Luca chegou pontualmente.
Como sempre.
Beatrice já o esperava na sala. Calça jeans, regata branca simples, cabelo preso em um r**o de cavalo alto. Elegante. Contida. Fria.
Ele percebeu.
Ela ainda estava brava por ter sido acompanhada por ele naquela manhã.
— Vamos? — ele perguntou.
— Já que você decidiu por mim — respondeu, passando por ele.
Ainda assim, ela ficava intrigada com o fato de ele estar sempre por perto. Dentro do carro, tentou se segurar para não perguntar. Não queria dar a ele o direito de invadir sua vida. Mas era impossível ignorar.
— Você mora onde? Está sempre por perto.
— Estou em uma das nossas casas. Fica muito próxima da sua.
— "Nossas" — Disse, rindo
— Que conveniente ser perto. — Continuou.
— Comprei com essa intenção. Para te vigiar melhor — disse, com sarcasmo.
— Imaginei. Sua vida deve ser muito entediante para preferir me vigiar.
Ele riu. Um riso inesperado. Ele era sempre contido. Mas aquela “guerra” silenciosa entre os dois era a distração perfeita do mundo que carregava nas costas. Era o único momento em que podia ser apenas ele.
Assim que entraram no shopping, os olhares começaram. Alguns discretos. Outros nem tanto.
Beatrice estava ocupada demais olhando vitrines para perceber. Sua inocência era grande demais para identificar um olhar de desejo.
Mas Luca percebia. Ele percebia tudo ao redor.
Homens diminuíam o passo.
Vendedores endireitavam a postura.
Alguns arriscavam sorrisos.
Ele caminhava ao lado dela, a mão firme nas costas dela, marcando território sem dizer uma palavra. O ciúme contido — para não assustá-la.
Entraram em uma loja de renome.
Uma vendedora se aproximou rapidamente.
— Boa tarde, posso ajudar?
— Ela precisa de um vestido para um evento formal — Luca respondeu antes que Beatrice abrisse a boca.
Ela virou o rosto devagar.
— Eu sei falar.
A vendedora ficou constrangida.
Luca sustentou o olhar dela por um segundo.
— Então fale.
Beatrice respirou fundo.
— Quero algo elegante. Não exagerado.
A vendedora assentiu.
— Tenho ótimos vestidos que vão combinar com você. Na verdade, qualquer coisa combina. Você tem uma beleza rara.
— Obrigada — respondeu, um pouco sem graça.
Os vestidos começaram a chegar. Longos, tecidos nobres, cortes clássicos.
Beatrice dispensou qualquer modelo curto. Mesmo sem perceber o ciúme de Luca por completo, sabia que um vestido curto na cúpula seria uma afronta à masculinidade dele. E provocar deliberadamente poderia ter consequências grandes demais, era um setença de morta para toda sua família.
Ela experimentava um por um.
Luca esperava sentado, observando tudo e todos.
Até que ela saiu do provador com um vestido vermelho.
Longo. Corte reto. Marcava a cintura fina. Sofisticado. Impactante.
Não precisava de mais nada para ficar perfeita.
A loja pareceu silenciar por um segundo.
Ela era bonita demais. Mesmo tentando não parecer.
Sua delicadeza gritava. Sua presença prendia a atenção de qualquer um.
E o ciúme descontrolou Luca quando um homem demorou um segundo a mais olhando. Só um segundo.
Foi suficiente. Ele se levantou.
Os olhos estavam escuros. Irreconhecíveis.
Beatrice não entendeu a mudança repentina, nem tinha percebido o homem na loja.
Não houve aviso. Luca o atingiu com um soco. O homem caiu inconsciente.
— Luca! — gritou Beatrice. — O que você está fazendo?
— Mostrando o que acontece quando olham para você.
— Pelo amor de Deus! — ela se aproximou, tentando acalmá-lo. — Você não pode fazer isso!
— Posso quando querem o que é meu.
— Eu não sou um objeto. E você não é um bicho.
Os olhos dele ainda estavam tomados pela raiva, e pelo ciúme. Nem ele entendia como uma mulher tão pequena conseguia mexer tanto com ele em tão pouco tempo.
Ele olhou para o vestido.
— Esse não.
— Como assim?
— Não é apropriado.
— Não é apropriado ou você vai sair batendo em qualquer um durante a noite?
— Não é apropriado. E provavelmente o próximo não terá a mesma sorte.
Ela se aproximou.
— O que tem de errado com esse vestido?
— Você não precisa chamar atenção desse jeito.
A raiva também tomou conta dela.
— Todos saberão que eu sou sua noiva.
— É um evento da cúpula. Não um desfile. E você não entende como esse ambiente funciona.
— E você acha que eu sou o quê? Algo para ser escondido quando incomoda?
— Eu não disse isso.
— Disse, sim.
Eles estavam perto demais. Pareciam que iam se atacar como duas onças.
— Escolha outro.
— Não. Eu gostei desse.
— Eu não.
Ela ergueu o queixo.
— Sou eu que vou usar!
Ele deu um passo à frente.
— Beatrice.
— Você não pode querer me moldar ao seu gosto. Não sou uma peça do seu império.
Ele respirou fundo.
— Você será minha esposa. Precisa entender certas coisas. Há ordens que precisam ser obedecidas.
Ela riu, sarcástica.
— Eu não sou sua ainda. E quando for, não serei como seus soldados. Eu não obedeço ordens. Você já deveria ter percebido.
O clima pesou. Ele pagou o vestido. Sem discutir. Sabia que ou era aquele… ou ela não iria.
Ela saiu na frente.
Ele a seguiu, furioso.
No carro, silêncio absoluto.
Alguns minutos depois, ele falou:
— Eu não gosto que olhem para você.
Ela virou devagar.
— Esse é o seu grande problema?
— Sim.
— Então aprenda a lidar. Você não pode sair fazendo o que quer.
— Você não sabe como homens como aqueles pensam.
— E você sabe?
Silêncio.
— Eu não vou diminuir quem eu sou porque você não sabe controlar seu ciúme.
Aquilo o atingiu. Ele parou o carro em frente à casa dela.
— Saia.
Ela saiu sem olhar para ele.
Entrou. Sem despedida.
E o silêncio dela incomodou mais do que qualquer provocação.
Luca ficou ali alguns segundos.
Socou o volante.
Não era sobre o vestido.
Era sobre a ideia de outros homens olhando para ela.
E ele odiava sentir aquilo.
Foi direto para a casa de Vittorio.
Eles eram como irmãos. Conversas não eram necessárias. Descontavam a raiva em luta.
O primeiro soco veio de Vittorio.
— Vai me dizer que já se arrependeu do casamento?
Outro golpe.
— Aquele desgraçado estava olhando para ela — Luca respondeu, sentindo o gosto de ferro na boca.
— Não é pior do que saber que a sua noiva quer fugir de você.
Os socos pararam.
— E o que você vai fazer? — perguntou Luca.
— Vou deixar. Quero conhecê-la longe dos limites do pai. Ver como ela reage.
Terminaram a conversa com um copo de uísque.
À noite, Luca voltou. Dois carros os acompanhavam.
Terno preto. Rosto fechado.
Mas nas mãos, um buquê de rosas vermelhas.
Beatrice desceu as escadas.
E ele ficou sem palavras.
O vestido era perfeito.
Cabelo em coque alto com mechas soltas.
Maquiagem leve. Batom vermelho. Salto preto.
Ela estava deslumbrante.
Ele estendeu o buquê.
— Você está linda, pequena.
Ela piscou.
— Eu não gosto que olhem para você — ele disse mais baixo. — Não gosto da ideia de dividir o que é meu.
— Eu não sou sua.
Ele assentiu.
— Ainda não. Mas não sei ser diferente.
Ela o encarou por longos segundos.
Pegou as flores.
— Obrigada.
O sorriso que tentou esconder foi maior que ela.
⸻
A festa da cúpula era exatamente como ela imaginava. Homens sérios, de diferentes áreas e países. Olhares calculados. Conversas discretas.
O pai e a mãe observavam de longe. Não pertenciam à mesa principal. E sabiam disso.
Luca manteve a mão firme na cintura dela.
— Fique perto.
— Não me dê ordens.
Ele quase sorriu.
— É um pedido, então.
Eles se aproximaram de Vittorio.
— Esta é Beatrice. Minha noiva.
Vittório inclinou a cabeça como um cumprimento, não disse uma palavra; Conhecia Luca, e sabia que ele tão possesivo quanto ele, e não iria testa-lo.
Ela sentiu o peso da apresentação. Aquilo era real demais. A partir dali, não havia volta.
Durante a noite, ela foi apresentada a diversos membros. Sorriso impecável. Postura perfeita.
— Vejo que as aulas com Cristina foram bem-sucedidas — sussurrou Luca.
— Como você sabe?
— Eu sei tudo sobre você.
— Está começando a parecer que você tem tempo livre demais.
— Só quando se trata do que é meu.
Ela revirou os olhos.
— Beatrice, não revire os olhos para mim.
— Ou o quê?
— Você vai descobrir.
Ele revirou os olhos novamente. Sabia como aquilo o irritava, e ela adorava provoca-lo
A noite estava ótimo, mas precisava ficar alguma tempo com ela sozinho.
— Vamos? — perguntou Luca.
— Você, perguntando. — Beatrice não podia deixar de provocar.
Dentro carro, pediu para o motorista fazer o caminho mais longo.
— Quer descobrir o que acontece agora? — sussurrou.
Tocou o seu rosto e tentou beijá-la.
Ela desviou.
— Não agora.
Ele endureceu.
— Ainda está brava?
— Estou aprendendo a me portar como futura esposa, lembra?
A provocação foi sutil. Firme.
Ele sentiu. E ficou furioso. Não conseguia entender o porque ela o repudiava tanto. Sabia que não era delicado, mas estava sendo por ela, comprou um buquê, pediu desculpas. Coisa que nunca tinha feito antes.
Enquanto a conduzia para dentro de casa ele percebeu.
Conquistar a cúpula seria a parte fácil.
Conquistar Beatrice…
Seria a guerra mais difícil da sua vida.
Conquistar a cúpula seria fácil.
Conquistar Beatrice…
Seria a guerra mais difícil da vida dele.