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Sala de estar da mansão
- Eu não acredito que Luiz teve mesmo a coragem de ir até lá - Eduardo exclamava dando um gole em sua bebida.
- Vamos deixar isso para lá, Dudu. Afinal de contas, gosto não se discute, não é?
- Tá maluco, Brunão? Nada disso. Vamos até lá ver essa cena bem de pertinho. Será hilário!
- Então vá sozinho, Edu, porque eu ficarei bem aqui!
- Ah, para, vai! Uma hora ou outra você e ela vão ter que se falar. Vão morar juntinhos aqui, feito marido e mulher. Ou pretende se mudar?
Bruno precisava admitir que desta vez seu colega tinha razão.
- O que eu fiz para merecer esse castigo todo? - Bruno olhava para o alto, como numa prece - Ok, vamos lá! - Disse relutante.
Lúcio continuava observando a movimentação e há algum tempo que percebera os dois homens olhando para sua senhora e cochichando algo. O motorista era capaz de supor que um deles talvez fosse o marido desconhecido de Lorena, mas não saberia dizer quais as intenções a partir daquela aproximação que estava prestes a acontecer. Outra vez Lúcio pôs-se em alerta, para um eventual embate.
- Interrompemos? - Eduardo foi nada sutil na abordagem.
De imediato Lorena sentira asco ao observar o sorriso debochado de Eduardo que pouco havia mudado em doze anos.
- Não interrompe, Eduardo. - Sorria Lorena gentilmente. - Bruno, como vai? - Completou ela ao ver seu marido escondido atrás do colega.
- Oi - Bruno sorria sem graça e acenou de leve com a mão.
- E aí, Luiz , já descobriu se ela cortou "as coisas" fora? - Eduardo fizera um gesto de tesoura cortando o ar.
A piada fora tão sem propósito que gerou um desconforto imenso em todos que estavam na roda de conversa.
- Eduardo e seu humor de adolescente que morrerá se masturbando. Você ainda é virgem ou já encontrou algum mulher medicada que tenha aceitado t*****r com você?
A resposta saira de forma tão natural e orgânica que Luiz gargalhou de maneira espontânea e Bruno se esforçou para não rir.
Eduardo também não estava preparado para uma resposta tão afiada e rápida quanto aquela que recebera. Talvez estivesse se valendo das memória da época de ensino médio em que Ariel ouvia tudo e baixava a cabeça. Eduardo ficou profundamente irritado, ainda mais ao perceber que os dois colegas haviam achado graça na assertividade da moça.
- Bom, e se bem quer saber, Dudu, eu "cortei" lá embaixo - completou ela de maneira irônica.
- Vamos ali atrás da escada e eu te mostro quem é virgem aqui!
- Ah, Eduardo, até onde sei, dizem as más línguas que você não é capaz de durar tempo suficiente nem para cozinhar um miojo. Foras os boatos de que seu amiguinho aí embaixo - Lorena apontou para as partes íntimas do rapaz - tem um tamanho bem modesto - ela estimou em centimetros.
Nem mesmo Bruno se conteve e começou a rir. Não poderia imaginar que o humor ácido de Lorena o faria rir e que muito menos seria ela que o vingaria da enxurrada de piadas que ficou ouvindo por toda aquela noite.
- Pequeno? Meu p*u não é pequeno. Se enfiar ele na sua boca é capaz de morrer sufocada!
- Morrer? Me poupe! Morrer só se for de tédio e de desgosto.
A última fala de Lorena foi a gota dágua para que Eduardo explodisse de vez.
- Qual foi, seu traveco? Aberração? Tá pensando o que? Que vai ficar tirando onda com a minha cara?
Lúcio apressou-se em socorrer sua senhora. Jamais permitiria que quem quer que fosse a machucasse,
- Ei, cara, baixa sua bola aí - O tom intimidador de Lúcio vinha de sua voz grave.
- É, irmão, segura a onda aí! Tá todo mundo olhando você gritar! - Disse Luiz constrangido.
- Me larga, Luiz! Essa arrombada não pode falar assim comigo. f**a-se quem está olhando!
- Pera lá, cara. Senhorita Lorena fala como bem quiser. Ela está na casa dela. Você quem precisa se recompor e manter a educação. - Retrucava Lúcio mais firme que uma rocha. Ele já estava acostumado com situações como aquela.
- E quem é você, an? - Eduardo olhava para o motorista com desdém.
- Não importa quem eu sou. Só segura sua onda, e pára de dar piti.
Como se farejasse quando suas patroas precisassem, lá estava Castor, ao lado de Lorena, pronto para receber ordens. Era como se tivesse emergido do chão.
- Devo acionar os seguranças novamente, senhorita Lorena?
- Por favor, Castor. Isso não terminará bem!
Lorena abriu espaço até Eduardo. Ela não o temia como no passado, quando todos a intimidavam no colégio.
- Bem, Eduardo. Você não aparenta estar no seu melhor momento. Sugiro que vá para casa. A festa está encerrada!
- Quê??? Eu não vou sair daqui. Essa casa é do Bruno! - Disse indignado - Bruno, você não vai fazer nada?
- Lorena, você não pode expulsar meus convidados dessa maneira! - Bruno tentava ser firme, porém ele sabia que a palavra dela valia mais que a dele. Tudo dentro daquela mansão pertencia sua esposa, até mesmo ele.
- Aqui ele não fica.
A maneira altiva e seca com que Lorena proferira tais palavras irritou os ouvidos de Bruno.
- Ah, mas ele vai ficar sim. Nenhum convidado meu sairá a menos que eu deseje. A festa continua , galera! - Gritou Bruno aos convidados, já vermelho de raiva.
Em pouco tempo os quatro seguranças surgiram junto de Castor.
- Senhora? Aqui estão, como pediu! - Castor olhou ao redor com altivez.
- Obrigada, Castor. Ainda estou esperando o bom-senso deste cidadão e que ele saia de maneira elegante.
- Você ouviu Bruno dizer que eu não preciso sair.
- Cara, vai pra casa. Sério, será melhor! - Dizia Luiz ao perceber que as coisas poderiam piorar para Eduardo.
- Não ousem colocar as mãos nele - Interveio Bruno ao perceber a ação dos seguranças.
Sem se abalar, Lorena disse:
- Bom, já sabe o que fazer, Castor.
E como se Eduardo fosse um saco de lixo, os seguranças o arrastaram até o lado de fora da casa. Ele se debatia, na tentativa de que o soltassem. Mas fora em vão.
- Me larguem, seus idiotas!!! Meu pai vai processar cada um de vocês!!!! Vão se arrepender de um dia terem colocado essas mãos imunda em mim.
Impotente, Bruno assistia tudo sem poder fazer nada. Apenas um ódio contra sua esposa começava a crescer em seu coração. Ele já havia tido uma pequena prova de como seria seus dias naquela casa a partir dali e que teria de lidar com muito mais coisas que a simples vergonha que sentia daquele matrimônio puramente arranjado. Até mesmo Castor já se inclinava a nova patroa como se fosse um cachorrinho.
Enquanto Luiz perseguia os seguranças para tentar evitar que Eduardo sofresse alguma agressão, Bruno logo procurou por Lorena em meio a multidão que já estava alvoroçada com toda aquela confusão que se armara. Era preciso se impor, pois por mais que Lorena tivesse todo aquele dinheiro, Bruno iria mostrar que ele não era um par de sapatos ou uma joia que se poderia comprar. E deveria o fazer rápido, antes que Lorena dominasse tudo e todos por completo.
Assim que a encontrou tomando um gole de champanhe. Bruno caminhou até ela após garantir que o motorista ajudava na remoção de Eduardo para o lado de fora da casa. Sem aquele cão de guarda, as coisas ficariam mais fáceis.
- Ei, ei, ei... - Disse chamando a atenção de Lorena que já seguia para a outra sala - Espera um minutinho aí - disse firme, mas ofegante.
O fato de ser alto e forte já garantia naturalmente a Bruno imponência. Até mesmo irritado ele era charmoso, e isso Lorena queria esquecer. Mesmo com os saltos, Lorena precisava elevar levemente o olhar para encarar aquele que, agora, era seu marido perante a lei.
- Se soltar meu braço, talvez possamos conversar de maneira civilizada, Bruno - Lorena mantinha-se elegante olhando a mão de Bruno apertar com força seu antebraço.
- Não estou preocupado com isso agora. O que acabou de fazer foi inadmissível! Quem você pensa que é, Lorena?
Calmamente ela desvencilhou-se das garras de Bruno e ajeitou seu vestido mid preto que havia subido pela coxa levemente.
- Bem, olhe o redor - dizia satisfeita- Cada coisinha aqui dentro me pertence. Sou dona de tudo. Eu decido que fica. Eu decido quem sai.
Olhando em seu entorno, Lorena já era capaz de sentir o gostinho da vingança começar.
- Ah, mas se está pensando que vai me humilhar na frente dos outros como fez com Eduardo, devo avisá-la que você está muito enganada.
- Então tá - dizia ela olhando fixamente para ele, sem se deixar intimidar por aqueles olhos profundos e que causavam arrepios - O que vai fazer? An? Me conta!
Talvez o novo hobby de Lorena fosse irritar Bruno. Lhe pareceu algo divertido vê-lo se aborrecido.
- Não ouse me desafiar, Lorena. Você não sabe do que sou capaz! - Rugiu ele.
- Ainda estou esperando, meu doce!
Ela não se intimidava de maneira alguma com aquele homem de mais de um metro e noventa a encurralando contra a parede e praticamente rugindo feito um predador.
Por um breve momento a fragrância doce e suave do perfume de Lorena o distraiu e por um instante se sentiu confuso ao encarar os olhinhos pretos feito jabuticaba dela. Não seria certo abordá-la daquela maneira, ou seria?
" Ela está pensando o quê? Que vai me enlouquecer de ódio?" dizia ele a si mesmo enquanto Lorena permanecia inabalável o desafiando com o olhar.