Capítulo 14 — Até Que a Morte Nos Separe

1487 Words
O dia amanheceu antes mesmo de Beatrice conseguir realmente dormir. Ainda estava escuro quando a porta do quarto se abriu sem cerimônia, e a voz animada da mãe invadiu o silêncio. — Bom dia, querida! Beatrice gemeu baixo, enterrando o rosto no travesseiro. — Mãe… ainda são seis da manhã. — Eu sei. Já estamos atrasadas. A palavra atrasadas soou absurda. Como alguém podia estar atrasado para a própria sentença? As empregadas entravam e saíam com caixas, araras, vestidos cuidadosamente embalados. As roupas precisavam ser enviadas para a nova residência ainda naquela manhã. Luca já havia autorizado a entrada de Santino para coordenar tudo. Não haveria falhas. — As meninas vão cuidar das suas roupas. Você vem comigo — a mãe anunciou, vibrante demais para aquele horário. — Mãe, me deixa dormir mais cinco minutos… — Não. Levante. Beatrice bufou e puxou o cobertor sobre o rosto. Nem havia se casado ainda, e já sentia que suas vontades não tinham mais espaço. A mãe cantarolava enquanto organizava tudo. Era a primeira filha a se casar. Havia orgulho, havia emoção, e também uma confiança cega no marido, que assegurara que Luca era um homem de palavra. Talvez bruto. Talvez rígido. Mas seguro. — Mãe… eu preciso pelo menos de um banho. — Dez minutos. E nada de caminhadas hoje. Nada de caminhadas. O último pedaço de rotina que ainda era dela. Beatrice se levantou devagar. O banho foi mais longo do que deveria, deixando a água quente cair sobre os ombros tensos. Respirou fundo várias vezes. Tentou imaginar que era apenas um dia comum. Mas não era. Quando desceu as escadas, a casa parecia um formigueiro em desespero organizado. Flores chegando. Louças sendo revisadas. Telefones tocando. Vozes apressadas. — Bea! — Siena gritou do outro lado do salão. — Que gente toda é essa? — Beatrice perguntou, atordoada. — Não faço ideia. Mamãe disse que estamos atrasadas, mas o casamento é só à tarde! — Não sei porque tantas coisas e pra que esse desespero. A mãe surgiu entre dois fornecedores. — Porque precisa estar tudo perfeito, Beatrice. Ela tocou o rosto da filha com ternura, o olhar de amor. — Você é minha primeira filha a se casar. Quero tudo perfeito para você. Os olhos de Beatrice marejaram. Não pelo casamento. Mas pela despedida silenciosa que ninguém estava nomeando. Ela abraçou a mãe com força. Como iria viver longe dali? Longe das risadas no jantar. Das implicâncias de Siena. Do cheiro daquela casa. — Agora comam rápido. Temos muitas coisas para arrumar ainda. Engoliu o café quase sem sentir o gosto. Era o último café da manhã ali como filha daquela casa. — Na casa de Luca, o silêncio reinava. Ele não havia dormido. Passara a noite olhando para o teto, imaginando Beatrice vestida de branco. Imaginando-a em sua casa. Em sua cama. Imaginando-a dizendo aceito sem saber se aquele aceito seria entrega ou resignação. Nenhum funcionário ousou acordá-lo. Ele já estava pronto muito antes do necessário. O casamento não representava apenas a união com ela. Representava sua entrada oficial na cúpula. Deixaria de ser apenas um soldado de confiança. Assumiria responsabilidades maiores. Territórios. Decisões. Mas, não era aquilo o que ocupava sua mente. Era ela. E o medo crescente de que ela o odiasse mais do que ele era capaz de suportar. — Horas depois, Beatrice estava pronta. O vestido caía como se tivesse sido desenhado em seu próprio corpo, estilo sereia. Leve, elegante, com pedrarias delicadas na cintura. O coque alto deixava o rosto mais delicado, com mechas soltas suavizando a rigidez da ocasião. A coroa discreta completava a imagem. Um véu sobre o rosto foi colocado para deixa-la ainda mais perfeita. Ela parecia a realeza. — Uau… — Siena murmurou. — Você está linda. — Está sim — confirmou a mãe, emocionada. As três se olharam. E choraram. — Eu vou sentir falta de vocês todos os dias — Beatrice sussurrou. — Eu também — Siena respondeu, já fungando. — Parem! — a mãe tentou conter as lágrimas. — Vão borrar a maquiagem. Mas abraçou a filha como se quisesse guardar aquele momento na pele. — Você vai conseguir — sussurrou em seu ouvido. Beatrice não sabia se aquilo era encorajamento… ou despedida. — Dentro do carro, estacionado em frente à igreja, o nervosismo finalmente a atingiu com força total. Suas mãos tremiam. Depois daquela porta, sua vida mudaria para sempre. Por um segundo, apenas um segundo, pensou em fugir. Em pegar Siena e desaparecer. Mas a razão veio rápida, seriam encontradas. E as consequências seriam piores. O pai bateu levemente no vidro. — Está pronta? — Não. — Mas precisa estar. Ela respirou fundo e saiu do carro. As primeiras notas da marcha nupcial ecoaram. O tremor aumentou. — Eu sei que você está nervosa — o pai disse, em voz baixa. — Eu nunca fui perfeito. Mas não entregaria você a um homem em quem não confio. Beatrice parou. Ele nunca dizia coisas assim. Ele nunca tinha dito nada assim. — Pai… — Vamos. Entraram. Os olhares eram muitos. Rostos que ela não conhecia. Homens da cúpula. Aliados. Famílias poderosas. Mas tudo se apagou quando viu Luca no altar. Rígido. Impecável. Terno azul-escuro, muito escuro, o que realçava os olhos claros. Os cabelos alinhados Postura firme. Mandíbula travada. Ele estava… lindo. Ela admitiu isso para si mesma, em seus pensamentos. O pai colocou a mão dela na dele. Um aceno silencioso foi trocado entre os dois homens. Não era apenas uma cerimônia. Era transferência de responsabilidade. O pai estava entregando tudo o ela havia sido criada para ser a Luca, e a partir dali somente a morte poderia devolver ao pai os cuidados da filha Luca segurou sua mão. — Você está linda — sussurrou. — Obrigada. Beatrice olhou para o lado e encontrou conforto em ver sua mãe a irmã Siena, ao lado de Luca, Vittório estava lá, postura tão rígida e rosto tão fechado quanto de Luca, pareciam até que combinavam se serem assim. Pensou por um momento. O padre falava. Palavras que ecoavam, mas não se fixavam. Até que vieram os votos. — Luca Bianchi, você aceita Beatrice Romano Bianchi como sua legítima esposa até que a morte os separe? — Aceito. Firme. Sem hesitação. — Beatrice Romano Bianchi, você aceita Luca Bianchi como seu legítimo marido até que a morte os separe? Ela mergulhou em pensamentos. Novo sobrenome. Nova casa. Nova vida. Noites desconhecidas. Um homem que às vezes era ternura. Às vezes tempestade. — Beatrice — Luca murmurou. Ela voltou a realidade. — Aceito. — Eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva. Luca percebeu que ela estava imersa em seus próprios pensamentos Ele segurou sua nuca com delicadeza. O beijo foi curto. Contido. Respeitoso. Ele nunca tinha visto ela assim, talvez o repudiava mais do que conseguia imaginar. — Dentro do carro o silencio era uma tortura, agora mais para ele do que para ela, estava tão presa em seus pensamentos que não conseguia falar nada nada. — Beatrice. — quebrou o silencio — Teremos o jantar de apresentação como minha esposa e depois vamos pra casa. — Tudo bem. — Você está bem? Não disse uma palavra. — Estou, eu só... — completou por fim. — Estou. Não queria dizer a ele que estava com medo da noite de núpcias e nem do que ele poderia fazer com ela nos dia a dia agora que era sua esposa. Nos pensamento de Luca ele sabia, ela o repudiava, sabia que ele poderia faze-la dele a qualquer momento, mas não queria uma mulher que o repudiava em sua cama, não era assim que tinha imaginado os dias com ela... No salão da cúpula, a atmosfera era diferente. Mais formal. Mais pesada. A mesa central tinha três lugares vazios. O deles. E o que um dia seria de Siena, quando se casasse com Vittório. Beatrice sentou-se ao lado de Luca. Postura perfeita. Silêncio absoluto, estava tentando usar tudo o que tinha aprendido com a Cris naquele momento. Todos os membros assenaram com a cabeça quando Luca apresentou como esposa, nenhum olhou demais, ou falou qualquer coisa. — Você precisa comer — ele murmurou. — Não estou com fome. — Mesmo assim, você vai comer. Ela obedeceu. Não discutiu. Não provocou. Nem mesmo olhou para ele. Apenas, sentiu e comeu. E aquilo o inquietou mais do que qualquer briga. Ele preferia a guerra. Preferia o fogo. Aquela quietude parecia distância real. — Assim que terminar, vamos para casa — ele disse. Ela apenas assentiu. Sem reagir. Luca percebeu então que havia algo ali que ele não sabia consertar. Ele a queria. Não apenas em sua casa. Não apenas em sua cama. Queria o olhar dela incendiado como antes. E, pela primeira vez desde que decidira antecipar o casamento, uma dúvida o atravessou. E se, ao apressar o destino, ele tivesse afastado exatamente aquilo que mais desejava conquistar?
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