena. O motorista observava tudo ao redor com sua desconfiança de sempre, já Celeste começava a deslumbrar-se com a decoração da mansão e tentava não transparecer deslumbramento.
Uma música sertaneja típica da região tocava naquele momento o que atrapalhava a atenção de Lorena e parecia dificultar seu desejo de encontrar o mordomo em meio a toda aquela gente. Era o mesmo com quem ela havia falado há pouco, logo ao chegar, e que permitira sua entrada.
Equilibrada sobre seus saltos agulha, a moça dirigiu-se rumo a escadaria da imensa casa que dava acesso ao andar superior - afinal, provavelmente seria por lá que Castor teria deixado pronta a suíte que havia prometido a mais nova dona daquela casa.
E não foi preciso pedir licença, pois a imponência e o olhar frio de Lorena repeliam sublinarmente os corpos daquelas pessoas, que iam permitindo sua passagem. Apesar de desconhecida, ninguém além de Lorena, naquele instante, tinha mais trejeitos de dona daquela luxuosa mansão que ela mesma. Mas claro, ficava também perceptível que aquela misteriosa mulher não pertencia a festa que estava sendo dada.
No outro canto da festa Bruno e Eduardo continuavam sua conversa bebendo um uísque Bourbon. Não tiveram tempo de notar a linda moça que subia a escadas - ou melhor: Bruno talvez não fosse capaz de se atentar que a esposa, que vira muito por pouco por fotos e que se recordava apenas de memórias da adolescência. Ela estava mais perto do que imaginava e as coisas com toda certeza não seria as mesma daquele momento em diante.
- Meu Deus, que Mulher! - Disse um rapaz que estava com outro amigo ao pé da escada - E cheirosa também! - Completou.
Lorena deu tanta atenção ao comentário daquele estranho quanto daria a uma porta.
- Bruno nunca erra! Sempre convida as mulheres mais gatas pras festas dele! Se bem que você tá bem acima da média, hein, gatinha! - Comentava o outro rapaz concordando com o primeiro.
- Ta indo aonde com essa malas? - Perguntou o primeiro.
Lorena apenas ignorou, seguindo seu caminho, esperando pessoas descerem os degraus para que ela pudesse subir.
- Ih, cara , comeram a língua dela. A gatinha não fala. A gatinha é esnobe, saca?
Mesmo assim, a jovem Lorena os ignorava como se não passassem de uma mobília qualquer daquela casa. E nem era por ter se acostumado ao assédio masculino que ela fazia de conta que não ouvia. Era pelo fato de não esperar nada de muito surpreendente vindo daqueles dois rapazes que naquela idade ainda se prestavam a um papel tão ridículo.
E antes de qualquer um daqueles rapazes sequer ousar estender a mão para chamar a atenção de Lorena, Lúcio largou as malas que trazia e deteve o estranho engraçadinho.
- Não ouse encostar na doutora! - A calma na entonação do motorista mais irritava do que acalmava o jovem rapaz, que se sentia desafiado por Lúcio.
- Ih, qual foi irmão? Ela tá contigo pra você ficar defendendo?
O rapaz desceu um degrau, aumentando o tom de voz e inclinando o tronco em direção a Lúcio, na tentativa de demonstrar força. Lúcio não se intimidou permanecendo imóvel onde estava. O motorista não vacilava ao encarar o seu, agora, oponente.
Lorena olhou para trás para checar se era mesmo o que imaginava o que acontecia. Ela desejava que sua chegada fosse triunfal e não ofuscada por uma briga entre dois homens adultos. Além disso, eram dois amigos contra Lúcio e, apesar de saber da resistência de seu motorista, jamais o deixaria travar uma briga por causa dela. O jeito seria expulsar aqueles dois homens de sua casa. Seria o justo.
E, por sorte, antes que Lúcio conseguisse revidar uma tentativa de soco que quase levara, o mordomo surgiu milagrosamente no alto da escada, descendo apressado pelos degraus ao perceber uma possível confusão se armar.
- Senhora Lorena, que honra recebê-la! Posso ser útil em algo? - Dizia Castor cheio de formalidade mas um pouco instável devido ao primeiro contato com sua nova patroa.
- Olá, Castor. É um prazer conhecê-lo também. Depois nos apresentamos melhor. Por hora eu quero que você retire aqueles dois rapazes da minha casa imediatamente. Estão sendo completamente deselegantes com meu motorista. - Ela os aponto com os olhos discretamente para que o mordomo os visse e se certificasse quem eram - Não são mais bem-vindos aqui.
- Mas senhora... Como direi isso. Bom, senhora - pausava o mordomo aflito - É que são dois convidados íntimos do senhor Bruno! Seria certo expulsá-los? Talvez eu possa pedir que eles caminhem para fora , para o hall. O que acha?
- E os quero fora da minha casa agora. E se não fizer o que estou ordenando, você saíra juntamente com eles! E quem paga seu salário sou eu e não Bruno - Dizia Lorena dando as costas ao mordomo indo para o andar superior.
- Sim senhora. Sim senhora. Farei isso. Com certeza. E já subo para mostrar seus aposentos!