Luca encarou o fundo do copo.
Vazio.
Outra vez.
Era curioso como um copo de uísque podia continuar se esvaziando mesmo depois de ter sido preenchido quatro vezes. Ele não lembrava exatamente quando servira o último, apenas sabia que o líquido queimava menos do que a lembrança do noite r**m com Beatrice.
O escritório estava mergulhado na penumbra. A única luz vinha do abajur sobre a mesa de madeira escura. Documentos espalhados. Mapas. Planilhas. Assuntos que exigiam frieza, estratégia, controle.
Mas sua mente não estava ali.
Estava no quarto.
Na imagem dela deitada na cama de olhos fechados, com o corpo tenso.
Esperando suportar.
Ele fechou os olhos por um instante.
Não sabia qual era a pior parte: ter adiantado o casamento por impulso, acreditando que isso resolveria o ciúme possessivo que sentira ao imaginar outros homens olhando para ela… ou o fato de que sua própria esposa tinha medo dele.
Medo.
A palavra ecoava como uma acusação.
Ele nunca teve medo de nada. Nunca precisou pedir confiança, ele a conquistava. Na força, na estratégia, na lealdade.
Conquistara a confiança da cúpula. Conquistara território. Conquistara respeito.
Mas não tinha conseguido conquistar o olhar dela.
A tristeza em seus olhos era evidente agora, refletida no vidro da janela. Ele estava confuso. Irritado consigo mesmo. O que havia feito de errado? Fora paciente. Esperara. Não a tocara sem permissão. Não a pressionara além do que julgava suportável.
E ainda assim… ela tremia.
Levantou o copo e bebeu o último gole.
Decidiu ali que a pior parte não era o adiamento precipitado do casamento.
Era saber que, para ela, a sua palavra não era suficiente.
Ele havia prometido que não a tomaria à força.
Mas promessas não apagavam histórias que ela ouvira a vida inteira sobre homens como ele.
Ele sabia que aquela guerra seria diferente.
Conquistar a confiança dela seria mais difícil do que conquistar qualquer território, muito mais difícil do que sentar a mesa da cúpula, muito mais difícil do que conquistar todo aquele império que tinha.
O céu começava a clarear quando ele finalmente se levantou. O álcool não resolvera nada. Apenas deixara sua mente mais crua.
Precisava vê-la, e tirar aquele cheiro de álcool
Precisava saber se a noite tinha sido melhor sem ele ao lado.
Caminhou até o quarto com passos silenciosos. Abriu a porta devagar.
Beatrice estava na mesma posição. Encolhida. Os joelhos próximos ao peito.
Como se tivesse passado horas assim.
O peito dele apertou.
Ela estava descoberta. O ar da madrugada ainda frio no quarto.
Ele pegou a coberta com cuidado e a estendeu sobre o corpo dela.
Seus dedos quase tocaram sua pele nua.
Quase.
Mas ele se afastou imediatamente.
Não queria testar os próprios limites. Não confiava em si mesmo o suficiente para permanecer ali olhando para ela daquela forma — tão vulnerável, tão exposta, e continuar apenas observando.
Seguiu direto para o banheiro.
Precisava de água no corpo. Precisava tirar o cheiro de álcool. Precisava aliviar seu corpo e seu alma daquele desejo que estava ficando cada vez mais incontrolável.
Ligou o chuveiro e apoiou a testa na parede gelada enquanto a água aquecia.
Como ela tinha feito aquilo com ele?
Ele não entendia.
Uma mulher pequena. Teimosa. Orgulhosa.
E mesmo assim tinha tomado seu coração de um jeito que nenhum império jamais conseguiria.
A água caiu sobre seus ombros, escorrendo pelo corpo tenso. Fechou os olhos, tentando organizar os pensamentos. Tentando afastar a imagem dela tremendo. Os pensamentos sobre ela estavam consumindo ele por completo.
No quarto, Beatrice abriu os olhos no instante em que sentiu o cobertor sobre o corpo.
Ela sabia que tinha sido ele.
Não havia dormido direito. O frio a acordava de tempos em tempos. O medo de ele voltar para terminar o que começara. O medo de não ter sido suficiente. De não ter sido esposa como deveria.
Mas ele não voltara.
E agora estava no banho.
Ela permaneceu imóvel, ouvindo o som da água cair.
Tentando decidir o que dizer.
Tentando decidir quem deveria ser.
Luca saiu do banheiro com uma toalha na cintura. Os cabelos ainda molhados. O silêncio entre eles era espesso.
Ela sentou-se devagar na cama, segurando o cobertor contra o peito, e quebrou aquele silêncio.
— Bom dia…
Ele parou por um segundo antes de responder.
— Bom dia.
Nada além disso.
Ela respirou fundo.
— Eu… quero me desculpar por ontem à noite. Não vai se repetir.
As palavras saíram rápidas. Como uma promessa. Como uma correção de comportamento.
Ele ficou imóvel.
Virou-se lentamente para encará-la.
— Você não é um robô — disse com a voz firme. — E como você mesma gosta de dizer… não é minha propriedade.
Ela apertou os dedos no tecido.
— Mas você tem o direito…
Ele atravessou o quarto em dois passos.
— Não termine essa frase.
O olhar dele era intenso. Não de desejo. De frustração.
— Eu não quero você por direito. Não quero nada por obrigação.
Ela o encarava, confusa.
— Então o que você quer?
A resposta saiu crua.
— Eu quero que você me queira na sua cama!
O silêncio que se seguiu foi devastador.
Ela não tinha resposta.
Porque, no fundo, ela o queria.
Mas o medo era mais alto que o desejo.
Luca passou a mão pelo rosto, impaciente. Aquela conversa curta já o deixava exausto. Não era uma batalha de argumentos. Era uma guerra invisível.
E ele não sabia como vencer algo que não podia enfrentar de frente.
Vestiu a camisa com movimentos firmes.
— Vou ficar alguns dias fora. Preciso trabalhar.
Ela ergueu o olhar rapidamente.
— Alguns dias?
— Sim.
Ele não explicou. Não suavizou. Não pediu compreensão.
Apenas abriu a porta.
E saiu.
O quarto ficou grande demais de repente.
Beatrice permaneceu sentada na cama, o cobertor ainda apertado contra o corpo.
Alguns dias fora.
A ausência dele deveria trazer alívio.
Mas o que veio foi um vazio estranho.
Ele não a tocara. Não a forçara. Não exigira nada.
E ainda assim… parecia que algo estava quebrando entre eles.
Ela levantou devagar e caminhou até a janela.
O carro já deixava a propriedade.
Luca estava indo embora.