Capítulo 3 — O Som do Fogo

1445 Words
Ele já tinha ouvido gritos antes. Gritos de dor. De ameaça. De traição. De medo. Mas nenhum tinha soado como aquele. “Eu sei.” Não foi o volume que o atingiu. Foi a forma como ela disse. Como se aceitasse o destino… mas se recusasse a se curvar a ele. Luca não desviou o olhar quando ela gritou. Homens desviavam quando eram desafiados. Ele não. Outro homem teria batido nela pela falta de respeito. Apesar de ainda não ser sua esposa, sendo prometida, já poderia ter os privilégios, ou as punições, de uma. Mas ele não. Por dentro, algo se deslocou. Ela sabia que não tinha escolha e, mesmo assim, não implorava. Não chorava. Não pedia. Ela o enfrentava. O carro seguiu em silêncio depois disso. O motorista mantinha os olhos fixos na estrada, como sempre. Luca mantinha a postura ereta, os braços apoiados nas pernas, os dedos entrelaçados. Mas sua mente estava nela. Na maneira como sustentou o olhar. Na forma como o desafiava sem medir consequências. Na ausência completa de medo. Ou talvez ela tivesse medo. Mas, se tivesse… era orgulhosa demais para demonstrar. Ele já havia visto mulheres prometidas antes. Sempre choravam. Sempre tentavam negociar. Sempre buscavam p******o. Beatrice não queria p******o. Ela queria escolha. E aquilo o intrigava mais do que deveria. ⸻ O carro parou diante de um prédio elegante, discreto por fora, imponente por dentro. Era dele. Tudo ali respondia a ele. Luca saiu primeiro. Deu a volta no carro e abriu a porta para ela. Dessa vez, ela saiu sozinha antes que ele pudesse oferecer a mão. Ele quase sorriu. Quase. Assim que atravessaram a entrada, o ambiente mudou. — Boa noite, Luca. — Uma voz sedutora e familiar demais. Ele olhou para a mulher apenas o suficiente. — Boa noite. Essa é minha noiva. E, para você, é Senhor Luca. A mulher empalideceu. — Eu não sabia — disse, envergonhada. Ela já tinha se deitado com ele várias vezes. Alimentava a esperança de casar-se com ele, não por amor, mas pela vida de riquezas que ele poderia proporcionar. Pelo visto, aquilo estava fora de questão. — Ninguém sabia — disse ele, de forma firme. Como quem confirmava que agora era comprometido, e pretendia continuar assim. A moça os conduziu até a mesa. Conversas diminuíram. Talheres desaceleraram. Homens endireitaram a postura. Ninguém o cumprimentava em voz alta. Ninguém o chamava pelo nome. Respeito não era demonstrado com palavras. Era demonstrado com silêncio. Todos abaixavam levemente o olhar quando ele passava. E nenhum, absolutamente nenhum, ousava olhar para ela. Não era desinteresse. Era medo. Medo de que ele interpretasse um simples olhar como desrespeito. E todos sabiam o que Luca era capaz de fazer se alguém o desrespeitasse Beatrice percebeu. Ele viu quando ela notou. Os olhos dela passearam pelo salão. Observadores. Analíticos. — Eles têm medo de você — ela comentou, baixo, enquanto se sentavam. — Respeito é necessário. — Isso não é respeito. Ele a encarou. — É sobrevivência. Ela inclinou levemente a cabeça. — Que vida triste. Ele não respondeu. Mas registrou. Depois de alguns segundos, ela falou. — E sobre a moça… pode continuar dormindo com ela. Ele a observou com calma. — Eu tenho um compromisso com você. — Não de verdade. E mesmo casados eu preferia a morte a me deitar com você. Os olhos dele escureceram levemente. — Você não sabe o que está desejando. — Não precisa se preocupar com o que desejo. Está livre para ter a vida que quer ter. Luca preferiu não discutir. Sabia que Beatrice estava o testando, e não cairia na provocação. ⸻ O restaurante era impecável. Luzes baixas. Música instrumental suave. Mesa reservada no fundo, longe de ouvidos curiosos. Ele escolheu o prato por ambos. Ela abriu a boca para reclamar. — Se não gostar, pedimos outra coisa. Ela pareceu surpresa por meio segundo, como ele já sabia que ela iria rebate-lo e porque ele pensou que poderia decidir algo por ela? A comida chegou. Era impecável. Ela provou em silêncio. Ele observava cada reação dela sem que parecesse estar observando. Ela comia com delicadeza. Mas não com submissão. Em determinado momento, ela apoiou o garfo no prato e o encarou. — Você sempre age como se estivesse no comando de tudo? — Geralmente estou. — Isso é arrogância ou treino? Ele inclinou levemente o corpo para frente. — Inteligência. Ela soltou uma risada breve. — Você acha mesmo que eu vou facilitar sua vida? — Não espero que facilite. — Então por que quer se casar comigo? Ele não hesitou. — Porque é estratégico. Preciso de uma esposa. E você de um marido. Ela estreitou os olhos. — Só isso? E eu não preciso de um marido. Vocês que querem me empurrar um. Ele sustentou o olhar. — Você precisa e isso é suficiente. Ela voltou a comer. Mas não parou de provocá-lo. Comentava sobre como odiava regras. Sobre como jamais seria uma esposa silenciosa. Sobre como não obedeceria ordens cegamente. Cada frase era um teste. Cada provocação era uma tentativa de fazê-lo recuar. E, estranhamente… Ele estava impressionado. Não pela rebeldia. Mas pela coragem. Homens muito maiores e armados temiam apenas sua presença. Mas Beatrice parecia não temer o próprio destino. Ela não media palavras. Não temia consequências. Não tremia diante dele. Ele conhecia homens que tremiam. Soldados que evitavam contato visual. E aquela menina de dezesseis anos o enfrentava como se ele fosse apenas… um homem comum. — Você não tem medo de mim? — ele perguntou, finalmente. Ela não pensou. — Não. Era mentira. Ele viu. Mas também viu que ela preferia morrer a admitir. E não queria uma esposa com medo, tinha pessoas demais ao seu redor que o temiam E aquilo… Aquilo o fez querer protegê-la. O fez querer tê-la. O fez imaginar como seria a vida com uma mulher que o desafiaria diariamente. O pensamento surgiu rápido demais. Ele o ignorou. Quando o jantar terminou, ele chamou o gerente com um simples gesto. Nenhum valor foi discutido. Nada foi registrado. O restaurante existia para servi-lo. Do lado de fora, a noite estava fria. Ele abriu a porta do carro novamente. Ela entrou sem agradecimento. Mas também sem ironia. O caminho de volta foi menos hostil. Menos explosivo. Ainda havia tensão, e muitas provocações Mas havia algo diferente. Curiosidade. Quando pararam em frente à casa dela, ele saiu primeiro. Ela também. Caminharam até a porta. Ele falou antes que ela pudesse entrar. — Teremos outro encontro na próxima semana. Ela cruzou os braços. — Você está avisando ou perguntando? — Avisando. Ela o encarou por alguns segundos. — Eu vou continuar tentando fazer você desistir. Ele deu um passo mais perto. Como ela era petulante. Não invasivo. Mas firme. — Boa sorte. Ela ergueu o queixo. — Eu não desisto fácil. Ele quase sorriu outra vez. — Eu também não. A porta se abriu. O pai dela os observava. Luca conferiu o relógio. 21h58. Pontual. Sempre. — Boa noite — disse ao homem. Recebeu um aceno de aprovação. E então foi embora. ⸻ Assim que a porta fechou, Siena apareceu como um furacão. — E então? Como foi? Beatrice tirou os saltos. Demorou para responder. — Ele é arrogante. — Só isso? — Controlador. Frio. Mandão. — E…? Beatrice hesitou. Só por um segundo. — E a comida era boa. Siena arregalou os olhos. — Então não foi h******l? Beatrice virou o rosto. — Continua sendo um casamento forçado. — Mas ele foi r**m com você? Silêncio. — Não. Siena sorriu, desconfiada. — Eu sabia. Beatrice respirou fundo. Não queria admitir. Não queria dar o braço a torcer. Não queria que aquilo tivesse sido… suportável. Porque, se fosse suportável… Talvez fosse possível. E ela ainda não estava pronta para aceitar isso, ela não queria aceitar isso! Como na década que estamos ainda era aceito casamentos arranjado. Beatrice se sentia ainda mais indignada. — Não importa — murmurou. — Eu ainda vou fazê-lo desistir. Mas, naquela noite, quando deitou na cama… Ela não chorou. Na verdade pensou muito sobre Luca e o encontro de tiveram apesar de ter uma cara fechada e não falar muito, ele não era verdadeiramente um monstro. E, em outro lugar da cidade, Luca também não conseguiu dormir. Os pensamentos dele agora eram sobre como conquistar aquela menina que o havia conquistado com um simples “eu sei”. Não por estratégia. Não por negócios. Mas por causa de uma menina que gritara “eu sei” como se estivesse declarando guerra. E ele tinha a estranha sensação… De que aquela guerra seria a única que realmente importaria. E ele queria lutar para tê-la.
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