Beatrice acordou e se preparou para a sua caminhada matinal. A noite tinha sido longa. Os pensamentos sobre o encontro, sobre como faria Luca desistir, não lhe deram descanso.
Levantou mais cedo do que o normal. Ainda estava cansada, mas o sono não vinha profundo. Era como se estivesse sempre em alerta.
Tomou um café rápido antes que todos acordassem. Santino já estava de pé, ele sempre estava. Nunca a acompanhava na caminhada; Beatrice jamais permitiu, e o pai sempre respeitou esse desejo.
— Estou indo caminhar — disse para Santino.
Ele a analisou por um instante.
— Acordou cedo hoje.
— Não consegui dormir bem.
Quando Beatrice saiu, percebeu, primeiro um carro, depois outro. A mais homens armados fortemente e espalhados ao redor da propriedade. Não eram os homens do pai, ela conhecia todos, alguns trabalhavam com o pai muito antes de ela nascer. Aqueles eram diferentes.
Postura militar.
Olhar treinado.
Discretos demais para serem coincidência.
Beatrice voltou para dentro.
— Santino, tem muitos homens diferentes lá fora. — disse, tentando manter a calma.
— Eu sei. São novos soldados.
Ela suspirou, aliviada por um segundo, e decidiu seguir com a caminhada.
Mas logo percebeu.
Eles a seguiam.
Não importava onde fosse. Mudava de calçada, diminuía o passo, acelerava, eles estavam sempre ali. À distância exata para parecer casual. Perto o suficiente para vigiar.
Resolveu parar em uma cafeteria. Precisava confirmar.
E lá estavam eles.
Na porta.
Olhos atentos para todos os lados.
Buscando qualquer ameaça.
Ela entendeu na hora.
Ele.
Luca havia colocado aqueles homens atrás dela.
E aquela não seria uma guerra fácil. Ele tinha mais poder, mais dinheiro. Homens que obedeciam sem questionar.
Beatrice voltou para casa com a revolta estampada no rosto.
Foi direto ao escritório do pai. Ele estava em uma reunião, como sempre. Ela não se importou. Interrompeu sem medo do que ele poderia fazer.
— Você permitiu isso?
O pai já sabia.
— É para sua segurança.
— Faltam dois anos para esse casamento! Eu ainda sou livre!
— Não está em discussão, Beatrice.
— Nunca está! Ele não tem esse direito. Eu não posso nem caminhar sozinha!
— Ele será seu marido. Quanto antes se acostumar com o jeito dele, melhor.
— Eu não quero me acostumar! Você tem que parar!
O choro veio involuntário. Aquilo era demais.
O pai abaixou a guarda.
— Saiam todos. Preciso de um momento.
A sala esvaziou.
Ele nunca a tinha visto chorar. Nem quando a punia pela petulância. Nem quando a disciplinava pelos desafios.
— Beatrice… existem coisas que já não posso controlar. São exigências. E com o casamento se aproximando, ele quer a certeza da sua segurança.
— Ele não tem esse direito — o choro ainda corria pelo rosto. — Me deixe falar com ele.
— Não. Você precisa se acalmar. Vá para o seu quarto. Converse com sua mãe ou com Siena. Mas precisa se acalmar.
Ela não respondeu. Apenas saiu.
Trancou-se no quarto. Precisava pensar. Precisava encontrar uma forma de fazê-lo parar.
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No dia seguinte, decidiu que só conseguiria falar com um dos homens de Luca se estivesse na rua.
Saiu para caminhar.
Fingiu tentar despistá-los. Mudou o trajeto. Entrou por ruas diferentes. Acelerou, depois diminuiu. Sem sucesso.
Eles eram atentos demais.
Ela parou abruptamente.
— Chega — disse, firme.
Silêncio.
— Eu quero que voltem e me deixem pelo menos caminhar sozinha.
Silêncio.
— Eu estou falando com vocês. Eu sou a futura chefe de vocês.
Um deles respondeu:
— Ordens do senhor Luca.
— Eu não quero saber. Se não querem problemas com ele, sumam daqui. Ou eu posso muito bem dizer que tentaram me atacar.
Os homens trocaram olhares.
Todos sabiam o que aquilo significava. Luca destruiria qualquer um que ousasse olhar para ela, imagina toca-la, Luca seria capaz de tirar as tripas de um homem ainda vivo.
— Senhora — disse outro, mais cauteloso — não podemos deixá-la sozinha. Se algo acontecer…
— Se algo acontecer, eu sei me virar — interrompeu. — E peça para Luca falar diretamente comigo. Hoje.
Ela virou as costas e voltou para casa.
Estava furiosa.
Como ele achou que tinha esse direito? E quando achou que ela aceitaria tão facilmente?
Dentro de casa, andava de um lado para o outro. Precisava falar com ele naquele dia. Ou explodiria com o coração acelerado e a raiva que a consumia.
Pouco tempo depois, ele apareceu. Em um carro preto. A postura era impecável, calmo demais. Sabia que Beatrice deveria estar furiosa.
Cumprimentou o pai com respeito.
— Posso ter um momento com ela a sós?
— No jardim — respondeu o pai.
Luca assentiu.
Foram para o jardim. Distantes o suficiente para a privacidade. Perto o suficiente para a vigilância.
Mesmo sendo sua noiva, ele jamais a desonraria daquela forma. Precisava que tudo estivesse correto. Para a cúpula, desonra não era aceitável.
Ela foi direta:
— Você perdeu o juízo?
Ele permaneceu tranquilo.
— Estou garantindo sua segurança.
— Eu não pedi. Estou segura aqui.
— Não precisa pedir. Você é minha agora. E quero garantir que esteja completamente segura.
Ela deu uma risada seca.
— “Sua”? Você está ficando louco. Eu não sou e não serei sua.
— Você foi prometida a mim. Desde então, é minha.
Ela se aproximou.
— Um jantar não te dá o direito de controlar minha vida.
Ele a observava com atenção quase clínica.
— Você acha que isso é controle?
— Eu acho que você está confundindo promessa com posse.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Você não imagina o quão possessivo eu posso ser.
Algo mudou no olhar dele.
Mas ele não gritou.
Não ameaçou.
Não se impôs fisicamente.
Apenas disse:
— Com o casamento se aproximando, algumas coisas precisam mudar.
— Daqui a dois anos.
— Dois anos passam rápido.
Ela cruzou os braços.
— Não passam quando se está presa.
Ele sentiu o peso da palavra.
Mas não demonstrou.
— Você será minha esposa. Precisa aprender a se portar como tal.
Ela sorriu, provocadora.
— Então comece esperando sentado.
Um pequeno silêncio se instalou.
— Luca. Mais uma coisa. Eu preciso conseguir falar com você sem ter que convocar todo o país.
— Vou providenciar um celular. Entrego no nosso próximo encontro.
Ela revirou os olhos.
— Tenho algumas coisas para resolver. Até a próxima semana.
Ela saiu sem responder, sem olhar para trás.
Ele deveria estar irritado.
Mas estava…
Fascinado.