Labirinto do Sofrimento

1545 Words
A porta dupla de ouro de dez metros de altura e cinco de largura, que era guardada pela serpente gigantesca, se destrancou. A serpente incalculavelmente comprida se afastou e ouvi sua gargalha demoníaca ecoar como se estivesse se divertindo as minhas custas. Então, sem opções, fui em frente e adentrei a porta que se abriu. E quando entrei no labirinto onde havia apenas tochas apagadas, a porta se fechou atrás de mim com um som metálico que ecoou por todo o lugar me dando calafrios e me deixando no completo breu. Aqui estava eu, no covil de Serper, desarmada e atrás de um maldito espelho. E olha que eu não sou uma suicida, imagina se eu fosse. Talvez, eu esteja começando a tremer na base. Só um pouquinho. Eu começo a andar pela escuridão tentando tatear. Eu consigo enxergar que parecem plantas se fechando tão densamente uma na outra que formam paredes. Respiro fundo. O cheiro de terra molhada me invade. E então meus pés param quando contemplo o próprio Serper parado com as costas recostadas contra a parede de plantas do labirinto e com os braços cruzados. Sua altura intimidante. Eu vou até ele, como se ele fosse o maldito mestre dos magos. Eu sei que é só uma miragem do passado por alguma razão. O labirinto não consegue me fazer me ver ele como algo real por mais que eu saiba que seja essa a intenção. — Sarah. Eu apenas suspiro com meu nome ecoando como uma canção. O meu antigo nome, o nome da garotinha órfã criada por freiras que a faziam acreditar ser o próprio m*l encarnado e me faziam sentir que Cristo me odiava. Eu movo a cabeça num meneio afirmativo como se dissesse que aquele nome também era parte de mim. Ele toca o meu rosto com sua mão grande e me analisa como se eu fosse uma criança novamente. — Nossa ligação ainda é bem forte. Me trouxe de volta ao seu sofrimento. Lamenta ter me matado? — Há um resquício de provocação. Seus olhos rubros encontram os meus. — Se estou aqui como um rosto do passado, é porque me amava... — O mau dentro de mim nunca morre, assim o bem pode continuar a ser o bem e a linha tênue que equilibra as coisas continua mesmo que por um fio a existir. Sem o mau, as ações bondosas se perderiam num vácuo e assim também as ações asquerosas e não se poderia definir o que é bondoso e o que é m*****o. Essa é a contrariedade do ser humano. Seu revés. Então sim, eu te amo. — Eu me disse isso. Eu disse isso para Sarah, eu sei. —Olá, Serper. Tem apreciado sua morada infernal? Ele riu. Ecoaram como suaves sinos de vento. Muito sutis, finos, agradáveis e doces os sons de suas gargalhadas. Eram melódicos. — Ah, agora que a Fênix escolheu você está bem petulante e toda filosófica. — Ele falou com certa diversão que se evidenciava pelo curvar charmoso de seus lábios rubros. Tocou minha nuca então. E nossos olhos se encontraram. — Demetria... — Ele chamou, pensativo, e, tirou a mão de mim assim. Eu apenas fiz que sim com a cabeça dando um suspiro. Ele começou calmo: — O encargo de dois nomes te perseguem. Um que te aproxima de mim. Um que te afasta completamente. Qual delas você é agora? Qual seria para ser feliz? Sarah ou Demetria? — Demetria já viveu muito. E foi uma vida infeliz, mesmo que com um trono eu só podia ver o meu total desespero. Acho que agora, eu quero ser um pouco Sarah. E eu... espero que isso não me torne alguém r**m. — A maldade é um conceito humano. Limites criados com uma linha imaginária. O homem pode tudo, mas traça esses limites a si mesmo, algo que chamam de consciência que os impede de alcançarem as fronteiras do verdadeiro livre- arbítrio. O que sua consciência te diz agora? Deixou o trono com a cria do seu tio, basicamente se suicidou para vir ao Inferno e apenas por um desejo egoísta seu. Mas se sente m*l por isso? — Não. — O respondi honestamente. — Então já tem sua resposta. O labirinto vai te mostrar coisas, Sarah. Sombras sobre os que conheceu, pensamentos deles sobre você que podem ou não ser reais. Está preparada? — Não sei. — Admiti. — Mas sei que farei tudo o que estiver ao meu alcance para chegar ao espelho e para realizar meu desejo egoísta. Serper beijou minha testa. — Se chegar ao espelho, se conseguir sair daqui, eu tenho um presente para você. Considere uma nova chance se quiser. Repita sua infelicidade ou se agarre a essa nova oportunidade. Mas se sobreviver a esse labirinto e estiver sã, eu saberei que você me venceu e te darei seu prêmio, Sarah. Adeus, querida. E então a sombra do passado que ele era se desmaterializou e eu continuei em frente. Ouvi o choro de uma criança. Então vi um bebê com a garganta cortada. Lie. Meu instinto foi querer acolhê-la e niná-la. O sangue no branco imaculado de suas vestes. Sua forma diminuta e indefesa. A criança que eu tive que matar para sair da ilusão de Serper, minha filha e a de Kalahan, mas ela era só uma mentira. Eu ignorei o bebê e o seu choro com dor inominável no coração e continuei andando. A vontade de voltar e pegar a criança era tanta. Mas havia uma lenda. Uma que agora se fazia como um sussurro no meu ouvido. De que quando você come, bebe ou toca algo no inferno, você fica preso a ele para sempre. Não, caminhar sem olhar para trás. Sem contemplar meus erros ou meus acertos e sem me vincular ao passado. Ou como Hela, eu seria acorrentada. E então eu vi Kalahan. A cabeça sendo pisoteada por um cavalo enquanto o fantasma dele assistia. E então seus olhos homicidas se encontraram com os meus. “ Você, foi você que me matou. Eu te dei minha lealdade e em troca... e em troca, isso! É esse o tipo de rainha fraca que você é?” Eu não revidei. Eu tapei os ouvidos e continuei andando. Lágrimas escorreram por meus olhos, a mão invisível apertando meu coração, meu peito jorrando sangue, o choro da criança, os gritos indignados de Kalahan, não eram nos meus ouvidos, e ram na minha mente e não havia como sufoca-los, mas eu sabia que se olhasse para trás, se eu me rendesse, eu perderia como Orfeu. Eu continuei andando. Vi Gaia. E meu coração partiu-se impiedosamente. Gaia, a criança que foi sentenciada a morte pelo próprio pai, veio buscar refúgio em mim, e eu a prometi que iria protegê-la mas falhei. Eu ignorei seu pedido de ajuda. Odeio-me. Eu me odeio infinitamente. Eu sinto repulsa por mim mesma. Iker. Ele me fitava. “ Fique comigo. Você é aquela que eu amo. Eu não pude te dizer isso antes, mas agora... agora, eu quero que saiba que eu te amo”. Outra facada no meu coração. Mas continuei em frente. Ignorando agora o choro da minha bebê, a acusação de Kalahan, o pedido de ajuda de minha criança amada, a declaração de meu amado e continuei. E quando eu o vi, minhas pernas cessaram, minha respiração parou e eu quis abraçá-lo. As lágrimas no meu rosto não tinham mais intervalos. “ Minha rainha”. Kai. Kai. Kai. Minha mente gritou por ele. Ele era como a água e eu estava no Inferno, e eu queria beber. Eu queria tanto beber da água que ele era. Me deixar enganar pelo som da sua voz, pelo seu chamado, Meu coração era dele. De todos que gritavam em minha mente, de todos que me tentavam, era ele que mais doía ter que abandonar. “ Majestade”. Ele me estendia sua mão com um sorriso. E eu quase a peguei ansiando por seu toque gelado, seus olhos violetas que era minha calma e minha paz. Mas então, eu sabia que ele era só uma miragem e me afastei. Eu corri. Eu corri ignorando todos eles. E as tochas todas se acenderam quando cheguei a algum lugar, a algum rumo. E a serpente estava lá. O grandioso ser. — Sua bebê ainda chora, Kalahan ainda te acusa, Gaia ainda pede sua ajuda, Iker se declara e Kai te aguarda. — Mentira. — Rosnei. Eu rosnei ansiando que fosse verdade. A serpente riu. E me mirou e silvou com sua voz intimidante: — Sua mente é bem sádica e c***l, não é? Os tormentos são criados por você mesma. Eu imagino o quão doloroso tenha sido... Mas cá está você, sã e viva. A porta se abrirá agora. Então siga até o espelho. Então ele sumiu. Puff. Se desfez em fumaça como um truque. E a porta se abriu. E quando cheguei as ruínas, o espelho com bordas douradas feitas numa espiral mágica e dourada, me fez vê-los como ansiei, Iker, Kai, Kalahan, Fedrer e eles pareciam tão novos. E eu me aproximei e o toquei, senti o vidro na palma de minha mão. E quando o fiz o vidro se partiu. E depois disso, o espelho me sugou.
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