Capítulo 6 — Sob o Mesmo Passo

1244 Words
Quando Beatrice entrou no quarto, Siena já estava lá. Sentada na cama. Esperando. Com o olhar curioso demais para quem fingia não se importar. — O que você está fazendo aqui? — Te esperando. Como foi? — O mesmo de sempre. Ele achando que manda. — E?… — Ele querendo me controlar. — E?… — E ele me deu um celular pra falar direto com ele. Siena levantou imediatamente e pegou o aparelho da mão dela. — Nossa… ele te deu isso? Papai vai ficar furioso! O pai e a mãe nunca permitiram que elas tivessem qualquer tipo de tecnologia. Ainda eram novas. Não podiam correr o risco de falar demais sobre a máfia. As aulas eram em casa. As amizades, todas filhos e filhas de pessoas envolvidas. Aquele era o mundo delas. Fechado. Controlado. — Papai não vai ficar nada — respondeu Beatrice. — Porque você não vai contar. Além do mais, só tem o número dele. É pra falar apenas com ele. Siena analisou o aparelho com atenção. — Bea… eu preciso de um celular. Como vamos nos falar quando você casar? — Ainda faltam dois anos. — Dois anos passam rápido. Beatrice suspirou. — Siena, vai pro seu quarto. Quero dormir. Disse tentando não demonstrar o quanto estava mexida com tudo o que tinha acontecido. — Eu te conheço — Siena falou, já na porta. — Você está escondendo alguma coisa. Beatrice ficou sozinha. Mas não dormiu. Passou horas acordada. Pensando no beijo. Levava os dedos aos próprios lábios, como se pudesse reviver a sensação. Não imaginava que seria… bom. Verdadeiramente bom. Não estava apaixonada. Não estava convencida a aceitar o casamento. Mas aquele beijo… Luca também não dormiu. Ficou deitado, encarando o teto, pensando nela. Em como suportaria dois anos mantendo distância. Antes, ele só a observava de longe. Via a filha do aliado. A peça estratégica. Agora via Beatrice. E não era mais apenas estratégia. Ela o fascinava. O Desafiava. O provocava como ninguém jamais ousara. Ele a queria. Não pela cúpula. Não pelo poder. Mas porque ela fazia com que ele a desejasse mais do que qualquer cadeira naquela mesa. E ele sabia que precisava conquista-la. A guerra entre eles estava longe de terminar. Mas já não era apenas sobre imposição. Era sobre quem cederia primeiro. E nenhum dos dois estava disposto a se render. ⸻ Beatrice levantou cedo novamente. Ele tinha roubado seu sono de vez. — Bom dia — disse para Santino. — Levantou cedo de novo. — Perdi o sono… Ela saiu. Dessa vez, nenhum dos homens saiu dos carros para segui-la. Ótimo. Luca realmente tinha resolvido. Deu dois passos além do portão. Então ouviu a porta de um carro fechar. — Bom dia. Ela congelou. Luca estava encostado no próprio carro. Sem terno. Camisa escura, mangas levemente dobradas. Postura relaxada demais para alguém que dominava qualquer ambiente. — O que você está fazendo aqui? — perguntou, sem esconder o incômodo. — Substituindo meus homens. Ela estreitou os olhos. — Eu não pedi por você. — Eu sei. Ele começou a caminhar. Ao lado dela. Naturalmente. Como se fosse óbvio. Beatrice continuou andando, por orgulho, não por aceitação. — Achei que tinha resolvido o problema da caminhada. — Resolvi. Eles não vão mais te seguir. — E você acha que isso é melhor? — Muito. Ela bufou. — Você dormiu aqui? Não trabalha? Não tem nada mais importante pra fazer? — Tenho. Mas isso também é importante. — Me vigiar? — Garantir que você esteja segura. Ela parou. — Luca, faltam dois anos pra esse casamento. Você não pode simplesmente decidir fazer parte da minha vida assim. Ele parou também. — Dois anos passam rápido. E eu posso, sim. — Para você talvez. Para mim parece uma sentença. Ele não respondeu. Não entendia por que ela o repudiava tanto, estava se esforçando. Nunca tinha sido tão sereno e paciente como estava sendo com ela. Mas era impossível. Não aceitava nada que vinha dele sem questionar. O silêncio ficou pesado. Ela mudou o foco. — Que evento é esse que vamos? Ele escolheu as palavras. — Reunião formal da cúpula. Alguns membros. Aliados estratégicos. Nada além do necessário. — E você quer me expor nesse ambiente? — Preciso te apresentar. — Como? — Como minha noiva. Ela parou. — Você vai me colocar diante de todos aqueles homens? — Sim. — Pra quê? Ele sustentou o olhar. — Eu te disse que preciso de uma esposa. Não é apenas pessoal. É político. Para ser m****o oficial da cúpula. Ela riu, sem humor. — Você poderia ter casado com qualquer pessoa. — Mas esse lugar é seu. — Você fala como se eu fosse um troféu. O olhar dele endureceu. — Se fosse um troféu, eu não estaria aqui às seis da manhã. Aquilo a silenciou. — Eu não tenho nada pra usar num evento desses. — Tem, sim. — Não tenho vestidos para reuniões da cúpula. Meu pai nunca nos levou. Ele quase sorriu. — Vamos resolver isso. — Eu não quero ir. — Beatrice, você vai. Ela o encarou. — Você adora decidir por mim. — Tomo decisões quando são necessárias. — Não pra mim. Ele ficou de frente para ela. — Você vai estar naquele evento porque é importante. Para mim. Para o acordo. Para o futuro. Ela cruzou os braços. — Eu não tenho dinheiro pra comprar vestidos absurdamente caros. — Isso não é um problema. — Pra mim é. Ele se aproximou. — Vou providenciar um cartão pra você. Mas hoje te levo pra comprar esse. Ela quase engasgou. — Eu não vou usar o seu dinheiro. — Vai. — Não vou. — Vai ter que se acostumar. — Eu não sou sua esposa ainda. — Não. Mas será. Silêncio. — O que é meu será seu também. — Eu não quero depender de você. — Não é dependência. — É controle. Ele inclinou a cabeça. — Por que você é tão difícil, Beatrice? É só um vestido. O vento moveu os cabelos dela. Ele se aproximou mais. E, inesperadamente, deu um selinho. O coração dela disparou. Ela recuou. — Você ficou louco? Estamos na rua! — Você é minha noiva. — Mesmo assim! Se meu pai ver, ele me mata. — Ele não vai te m***r. — Ele mataria você junto. Ele sorriu de leve. — Veremos. Ela virou o rosto. — Eu ainda não decidi se vou. — Decidiu. — Você é insuportável. — E você continua caminhando ao meu lado. Ela percebeu. E odiou perceber. Continuaram andando. Em silêncio. ⸻ Ele a deixou em casa. — Mais tarde volto para comprarmos seu vestido. Antes que ela respondesse, o pai apareceu. Chamou Luca para dentro com um aceno. — Você disse um encontro por semana. Agora caminha com ela? Vai levá-la ao shopping? Não foi esse o acordo. — Foi você quem propôs o acordo. — Pra saber como é difícil lidar com ela. — Ela é minha prometida. Não vou vê-la uma vez por semana como se fosse um negócio qualquer. — Não funciona assim com minhas filhas — disse, exaltado. Luca sustentou o olhar. — Funciona assim comigo. Ela será apresentada na próxima reunião. Você sabia dos riscos, se não queria era só não ter feito esse acordo. Silêncio. Luca saiu sem esperar resposta. E o pai de Beatrice sabia. Não havia mais nada a fazer. A filha estava prometida a um homem que todos temiam. Inclusive ele.
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