Luca ficou alguns segundos observando Beatrice sair do jardim. Depois, virou-se e caminhou até a frente da casa.
Parou próximo ao portão e fez um gesto discreto com a mão, chamando seus homens.
— Senhor — disse o chefe dos soldados.
— Quero que parem de acompanhá-la na caminhada.
Mas todo o restante continua. Não quero ela sozinha.
— Certo, senhor.
Ele fez uma breve pausa antes de continuar:
— Quero um relatório de tudo o que ela faz no dia. Com quem fala. Onde vai. Quem são os amigos. Quero tudo.
— Sim, senhor.
Nenhum dos homens ousava questionar qualquer decisão de Luca, mesmo que fosse contraditória ao que ele havia dito minutos antes.
Beatrice entrou em casa e encontrou Siena esperando, como sempre, querendo saber de tudo.
— Me conta tudo…
— Não tem o que contar.
— Tem sim! Você exigiu falar com ele de manhã, e ele veio tão rápido!
— Não tem o que contar. Ele acha que pode me controlar.
— Ele fez questão de vir saber o que você queria também.
— Isso não anula o fato de que ele quer controlar minha vida.
Siena suspirou.
— Ainda podemos fugir.
— Não, não podemos. Eu vou irritá-lo ainda mais do que ele acha que aguenta.
— O papai vai te m***r se ele desistir.
— O papai não vai me m***r. Agora temos você, logo vai se casar com uma pessoa que já faz parte da cúpula
Beatrice odiava não ter controle. Se Luca estava jogando para irritá-la, ele estava conseguindo. Essa guerra ainda a deixaria louca. Mas ele ficaria louco primeiro. E ela não desistiria tão fácil assim.
Então decidiu mudar a estratégia.
Ele queria uma esposa à altura?
Com postura?
Elegância?
Ela daria tudo isso.
Mas nos termos dela.
— Mãe! — gritou pela casa. — Você pode chamar a Cristina?
Cristina era uma velha conhecida da mãe. Uma mulher rígida, impecável, especialista em etiqueta e presença social.
— Nossa… que mudança. Vai fazer aulas com ela?
— Vou sim. Preciso dela rápido, mamãe.
A mãe sorriu e pegou o telefone.
— Cris? Consegue vir aqui em casa hoje?
— Consigo — respondeu do outro lado.
Mais tarde, Cristina chegou.
— Vou te apresentar minha filha. Ela precisa de algumas aulas… vai se casar logo.
Cristina lançou um olhar compreensivo.
— Eu sei como eles são. Sempre exigindo tudo das noivas…
Beatrice estendeu a mão.
— Oi.
— Oi. Vamos começar? Tenho duas horas disponíveis por dia.
— Duas horas estão ótimas.
Nos dias seguintes, o treinamento começou. Postura. Andar. Sentar. Conversar. Olhar.
Aprendeu a controlar cada movimento do corpo. A silenciar a ansiedade na respiração. A falar devagar. A ocupar um ambiente sem pedir permissão.
E, surpreendentemente… ela gostou.
Não porque queria agradá-lo.
Mas porque aquilo era poder.
Percebeu algo importante ser refinada não era submissão. Ela jamais seria submissa. Era estratégia. Era elegância.
⸻
O dia do segundo encontro chegou.
Beatrice estava ansiosa, mais do que gostaria de admitir. Não sabia como agir. Se fosse amigável demais, ele acharia que ela era incoerente. Um dia briga, no outro parece gostar de sua presença?
Ela se arrumou sem poupar esforços. Fez uma maquiagem leve, gostava de sua beleza natural. O vestido preto, com decote nas costas, a deixava deslumbrante. O cabelo meio preso harmonizava perfeitamente com seu rosto.
Luca chegou.
Postura reta. Terno escuro. Expressão indecifrável.
Cumprimentou o futuro sogro de longe
— Às 22h — disse o pai.
Luca assentiu.
Ele abriu a porta do carro. Desta vez, ela não resistiu.
— Você está linda. — Disse assim que entrou no carro.
— Obrigada — respondeu, sincera.
Foram ao mesmo restaurante.
Os olhares abaixaram quando entraram. As vozes diminuíram. Foram conduzidos novamente à ala privada.
Luca colocou uma pequena caixa sobre a mesa.
— Trouxe seu celular. Para que não precise “chamar toda a Itália”.
Ela segurou a caixa, mas não agradeceu.
— Você é sempre tão sarcástico?
— Só quando necessário.
Ela revirou os olhos.
— Se você soubesse o que passa na minha cabeça quando faz isso…
— Eu não quero saber — respondeu rápido.
Ela abriu a caixa. Um celular novo. Luxuoso. Sem aplicativos. Sem distrações.
Apenas um número salvo.
Luca.
— Muito conveniente. Tudo bloqueado, só o seu número.
— É só o que você precisa.
— Não significa que eu vá usar.
— Você vai.
— Você teria que me obrigar.
— Eu conseguiria sem muito esforço.
— Você é muito convencido.
— Eu diria precavido.
Ela cruzou os braços.
— Precisamos falar sobre seus homens. Ainda acho um absurdo seus homens me seguindo.
— Ainda acho um absurdo você andando sozinha.
— Você não pode mandar em mim.
Ele sustentou o olhar.
— Ainda não. Mas já cuidei deles, não vão te incomodar na caminhada. Mas o restante do dia, vão te acompanhar, você gostando ou não.
Os olhos revirados mais uma vez. Luca não sabia explicar, mas aqui o tentava a domina-la ainda mais. E estava usando tudo o que podia para fazer isso, e quando a dominasse não teria mais como ela fugir.
O silêncio entre eles era carregado.
Ela queria odiá-lo.
E ainda odiava a situação.
Mas odiá-lo pessoalmente estava ficando… mais difícil.
Ele não gritava. Não ameaçava. Nunca era rude.
Isso a confundia.
— Teremos um evento na próxima semana — ele disse. — Não seremos só nós dois.
— “Teremos?”
— Sim.
— Eu não confirmei nada. Só aceitei estar com você, não com você e sei lá mais quem.
— Está confirmado.
Ela se inclinou levemente.
— Você continua decidindo por mim.
— Estou te inserindo no meu mundo. Que logo será seu.
— Eu não quero fazer parte do seu mundo.
Ele inclinou o rosto.
— Já faz parte.
Ela sorriu, provocadora. Mas o que ela queria mesmo era gritar com ele, não entendia como ele conseguia fazê-la ficar irritada tão facilmente.
— Então espero que seu mundo esteja preparado para mim.
Ele quase sorriu.
Quase.
⸻
Ainda era cedo quando saíram. Faltava pouco mais de uma hora para a hora da volta dela. Luca terminiou o jantar cedo propositalmente.
Luca chamou o motorista discretamente.
— Pegue o caminho mais longo.
O motorista assentiu.
Dentro do carro, o clima estava diferente. E sem muitas farpas por parte dela.
— Esse caminho está diferente — ela comentou.
— Eu pedi para alterar.
— Por quê?
— Quero algo em troca. Eu te dei o celular e resolvi o seu problema com a caminhada. Mereço algo.
Ela ficou tensa.
— Você está ficando louco? Não somos casados. Já te disse, prefiro a morte a me deitar com você. p********o. Eu estava quase acreditando em você.
Ele respirou fundo. Ele tinha entendido muito bem o quela disse. Apensar de ficar chateado com a repulsa que ela sentia, preferiu não demonstrar
— Eu não quero te levar para a cama. E não faria isso dentro de um carro, com meu motorista aqui.
Ela permaneceu em silêncio.
— Quero apenas um beijo.
Beatrice travou.
— Beatrice, estou falando com você.
— Eu ouvi.
— Estou esperando.
— É que…
— É o quê? — interrompeu.
Ela respirou fundo.
— Eu nunca beijei ninguém. E não acho que estou preparada.
Ele suavizou o olhar.
— Você tem medo de mim?
— Não.
— Então me deixe te mostrar.
Ela hesitou.
— Eu sei que não sou a pessoa com quem você quer se casar. Mas sabe que esse casamento vai acontecer. E isso vai acontecer uma hora.
Silêncio.
— Tudo bem — ela murmurou.
Ele segurou o rosto dela com cuidado, acariciando seus cabelos. Primeiro, um selinho leve, apenas para sentir a maciez dos lábios.
Mas o beijo se aprofundou. Calmo. Intenso. Demorado.
Ele a beijava como se quisesse memorizar cada detalhe. Como se quisesse marcar aquele momento na pele.
Então parou. E desenhou o contorno dos seus lábios com o dedo
Precisava se controlar. Ela ainda era muito nova. E ele não cruzaria limites.
Beatrice ficou sem fôlego. Sem palavras durante o restante do caminho
Quando chegaram, ele deu outro selinho rápido, dentro do carro, ele queria leva-la dali direto para sua cabeça, dois anos seria uma tortura de espera para ele.
Ela saiu do carro sem conseguir encará-lo.
— Boa noite — disse Luca ao pai.
O homem assentiu.
— Na próxima semana temos o evento da cúpula. Quero levá-la como minha noiva.
— Eu vou levá-la como minha filha.
Luca sustentou o olhar.
— Eu vou levá-la. E não estou pedindo.
O pai sabia que medir forças com ele seria uma batalha sem ganhos.
Assentiu.
— Obrigado — disse Luca, num tom controlado.
Para não parecer que estava impondo.
Mas estava.