Capítulo 2 — O Que Não Se Vê

1623 Words
Ainda no escritório, depois que Beatrice saiu, o silêncio permaneceu pesado no ar. A mãe dela entrou devagar, fechando a porta atrás de si. — Meu amor… podemos conversar? O homem que minutos antes gritava e impunha sua autoridade virou-se para ela com uma serenidade que parecia pertencer a outra pessoa. — Claro — respondeu, calmo demais.. A mãe de Beatrice aproximou-se e acariciou o rosto dele. Havia amor ali, mas também havia preocupação. — Você sabe que te apoio em tudo. — começou ela, a voz baixa, porém firme. — Mas deixar nossa filha se casar com ele? É uma loucura. Ele vai matá-la. Você sabe que nem todos são como você, na verdade, nenhum é como você. Não quero minha filha machucada. Na máfia, eram raros os casos em que as esposas não eram brutalmente agredidas ou violentadas por seus maridos. Os homens que deveriam protegê-las eram os verdadeiros monstros. — Eu confio no Luca. Ele não é louco. — Eu não confio. E você não pode ter certeza, sabe como são os homens nesse mundo. Não quero minha filha em perigo. — Você precisa confiar em mim e no que eu decidir. Se não for casada com ele, será com outra pessoa que o chefe decidir. Prefiro entregá-la a quem eu confio. E, além do mais, depois de tantos anos, desfazer esse acordo seria declarar uma guerra. — Eu confio no Luca — continuou. — Ele já mostrou ser um homem íntegro. Já provou sua lealdade mais de uma vez. Ela fechou os olhos. — Eu confio em você. Só não quero minhas filhas machucadas. — Nem eu. Eu sei o que estou fazendo. Ele inclinou-se e beijou-a com suavidade. Um gesto simples. Um gesto íntimo. Um gesto que provava que, apesar de tudo, ali existia amor. Ela saiu do escritório com o coração apertado. E seguiu direto para o quarto da filha. ⸻ A porta do quarto se fechou com força. Só então Beatrice permitiu que as pernas falhassem. Ela caiu sentada no chão, as costas apoiadas na madeira fria, a respiração descompassada, o rosto ardendo não apenas pelo t**a, mas pela humilhação. Ela nunca chorava na frente dele. Nunca. Aprendeu cedo que lágrimas eram combustível para controle. E Beatrice se recusava a dar ao pai qualquer sinal de fraqueza. Mas ali… Sozinha… No quarto onde ninguém a observava… Ela chorava. Chorava em silêncio. Com os punhos cerrados contra o peito. Com o coração batendo forte demais para um corpo tão pequeno. Ela não tinha medo da morte. Tinha medo de viver sem escolha. O quarto era o único lugar onde podia ser frágil. Onde podia ser filha. Onde podia ser apenas uma menina. A maçaneta girou suavemente. — Beatrice… A voz da mãe era baixa. Cautelosa. Ela entrou sem pressa, fechando a porta atrás de si. Beatrice limpou o rosto rapidamente, mas a mãe sempre soube. Sempre soube quando a filha estava quebrada por dentro. A mulher se aproximou devagar e se sentou ao lado dela no chão. Por alguns segundos, nenhuma das duas falou. Apenas respiraram juntas. — Ele não faz isso porque não te ama — a mãe disse, por fim. Ela fechou os olhos por um instante. Também havia sido prometida. Também não escolheu. Também aprendera a amar depois. Dentro daquela casa, ele nunca levantara a mão contra a esposa. Nunca a desrespeitara. Nunca a diminuíra diante de outros homens ou de qualquer outra pessoa. Ele a amava. E ela o amava. Um amor que nasceu da obrigação. Um amor que cresceu da convivência. Um amor que provava que arranjos nem sempre eram condenações. — Seu pai é um homem rígido… mas ele ama vocês. Tem feito tudo pela família. Ele é um bom homem. E era verdade. Beatrice riu, amarga. — Amar não deveria doer assim. A mãe suspirou. — Não precisa usar sua armadura sarcástica comigo — a mãe murmurou. — Eu te conheço. Sei que você está triste. — Eu não duvido que você possa ser feliz — a mãe continuou. — Mas a felicidade, na nossa família, nunca vem do jeito que queremos. Beatrice virou o rosto. — Ele é temido, mãe. As pessoas abaixam a cabeça quando ele passa. — Justamente por isso ele poderá te proteger. Seu pai confia nele. Me deu sua palavra de que ele não a machucará. E se seu pai confia, eu também confio. — Eu não quero p******o. Eu quero escolha. A mãe segurou o rosto da filha entre as mãos. — Às vezes, sobreviver já é uma escolha, Beatrice. Silêncio. A mãe respirou fundo antes de continuar: — Seu pai fez um sacrifício quando firmou esse acordo. Você acha que foi fácil para ele? Beatrice não respondeu. — Ele sabe que não pode quebrar isso agora. Depois de tantos anos. Depois de tanto investimento. A palavra dele vale mais que qualquer coisa nesse mundo. E Beatrice sabia. Naquele mundo, palavra era poder. E quebrar um acordo significava guerra. — Ele não está te vendendo — a mãe disse suavemente. — Está garantindo o futuro da família. — E quem garante o meu? — a voz dela falhou. — Com o tempo, você irá entender. Outra batida leve na porta. Siena entrou. — Vou deixar vocês duas sozinhas. A mãe beijou o topo da cabeça de Beatrice e depois sorriu para Siena. Os olhos vermelhos denunciavam que também chorava. Ela já havia sido prometida. Ela já sabia o que era não ter escolha. Siena se sentou na cama ao lado da irmã. — A gente pode fugir — disse, num sussurro urgente. — Temos o Santino. A gente pode fazer isso juntas. Ele vai nos ajudar. O brilho nos olhos dela era de esperança. Era o tipo de esperança que vinha do desespero. Siena vinha pensando numa fuga desde que foi prometida. Ela nunca foi de enfrentar o pai diretamente. Mas, com certeza, não se casaria com um estranho. Beatrice enxugou as lágrimas. — Fugir não resolve. Só adia. — Então vamos adiar! — E viver escondidas? Sempre correndo? Siena ficou em silêncio. Beatrice respirou fundo. — Eu não vou fugir. — Então o que vai fazer? Os olhos de Beatrice mudaram. Não havia mais lágrimas ali. Havia estratégia. — Eu vou enfrentá-lo. — Você está louca? — Talvez. Ela se levantou. — Se o papai não pode desistir desse acordo, Luca pode. — Luca? — Siena franziu a testa. — Você acha que ele vai desistir? Beatrice caminhou até o espelho. Observou o próprio reflexo. Sabia que a única opção era Luca desistir. O pai já havia avançado demais nesse acordo, e era um acordo que ele mesmo propôs. Não podia voltar atrás da sua própria palavras. — Eu vou fazer ele desistir. — E se ele não desistir? Beatrice sorriu de leve. — Então ele vai ter a esposa mais difícil que já conheceu. E vai se arrepender de ter aceitado esse acordo. — Eu preciso me arrumar — continuou Beatrice para Siena. — Logo ele vai chegar. — Boa sorte. Eu te amo. — Eu também te amo. As duas se abraçaram. Eram muito próximas e sentiam a dor uma da outra. Foi um abraço como o de quem se despede para ir a guerra. E, para Beatrice, ela realmente estava indo. ⸻ Beatrice entrou no banheiro. Ligou o chuveiro. Sentou no chão. Não para chorar. Mas pela indignação do que iria viver. Já não bastasse ser esposa de um homem daquele, ainda teria que sair como se gostasse de sua presença. Beatrice fez seu ritual no banho. Ritual que a mãe havia ensinado às duas, como cuidar da pele, do cabelo, dos dentes. Dedicou-se quase uma hora nesse ritual, não para impressionar, mas para ter uma vantagem nessa guerra. Poderia ter o rosto de uma menina assustada. Mas ela não era. E nunca seria. Vestiu um vestido simples, mas elegante. Um salto preto. Cabelos soltos e maquiagem leve. O corpo com curvas suaves, de uma mulher magra, sem exageros. Os cabelos morenos longos e soltos. A maquiagem realçando seus olhos cor de mel. O som do motor do carro ecoou do lado de fora. Siena caminhou até a janela e correu para o quarto de Beatrice. — Ele chegou! — disse, batendo na porta. Beatrice não correu. Não hesitou. Caminhou até a porta como quem caminha para um duelo. Lá fora, o carro preto reluzia sob a noite. Luca saiu da parte de trás do carro. Seu motorista permanecia atento a tudo. Cumprimentou o futuro sogro. — Quero ela de volta até as 22h. Luca apenas assentiu. Quando Beatrice saiu da casa, se deparou com ele. Ele era maior do que ela lembrava. Ombros largos. Postura firme. Rosto fechado. Não era f**o. Era imponente. Era forte. Cabelos perfeitamente alinhados. Olhos claros e frios. Estendeu a mão para ela. Mas ela fingiu não ver. Seguiu direto para o carro. Ele a seguiu, a mandíbula dele tensionou. Sentou-se ao lado dela. — Boa noite — disse, sério. Beatrice não respondeu. Continuou olhando para a paisagem. — Eu disse boa noite — repetiu, em um tom mais rígido. — Não me faça fingir que estou feliz por estar aqui. Eu estou obrigada. — Não precisa gostar. Mas, se vamos nos casar, eu quero te conhecer. — Eu não quero te conhecer. E nem me casar com você. — Você não tem opção. — Eu sei! — disse, gritando, virou-se bruscamente. Os olhos deles se encontraram... pela primeira vez como homem e mulher prometidos. Não havia sorriso. Não havia gentileza. — Eu sei — repetiu, mais suave. E, naquele instante, Luca percebeu algo que ninguém havia lhe dito Ela não era frágil. Ela era fogo. E ele acabara de aceitar brincar com as chamas.
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