Capítulo 13 — A Noite Antes

1232 Words
Depois de horas tentando ignorar o próprio coração, Beatrice decidiu que precisava de um banho. Não um banho comum. Seria seu ultimo ritual de banho na casa dos seus pais. Acendeu a vela perfumada que Siena havia deixado sobre a bancada. Lavanda. Respirou fundo. Tirou as roupas devagar, como se estivesse se despindo também das cobranças, das expectativas, do peso do “amanhã”. A água quente escorreu pelos ombros tensos. Ela fechou os olhos e deixou que o vapor tomasse o ambiente. Tentava relaxar. Tentava convencer a si mesma de que estava pronta. Pronta para casar. Pronta para dividir a vida. Pronta para dividir o corpo. Mas o que mais a inquietava não era o casamento. Era ele. Luca tinha sumido por dias. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Nenhuma notícia além do silêncio protocolado dos soldados. Ela não queria admitir, mas sentiu medo. E isso a irritava. Quando saiu do banho, vestiu um pijama de cetim branco. Delicado. Leve. O tecido frio deslizando pela pele quente. Secou o cabelo apenas o suficiente e foi até a sacada. A noite estava silenciosa demais. Ela foi até a sacada para fechar a porta, o vento frio ainda tocava seu rosto, ela respirou aquele ar, como se quisesse guardar a lembrança daquele quarto na mente. Amanhã. A palavra ecoava como um presságio. Então ouviu. — Beatrice. Ela quase perdeu o ar. Olhou para baixo. Ele estava ali. Encostado no carro. Na sombra. Como se sempre tivesse pertencido àquela escuridão. O coração disparou antes que pudesse impedir. — Desce. Em silêncio. Não era uma ordem ríspida. Era quase… pedido. Ela hesitou apenas por um segundo. Depois entrou no quarto e desceu pelas escadas na ponta dos pés. O coração batia alto demais. Não era medo. Era outra coisa. Mas não sabia descrever... Quando abriu a porta da frente, viu com clareza. A sobrancelha dele estava cortada. Um r***o não muito fino. Recente. E manchas de sangue seca no rosto. Aquilo fez algo apertar dentro dela. — O que aconteceu? Ele ignorou a pergunta por um instante. — Subornei os homens do seu pai. Temos alguns minutos. Ela arregalou os olhos. — Você enlouqueceu? Se ele descobre — Ele não vai descobrir. A segurança na voz dele não era arrogante. Era perigosa. — Eu só preciso de um momento com você — ele completou, mais baixo. — Antes de amanhã. Ela engoliu seco. E assentiu. Subiram em silêncio. Cada degrau parecia mais alto do que o anterior. Quando entraram no quarto, ela fechou a porta devagar. Virou-se para ele. — Agora você pode me dizer o que aconteceu? Ele deu de ombros, como se não fosse nada. — Não é importante. — Não é importante? Você some por dias e aparece machucado! Sem esperar resposta, ela foi até o banheiro. Pegou uma pequena tigela, encheu com água quente. Abriu o armário e puxou um pano de rosto limpo. Luca observava cada movimento. Pensava, silenciosamente, como alguém tão pequena podia ser tão dominante. Como aquela mulher, que m*l alcançava seu peito, conseguia dobrar sua vontade apenas com um olhar. Ele só saiu dos próprios pensamentos quando ela parou diante dele. — Eu fiz uma pergunta — disse ela, firme. — O que aconteceu? — Você não precisa se preocupar. Ela estreitou os olhos. — Fica difícil não me preocupar quando você desaparece e volta assim. Molhou o pano na água quente, torceu levemente e levou até o corte. Ele reagiu no mesmo instante. — Tss… Ela segurou o riso. — Acho que esse corte doeu mais do que você quer admitir. Ele sorriu. De verdade. E aquele sorriso a desmontou um pouco. — Senta — ele disse, de repente. Antes que ela protestasse, ele a puxou com delicadeza e a acomodou em seu colo. O mundo ficou pequeno demais. Os olhos se encontraram. Sem guerra. Sem provocações. Sem armaduras. Apenas verdade. Ela limpava o ferimento com cuidado. O toque dela era suave. Atento. Ele a observava como se estivesse tentando memorizar cada traço. O quanto ele a queria não era apenas físico. Era algo mais perigoso. Mais profundo. Ela o dominava sem esforço. E isso o assustava. E ela.. Por mais que tentasse negar… também o queria. O silêncio entre eles era carregado de algo que nenhum dos dois tinha coragem de nomear. Foi ele quem quebrou a distância. O beijo veio sem aviso. Lento. Sem urgência. Ele não queria devorá-la. Não naquela noite. Queria sentir. Queria gravar. Queria lembrar. Os lábios dele eram firmes, quentes. Os dela responderam sem resistência. Havia saudade naquele beijo. Havia medo. Havia desejo. As mãos grandes deslizaram pelas costas dela, sentindo o tecido fino do cetim, sentindo a pele quente por baixo. Ela suspirou contra a boca dele. E naquele segundo, Beatrice quase disse. Quase admitiu que queria casar com ele. Que queria aquela vida. Que queria aquele homem. Mas não disse. Porque dizer seria se entregar. E ela ainda tinha medo. A mão dele subiu até a nuca dela. O beijo se aprofundou por um instante. O corpo dele reagia. O desejo estava ali, o seu m****o pulsando. A vontade de deitá-la na cama e fazê-la sua era quase insuportável. Mas ele parou. Contra a própria vontade Com esforço. Com honra. Encostou a testa na dela. Respirando pesado. — Você precisa descansar para amanhã. Ela piscou, ainda atordoada. — Sim… eu preciso. Ele a ajudou a se levantar. Desceram novamente em silêncio. No portão, ele segurou o queixo dela por um segundo. — Boa noite, pequena. Ela quase sorriu. — Boa noite, Luca. Ele entrou no carro e desapareceu na escuridão. Beatrice entrou e fechou a porta. Ficou parada por alguns segundos, as costas apoiadas na madeira. O coração ainda acelerado. Levou os dedos aos próprios lábios. Tentando guardar cada detalhe daquele beijo. Cada sensação. Cada fraqueza. — Hum hum. Siena apareceu no corredor, braços cruzados. — Já pensou se fosse o papai aqui? Beatrice revirou os olhos. — Ele te mataria... O Luca seria viúvo antes de mesmo de casar. — Mas não era. E você não vai contar. — Engraçado… para quem não queria casar, até encontros escondidos agora? — Ele estava machucado. — Machucado, né? Sei. — Siena! As duas riram. — Amanhã você casa — a irmã provocou. — Isso é passe livre agora? — É sim, sua pestinha. Vai dormir. — Você também. Mas vai dormir mesmo? Beatrice jogou uma almofada nela. Subiram juntas, ainda rindo. Mas quando ficou sozinha no quarto, o riso se foi. Ela deitou. E não conseguiu dormir. Repetia na mente o beijo. O toque. A forma como ele a olhou. Como se ela fosse tudo. Como ela resistiria a ele? Do outro lado do bairro, Luca também não dormia. Estava sentado na beirada da cama. A gravata solta. O corte na sobrancelha ardendo levemente. Mas nada ardia mais do que a lembrança dela em seu colo. Ele queria tê-la feito sua naquela noite. Queria tê-la em sua cama. Em sua casa. Em sua vida, sem barreiras. Nunca tinha sido dominado por ninguém. E agora estava ali. Domado por uma mulher pequena, teimosa e absurdamente forte. Passou a mão pelo rosto. Amanhã ela seria sua esposa. Mas ele não queria apenas o casamento. Queria que ela o escolhesse. E isso era muito mais difícil. A noite avançou. E nenhum dos dois conseguiu descansar. Porque o amanhã já estava batendo à porta.
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