O dia amanheceu antes mesmo de Beatrice conseguir realmente dormir.
Ainda estava escuro quando a porta do quarto se abriu sem cerimônia, e a voz animada da mãe invadiu o silêncio.
— Bom dia, querida!
Beatrice gemeu baixo, enterrando o rosto no travesseiro.
— Mãe… ainda são seis da manhã.
— Eu sei. Já estamos atrasadas.
A palavra atrasadas soou absurda. Como alguém podia estar atrasado para a própria sentença?
As empregadas entravam e saíam com caixas, araras, vestidos cuidadosamente embalados. As roupas precisavam ser enviadas para a nova residência ainda naquela manhã. Luca já havia autorizado a entrada de Santino para coordenar tudo. Não haveria falhas.
— As meninas vão cuidar das suas roupas. Você vem comigo — a mãe anunciou, vibrante demais para aquele horário.
— Mãe, me deixa dormir mais cinco minutos…
— Não. Levante.
Beatrice bufou e puxou o cobertor sobre o rosto. Nem havia se casado ainda, e já sentia que suas vontades não tinham mais espaço.
A mãe cantarolava enquanto organizava tudo. Era a primeira filha a se casar. Havia orgulho, havia emoção, e também uma confiança cega no marido, que assegurara que Luca era um homem de palavra. Talvez bruto. Talvez rígido. Mas seguro.
— Mãe… eu preciso pelo menos de um banho.
— Dez minutos. E nada de caminhadas hoje.
Nada de caminhadas.
O último pedaço de rotina que ainda era dela.
Beatrice se levantou devagar. O banho foi mais longo do que deveria, deixando a água quente cair sobre os ombros tensos. Respirou fundo várias vezes. Tentou imaginar que era apenas um dia comum.
Mas não era.
Quando desceu as escadas, a casa parecia um formigueiro em desespero organizado. Flores chegando. Louças sendo revisadas. Telefones tocando. Vozes apressadas.
— Bea! — Siena gritou do outro lado do salão.
— Que gente toda é essa? — Beatrice perguntou, atordoada.
— Não faço ideia. Mamãe disse que estamos atrasadas, mas o casamento é só à tarde!
— Não sei porque tantas coisas e pra que esse desespero.
A mãe surgiu entre dois fornecedores.
— Porque precisa estar tudo perfeito, Beatrice.
Ela tocou o rosto da filha com ternura, o olhar de amor.
— Você é minha primeira filha a se casar. Quero tudo perfeito para você.
Os olhos de Beatrice marejaram. Não pelo casamento. Mas pela despedida silenciosa que ninguém estava nomeando.
Ela abraçou a mãe com força.
Como iria viver longe dali? Longe das risadas no jantar. Das implicâncias de Siena. Do cheiro daquela casa.
— Agora comam rápido. Temos muitas coisas para arrumar ainda.
Engoliu o café quase sem sentir o gosto.
Era o último café da manhã ali como filha daquela casa.
—
Na casa de Luca, o silêncio reinava.
Ele não havia dormido.
Passara a noite olhando para o teto, imaginando Beatrice vestida de branco. Imaginando-a em sua casa. Em sua cama. Imaginando-a dizendo aceito sem saber se aquele aceito seria entrega ou resignação.
Nenhum funcionário ousou acordá-lo. Ele já estava pronto muito antes do necessário.
O casamento não representava apenas a união com ela. Representava sua entrada oficial na cúpula. Deixaria de ser apenas um soldado de confiança. Assumiria responsabilidades maiores. Territórios. Decisões.
Mas, não era aquilo o que ocupava sua mente.
Era ela.
E o medo crescente de que ela o odiasse mais do que ele era capaz de suportar.
—
Horas depois, Beatrice estava pronta.
O vestido caía como se tivesse sido desenhado em seu próprio corpo, estilo sereia. Leve, elegante, com pedrarias delicadas na cintura. O coque alto deixava o rosto mais delicado, com mechas soltas suavizando a rigidez da ocasião. A coroa discreta completava a imagem. Um véu sobre o rosto foi colocado para deixa-la ainda mais perfeita.
Ela parecia a realeza.
— Uau… — Siena murmurou. — Você está linda.
— Está sim — confirmou a mãe, emocionada.
As três se olharam. E choraram.
— Eu vou sentir falta de vocês todos os dias — Beatrice sussurrou.
— Eu também — Siena respondeu, já fungando.
— Parem! — a mãe tentou conter as lágrimas. — Vão borrar a maquiagem.
Mas abraçou a filha como se quisesse guardar aquele momento na pele.
— Você vai conseguir — sussurrou em seu ouvido.
Beatrice não sabia se aquilo era encorajamento… ou despedida.
—
Dentro do carro, estacionado em frente à igreja, o nervosismo finalmente a atingiu com força total.
Suas mãos tremiam.
Depois daquela porta, sua vida mudaria para sempre.
Por um segundo, apenas um segundo, pensou em fugir. Em pegar Siena e desaparecer. Mas a razão veio rápida, seriam encontradas. E as consequências seriam piores.
O pai bateu levemente no vidro.
— Está pronta?
— Não.
— Mas precisa estar.
Ela respirou fundo e saiu do carro.
As primeiras notas da marcha nupcial ecoaram.
O tremor aumentou.
— Eu sei que você está nervosa — o pai disse, em voz baixa. — Eu nunca fui perfeito. Mas não entregaria você a um homem em quem não confio.
Beatrice parou.
Ele nunca dizia coisas assim. Ele nunca tinha dito nada assim.
— Pai…
— Vamos.
Entraram.
Os olhares eram muitos. Rostos que ela não conhecia. Homens da cúpula. Aliados. Famílias poderosas.
Mas tudo se apagou quando viu Luca no altar.
Rígido. Impecável. Terno azul-escuro, muito escuro, o que realçava os olhos claros. Os cabelos alinhados Postura firme. Mandíbula travada.
Ele estava… lindo. Ela admitiu isso para si mesma, em seus pensamentos.
O pai colocou a mão dela na dele. Um aceno silencioso foi trocado entre os dois homens. Não era apenas uma cerimônia. Era transferência de responsabilidade. O pai estava entregando tudo o ela havia sido criada para ser a Luca, e a partir dali somente a morte poderia devolver ao pai os cuidados da filha
Luca segurou sua mão.
— Você está linda — sussurrou.
— Obrigada.
Beatrice olhou para o lado e encontrou conforto em ver sua mãe a irmã Siena, ao lado de Luca, Vittório estava lá, postura tão rígida e rosto tão fechado quanto de Luca, pareciam até que combinavam se serem assim. Pensou por um momento.
O padre falava. Palavras que ecoavam, mas não se fixavam.
Até que vieram os votos.
— Luca Bianchi, você aceita Beatrice Romano Bianchi como sua legítima esposa até que a morte os separe?
— Aceito.
Firme. Sem hesitação.
— Beatrice Romano Bianchi, você aceita Luca Bianchi como seu legítimo marido até que a morte os separe?
Ela mergulhou em pensamentos. Novo sobrenome. Nova casa. Nova vida. Noites desconhecidas. Um homem que às vezes era ternura. Às vezes tempestade.
— Beatrice — Luca murmurou.
Ela voltou a realidade.
— Aceito.
— Eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Luca percebeu que ela estava imersa em seus próprios pensamentos
Ele segurou sua nuca com delicadeza.
O beijo foi curto. Contido.
Respeitoso. Ele nunca tinha visto ela assim, talvez o repudiava mais do que conseguia imaginar.
—
Dentro do carro o silencio era uma tortura, agora mais para ele do que para ela, estava tão presa em seus pensamentos que não conseguia falar nada nada.
— Beatrice. — quebrou o silencio — Teremos o jantar de apresentação como minha esposa e depois vamos pra casa.
— Tudo bem.
— Você está bem? Não disse uma palavra.
— Estou, eu só... — completou por fim. — Estou.
Não queria dizer a ele que estava com medo da noite de núpcias e nem do que ele poderia fazer com ela nos dia a dia agora que era sua esposa.
Nos pensamento de Luca ele sabia, ela o repudiava, sabia que ele poderia faze-la dele a qualquer momento, mas não queria uma mulher que o repudiava em sua cama, não era assim que tinha imaginado os dias com ela...
No salão da cúpula, a atmosfera era diferente. Mais formal. Mais pesada.
A mesa central tinha três lugares vazios. O deles. E o que um dia seria de Siena, quando se casasse com Vittório.
Beatrice sentou-se ao lado de Luca. Postura perfeita. Silêncio absoluto, estava tentando usar tudo o que tinha aprendido com a Cris naquele momento. Todos os membros assenaram com a cabeça quando Luca apresentou como esposa, nenhum olhou demais, ou falou qualquer coisa.
— Você precisa comer — ele murmurou.
— Não estou com fome.
— Mesmo assim, você vai comer.
Ela obedeceu. Não discutiu. Não provocou. Nem mesmo olhou para ele. Apenas, sentiu e comeu.
E aquilo o inquietou mais do que qualquer briga.
Ele preferia a guerra.
Preferia o fogo.
Aquela quietude parecia distância real.
— Assim que terminar, vamos para casa — ele disse.
Ela apenas assentiu.
Sem reagir.
Luca percebeu então que havia algo ali que ele não sabia consertar.
Ele a queria.
Não apenas em sua casa.
Não apenas em sua cama.
Queria o olhar dela incendiado como antes.
E, pela primeira vez desde que decidira antecipar o casamento, uma dúvida o atravessou.
E se, ao apressar o destino, ele tivesse afastado exatamente aquilo que mais desejava conquistar?