O acordo foi feito antes mesmo de ela saber o que significava a palavra “casamento”.
Antes de entender o que era amor.
Antes de entender o que era escolha.
Antes mesmo de saber que sua vida poderia, um dia, lhe pertencer.
Beatrice tinha apenas oito anos quando ouviu o próprio nome ser negociado como se fosse parte de um contrato empresarial.
Ainda usava laços grandes demais no cabelo, corria pelos corredores da casa com os joelhos ralados.
Ainda acreditava que o mundo era grande demais para caber dentro daqueles muros.
A porta do escritório estava entreaberta. A luz amarelada escapava pelo vão, formando uma linha no chão de mármore. Beatrice parou no meio do degrau, como sempre fazia quando queria ouvir o que não lhe era permitido.
— Luca é leal. Forte. Inteligente. — o pai dizia, a um dos homens que se encontravam na sala. — Um dia ele será meu braço direito.
— Luca, essa vai ser a melhor opção de chegar até a cúpula.
Ela estava escondida na escada.
Sempre escutava escondida.
Sempre aprendia antes que alguém resolvesse lhe ensinar.
— Beatrice, desce aqui! — gritou o pai.
Beatrice entrou no escritório sem encarar diretamente aqueles homens que estavam ali, sabia que não deveria ter escudado nada, o pai já havia pego outras vezes ela espiando, e quase sempre aquilo terminava em punição.
Pensou que apanharia novamente.
— Ela é muito nova — a voz grave de Luca soou firme.
Ele tinha dezoito anos.
Já carregava o peso de um homem.
Ele era o homem que os soldados respeitavam em silêncio. O que nunca elevava a voz. O que não sorria. O que parecia carregar um peso invisível nos ombros mesmo sendo tão jovem. Luca não entrou na mafia por opção, era isso ou estaria morando na rua, mas ali, demonstrou sua lealdade e ganhou seu espaço, todos queriam Luca ao seu lado. Apesar de jovem, já não tinha expressão de garoto.
— A idade certa virá — respondeu o pai dela com naturalidade c***l. — Aos dezoito ela casa.
Silêncio.
Beatrice prendeu a respiração.
— Eu não aceito isso agora — Luca respondeu. — Não vou me comprometer com uma criança.
Uma enxurrada de alívio passou por ela. Imaginou que um homem de verdade não seria capaz de querer uma criança.
— Saia. — ordenou o pai.
Ela prontamente obedeceu e ficou atrás da escada mais uma vez.
Oito anos não pareciam nada para os adultos.
Mas para uma criança, oito anos era uma vida inteira.
— Você sabe que precisará se casar para se sentar na mesa da cúpula.
— Eu sei. Mas é uma criança.
— Não será quando vocês se casarem.
Ele não parecia satisfeito.
Mas também não parecia indignado o suficiente para ir embora.
E isso foi o que ela nunca esqueceu.
Beatrice mesmo pequena sabia o que era A CÚPULA, e o que aquilo significava, poder, decisão. Homens que decidiam quem vivia e quem morria.
O pai estava formando alianças por todos os lados. Já era um homem respeitado, trabalhava havia muitos anos na máfia, mas sabia que não poderia se tornar líder com a idade avançando. O plano era casar as filhas, já que o filho mais velho se interessava pouco pelos negócios, estava sempre se metendo em encrencas, e colocá-lo na cúpula significaria colocar a família em risco.
Para Luca, aceitar era estratégico. Ele precisava de mais do que fidelidade para entrar na cúpula. Uma esposa era o primeiro requisito. Homens que não tinham compromisso não eram considerados confiáveis. Homens solitários não tinham nada a perder, e isso não era admirável na cúpula. Um homem sem laços poderia agir sem pensar nas consequências.
As esposas eram uma garantia.
Uma esposa era responsabilidade.
Uma esposa era fraqueza controlada.
Por isso Luca precisava de mais que lealdade.
Precisava de uma mulher.
E Beatrice se tornaria essa exigência.
Para entrar sem herdar o cargo, essa era a regra mais importante.
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Beatrice, que já era uma menina sem medo de arriscar, ficou ainda mais destemida. Desafiava o pai diariamente. Precisava fazê-lo desistir de casá-la com um estranho.
E transformou isso na sua meta de vida.
Afinal, só quem poderia desfazer aquele acordo eram os mesmos que o haviam firmado.
Os desafios ao pai tornaram-se cada vez mais frequentes.
Interrompia reuniões.
Respondia com ironia.
Mostrava desinteresse quando o assunto era casamento.
E as surras também se tornaram tão frequentes quanto os desafios. E a cada surra que recebia só alimentava a certeza:
Ela não seria dócil.
Ela não seria obediente.
Ela não seria fácil.
Se o acordo tinha sido feito por dois homens, apenas um deles poderia desfazê-lo.
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Anos depois, quando completou dezesseis anos, o assunto voltou à mesa.
E dessa vez não havia mais escadas para se esconder.
— Você vai se casar em alguns anos — o pai disse, seco.
— Eu não vou me casar com um estranho.
— Não está em debate. Já está decidido e você sabe disso. Só a chamei aqui porque ele deseja conhecê-la melhor agora que o casamento se aproxima. E eu autorizei.
O estômago dela virou.
Conhecer melhor.
Ela riu, amarga.
— Você vai me entregar antes mesmo de me casar?
O t**a no rosto veio forte.
O som ecoou na sala.
O gosto de ferro invadiu sua boca.
— Não me desrespeite assim nunca mais e não desonre sua família.
Beatrice não chorou.
Não implorou.
Ela riu.
— Se eu não conseguir fazer você parar com isso, eu vou fazer ele parar.
O pai se levantou.
A sombra dele cobriu o corpo dela.
— Saiba que, se ele desistir, você será uma mulher morta. Eu não vou perder um acordo importante porque você quer brincar de ser livre.
— Eu não sou moeda de troca.
— Você é minha filha. — Gritou com quem diz que já chega.
— E isso me torna propriedade?
— Beatrice vá se arrumar — ele ordenou. — Ou mando arrumarem você à força.
Beatrice ergueu o queixo.
— Não tenho medo de morrer.
E completou, com uma calma que assustava:
— E não pouparei esforços para fazer esse casamento não acontecer.