Capítulo II - Entre teorias e olhares _ Parte 1

1134 Words
— Se ao menos o destino me fosse favorável, hoje me entregaria aos beijos com o Maya — disse Hanna, jovem eufórica que não se deixa limitar pelas leis da natureza. Para ela, tudo não passa de um jogo onde se desafia cada regra existente… E o jovem Teddy Maya é o príncipe que encanta todos naquele canto do outro mundo. — Recuso-me a dar ouvidos às tuas loucuras, Hanna — respondeu Samantha, jovem sensata que preza os seus princípios e zela pela integridade do seu carácter. — Não é loucura nenhuma! É apenas um desejo que rogo ao destino para que me conceda. — Devias antes temer a vergonha que isso te traria. Respeita-te a ti mesma; viemos aqui para nos tornarmos pessoas novas perante a sociedade. — Não n**o que desejo crescer e aprender, mas não quero viver sem provar o que de melhor existe por aqui. — Se agires assim, perderás tudo o que te faz uma mulher de valor. — Longe estou de me prender a esses falsos valores, Samantha. — Samara, peço-te: não te deixes levar pelo mesmo caminho — aconselhou Samantha, olhando para a terceira jovem —, sê digna, e não te entregues a quem apenas lança a isca para ver se mordes. Sobretudo ao Teddy… — Fica tranquila por mim. Guardar-me-ei — respondeu Samara. — Que assim seja, Samara. Hanna interrompeu de imediato: — A Samara é livre para sentir os seus desejos e decidir o que fazer com eles. — Hanna, sugiro que te cales — cortou Samantha — e tentemos ter uma conversa sensata. — Tudo se resolve. — Como? — retrucou Samantha. — Respeitando o caminho de cada uma, sem pressionar ninguém a seguir o nosso. — É típico de ti ver apenas o que te pode favorecer. — O que é bom, aproveita-se para as nossas conquistas, Samantha. — Faz o que entenderes, Hanna. Eu, por mim, afasto-me dessas aventuras sem rumo. — Está bem… — respondeu Hanna, com o tom de quem já se cansara da discussão e só ansiava por viver ao arrepio do que é certo ou natural. Samara manteve-se calada, preferindo não intervir naquele debate. Mas por dentro, os pensamentos agitavam-se: falavam de Maya, o Teddy que a Hanna tanto desejava… E agora, aquela conversa breve e inesperada que ela própria tivera com ele na biblioteca despertara nela um sentimento que ainda não sabia nomear. — E tu, Samara? O que pensas de tudo isto? — perguntou Samantha, notando o seu silêncio. — Não penso em nada de especial… Apenas estou tão cansada que me apetecia desaparecer de vez nesta cama. Samantha soltou uma risada: — Tens uma maneira tão engraçada de falar, pareces uma comediante. Se o preferires, acomoda-te e descansa conforme as tuas forças o permitirem. — Agradeço o cuidado, mas sinto-me ainda à margem de tudo isto. — Não tomes assim, falei apenas como resposta ao que acabaste de dizer. — Aceito, desde que isso me ajude a descansar com a consciência em paz. — Assim seja, Samara, como quiseres. Que tenhas um repouso bom, com esperança num novo amanhecer. — Muito obrigada. O mesmo desejo a todas vós. Já eram onze horas da noite, e Hanna deixara de intervir. Enrolada no cobertor, impaciente como era, adormeceu sem sequer se despedir, entregando-se ao sono e à espera do dia seguinte. Acomodadas nos beliches, num ambiente que parecia um internato acolhedor, as jovens entregavam-se ao repouso. As suas almas sossegavam, permitindo que aquele outro mundo se revelasse nas realidades que cresciam e se misturavam aos seus sonhos mais profundos. Apagaram-se as luzes, e um silêncio profundo tomou conta de tudo. O ruído que antes ecoava pelo corredor deu lugar ao nada — um vazio absoluto, envolto na escuridão. Quem estivesse ali, parado no pátio, sentiria calafrios: aquele conjunto vazio, deserto, parecia guardar um terror que só o silêncio conseguia plantar. Vidas repousam ali, mentes capazes de urdir planos que um dia poderiam ser a solução — ou o caos — para os dilemas que o futuro há de trazer. Porque dormir não é apenas entregar-se ao descanso que o tempo nos concede: é como experimentar uma pequena morte, ou viver uma outra vida, noutro planeta deste imenso universo. Gelados sem motivo aparente, aquecidos por razões que depois já não sabemos nomear… Do outro lado, estou eu, a desvendar a arte de manusear as alavancas que erguem as viaturas, para que o seu conserto se faça com precisão. Cada peça no seu lugar, cada ângulo no seu devido ponto — e daquilo que ainda me escapa ao entendimento, João e Kaleb se dispõem a ensinar-me. A oficina é o nosso templo de saberes; não se trata de física ou de ciências biológicas, mas de um saber prático, que exige e desperta ao mesmo tempo a força das mãos e o raciocínio. E quanto ao Senhor Fernão? Ele parece viver isento de qualquer ansiedade: a nossa presença ali é, para ele, sinal de confiança. — Kaleb, repara: ontem passámos o tempo em sonhos. O que me dizes dos teus? Puxei-lhe a conversa durante a hora de descanso, enquanto comíamos e aproveitávamos para falar à vontade. — Os sonhos, em certos casos, são apenas uma forma de nos afastarmos do que o destino nos reserva. — Que ideia estranha! Em que sentido dizes isso? — Não sei explicar com certeza, mas os sonhos nunca me pareceram algo que nos favoreça. — Mas os sonhos não são assim, Kaleb. — E porquê? — Pensa bem: os sonhos são como o motor de uma viatura — sem ele, o veículo não sai do lugar, e não cumpre a razão de existir. — E tu já te pões a filosofar como se fosses o próprio Platão na sua caverna, a tentar dar sentido aos teus pensamentos. — Não digas isso. É a filosofia que me faz acreditar, mesmo perante todas as confusões do mundo. — Que confusões? — As que nos fazem perder a fé no afeto. — O afeto não traz nenhuma confusão, meu amigo. — Traz, e muita. — Explica-me então, Christof. Disse-lhe isso porque, desde criança, conheci o que é não receber de volta o que se dá. Vi em tantas pessoas uma luta que as afastava das suas próprias crenças, lançando-as ao vazio, onde só restavam razões egoístas para com o próximo. Sorrisos que pareciam verdadeiros, mas que esmagavam cada esperança que eu depositava no carinho daqueles que um dia me acolheram. — É confuso amar e apaixonar-se. — Isso é algo pessoal: cada um responde pelas suas próprias escolhas amorosas. — Não me estás a entender, Kaleb. — Então explica-me. — Amar torna-se um emaranhado porque poucos sabem mostrar o que sentem de verdade. — E foi por isso que também tu te viste envolvido nessa confusão?
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