Quando Beatrice entrou no quarto, Siena já estava lá.
Sentada na cama. Esperando.
Com o olhar curioso demais para quem fingia não se importar.
— O que você está fazendo aqui?
— Te esperando. Como foi?
— O mesmo de sempre. Ele achando que manda.
— E?…
— Ele querendo me controlar.
— E?…
— E ele me deu um celular pra falar direto com ele.
Siena levantou imediatamente e pegou o aparelho da mão dela.
— Nossa… ele te deu isso? Papai vai ficar furioso!
O pai e a mãe nunca permitiram que elas tivessem qualquer tipo de tecnologia. Ainda eram novas. Não podiam correr o risco de falar demais sobre a máfia.
As aulas eram em casa.
As amizades, todas filhos e filhas de pessoas envolvidas.
Aquele era o mundo delas. Fechado. Controlado.
— Papai não vai ficar nada — respondeu Beatrice. — Porque você não vai contar. Além do mais, só tem o número dele. É pra falar apenas com ele.
Siena analisou o aparelho com atenção.
— Bea… eu preciso de um celular. Como vamos nos falar quando você casar?
— Ainda faltam dois anos.
— Dois anos passam rápido.
Beatrice suspirou.
— Siena, vai pro seu quarto. Quero dormir.
Disse tentando não demonstrar o quanto estava mexida com tudo o que tinha acontecido.
— Eu te conheço — Siena falou, já na porta. — Você está escondendo alguma coisa.
Beatrice ficou sozinha.
Mas não dormiu.
Passou horas acordada.
Pensando no beijo.
Levava os dedos aos próprios lábios, como se pudesse reviver a sensação.
Não imaginava que seria… bom.
Verdadeiramente bom.
Não estava apaixonada.
Não estava convencida a aceitar o casamento.
Mas aquele beijo…
Luca também não dormiu.
Ficou deitado, encarando o teto, pensando nela.
Em como suportaria dois anos mantendo distância.
Antes, ele só a observava de longe.
Via a filha do aliado. A peça estratégica.
Agora via Beatrice. E não era mais apenas estratégia.
Ela o fascinava. O Desafiava.
O provocava como ninguém jamais ousara.
Ele a queria.
Não pela cúpula.
Não pelo poder.
Mas porque ela fazia com que ele a desejasse mais do que qualquer cadeira naquela mesa. E ele sabia que precisava conquista-la.
A guerra entre eles estava longe de terminar.
Mas já não era apenas sobre imposição.
Era sobre quem cederia primeiro.
E nenhum dos dois estava disposto a se render.
⸻
Beatrice levantou cedo novamente. Ele tinha roubado seu sono de vez.
— Bom dia — disse para Santino.
— Levantou cedo de novo.
— Perdi o sono…
Ela saiu. Dessa vez, nenhum dos homens saiu dos carros para segui-la.
Ótimo.
Luca realmente tinha resolvido.
Deu dois passos além do portão.
Então ouviu a porta de um carro fechar.
— Bom dia.
Ela congelou. Luca estava encostado no próprio carro. Sem terno. Camisa escura, mangas levemente dobradas. Postura relaxada demais para alguém que dominava qualquer ambiente.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, sem esconder o incômodo.
— Substituindo meus homens.
Ela estreitou os olhos.
— Eu não pedi por você.
— Eu sei.
Ele começou a caminhar. Ao lado dela. Naturalmente.
Como se fosse óbvio.
Beatrice continuou andando, por orgulho, não por aceitação.
— Achei que tinha resolvido o problema da caminhada.
— Resolvi. Eles não vão mais te seguir.
— E você acha que isso é melhor?
— Muito.
Ela bufou.
— Você dormiu aqui? Não trabalha? Não tem nada mais importante pra fazer?
— Tenho. Mas isso também é importante.
— Me vigiar?
— Garantir que você esteja segura.
Ela parou.
— Luca, faltam dois anos pra esse casamento. Você não pode simplesmente decidir fazer parte da minha vida assim.
Ele parou também.
— Dois anos passam rápido. E eu posso, sim.
— Para você talvez. Para mim parece uma sentença.
Ele não respondeu. Não entendia por que ela o repudiava tanto, estava se esforçando. Nunca tinha sido tão sereno e paciente como estava sendo com ela. Mas era impossível. Não aceitava nada que vinha dele sem questionar.
O silêncio ficou pesado.
Ela mudou o foco.
— Que evento é esse que vamos?
Ele escolheu as palavras.
— Reunião formal da cúpula. Alguns membros. Aliados estratégicos. Nada além do necessário.
— E você quer me expor nesse ambiente?
— Preciso te apresentar.
— Como?
— Como minha noiva.
Ela parou.
— Você vai me colocar diante de todos aqueles homens?
— Sim.
— Pra quê?
Ele sustentou o olhar.
— Eu te disse que preciso de uma esposa. Não é apenas pessoal. É político. Para ser m****o oficial da cúpula.
Ela riu, sem humor.
— Você poderia ter casado com qualquer pessoa.
— Mas esse lugar é seu.
— Você fala como se eu fosse um troféu.
O olhar dele endureceu.
— Se fosse um troféu, eu não estaria aqui às seis da manhã.
Aquilo a silenciou.
— Eu não tenho nada pra usar num evento desses.
— Tem, sim.
— Não tenho vestidos para reuniões da cúpula. Meu pai nunca nos levou.
Ele quase sorriu.
— Vamos resolver isso.
— Eu não quero ir.
— Beatrice, você vai.
Ela o encarou.
— Você adora decidir por mim.
— Tomo decisões quando são necessárias.
— Não pra mim.
Ele ficou de frente para ela.
— Você vai estar naquele evento porque é importante. Para mim. Para o acordo. Para o futuro.
Ela cruzou os braços.
— Eu não tenho dinheiro pra comprar vestidos absurdamente caros.
— Isso não é um problema.
— Pra mim é.
Ele se aproximou.
— Vou providenciar um cartão pra você. Mas hoje te levo pra comprar esse.
Ela quase engasgou.
— Eu não vou usar o seu dinheiro.
— Vai.
— Não vou.
— Vai ter que se acostumar.
— Eu não sou sua esposa ainda.
— Não. Mas será.
Silêncio.
— O que é meu será seu também.
— Eu não quero depender de você.
— Não é dependência.
— É controle.
Ele inclinou a cabeça.
— Por que você é tão difícil, Beatrice? É só um vestido.
O vento moveu os cabelos dela. Ele se aproximou mais.
E, inesperadamente, deu um selinho.
O coração dela disparou.
Ela recuou.
— Você ficou louco? Estamos na rua!
— Você é minha noiva.
— Mesmo assim! Se meu pai ver, ele me mata.
— Ele não vai te m***r.
— Ele mataria você junto.
Ele sorriu de leve.
— Veremos.
Ela virou o rosto.
— Eu ainda não decidi se vou.
— Decidiu.
— Você é insuportável.
— E você continua caminhando ao meu lado.
Ela percebeu.
E odiou perceber.
Continuaram andando.
Em silêncio.
⸻
Ele a deixou em casa.
— Mais tarde volto para comprarmos seu vestido.
Antes que ela respondesse, o pai apareceu.
Chamou Luca para dentro com um aceno.
— Você disse um encontro por semana. Agora caminha com ela? Vai levá-la ao shopping? Não foi esse o acordo.
— Foi você quem propôs o acordo.
— Pra saber como é difícil lidar com ela.
— Ela é minha prometida. Não vou vê-la uma vez por semana como se fosse um negócio qualquer.
— Não funciona assim com minhas filhas — disse, exaltado.
Luca sustentou o olhar.
— Funciona assim comigo. Ela será apresentada na próxima reunião. Você sabia dos riscos, se não queria era só não ter feito esse acordo.
Silêncio.
Luca saiu sem esperar resposta.
E o pai de Beatrice sabia.
Não havia mais nada a fazer.
A filha estava prometida a um homem que todos temiam.
Inclusive ele.