( Na realidade do espelho)
1O ANOS ANTES DA VOLTA DA ESCOLHIDA DA FÊNIX
FORTALEZA DAS SOMBRAS
Kai estava sentado em seu trono com o menino chamado Nicolas em seu colo enquanto bebia dele. A lua de sangue era um agouro que o deixava inquieto e aconteceu apenas no nascimento da princesa de Fenit. E agora estava acontecendo novamente dez anos depois. Será que a princesa amaldiçoada havia voltado? O que devia esperar? Essa era a lua de Serper. A lua sangrenta e corrompida. A lua que era um abraço dos condenados como ele. A lua que reivindicava os amaldiçoados como filhos da escuridão.
Kai, o rei da Fortaleza das Sombras afastou o garoto que drenava e encarou a lua com certa inquietação escutando o forte som da flauta de Serper ecoar pela floresta até chegar aos seus ouvidos com aquela bela melodia melancólica e traiçoeira.
O menino de quem bebia sangue, trôpego pela invasão a suas emoções e a drenagem, apenas repousou a cabeça no peito do deus da carnificina. E Kai o beijou no rosto carinhosamente apreciando a figura tenra do rapaz de olhos castanhos e ligeiramente puxados.
— Há algo errado meu rei? —O rapaz o questionou.
Kai deixou os olhos violetas pairarem no menino de cabelo escuro longo e pele ligeiramente bronzeada pelo trabalho na lavoura da aldeia humana. E novamente o beijou, agora nos lábios, negando com a cabeça e o respondendo assim. Assustar uma criança como aquela com os mitos do passado não era apropriado.
— Parece preocupado meu rei. — O menino observou sagaz.
Kai riu um pouco que aquele jovem o notasse tão nitidamente. E novamente, comovido, beijou-o, agora a testa dele.
— Como está Maybel, Nicolas? — Sondou-o e mexeu no cabelo do rapaz em seus braços o bagunçando.
— Parece cansada, meu rei. — Nicolas o respondeu sincero.
Kai soltou um suspiro e fez uma careta.
— A estima como me estima? — O rapaz perguntou ousadamente. — Ela também foi sua amante de sangue quando era mais jovem? — Exigiu Nicolas.
O gosto amargo do ciúme preencheu Kai e, o deus sangrento soube que aquele sentimento era de Nicolas.
— Uma exceção na minha vida, como a outra mulher traiçoeira em quem já confiei. — Murmurou Kai. — Mas sim, Maybel foi minha amante.
— A bruxa Magda é a razão pela qual odeia mulheres? — Nicolas perguntou sem se preocupar em estar passando ou não dos limites.
Kai suspirou.
— Sabe sobre ela? — Kai perguntou analisando o menino.
— Sei que vossa alteza amou Magda profundamente. E que a achava magnífica por conseguir controlar os quatro elementos e ser tão forte e poderosa. Que ela te encontrou bebê quando ainda era uma jovem magicista em Gardênia e cuidou de você mesmo não tendo idade para ser mãe. — Nicolas falou calmo. — E que você a seguiu assim que começou a andar, e então ela te traiu primeiro cedendo seu sangue ao rei que servia e então quando te cedeu a Serper... somente isso.
— Somente isso? — Kai disse enojado que o passado estivesse tão palpável para seus servos quando dava seu sangue a eles. Sentiu-se quase envergonhado. E essa sensação de humilhação o deixava na defensiva. — Como pode saber essas coisas? — Kai o indagou impactado.
— Seu sangue também me conta histórias, majestade. — O menino o disse cuidadoso e sondando ao seu rei. — Maybel também sabe disso como eu. Que você evita mulheres porque sente que elas são traiçoeiras e nunca as deixa se aproximar de você por mais que as deseje. Por isso, prefere se deitar com homens... Mesmo que mulheres também o atraiam da mesma forma.
— Maybel sabe? — Kai sussurrou para si e negou com a cabeça. — Sempre fingiu não saber de nada sobre mim e sempre se provou fiel a mim por essa razão. — Kai conversou consigo mesmo e tocou Nicolas no rosto e o fitou seriamente. — Você sabe sobre isso e não consegue guardar para si como ela. O que eu faço com você? É o meu preferido, mas ainda é descartável. Não fale mais sobre o passado se tem zelo por sua vida, Nicolas. Seja como Maybel e mantenha-se discreto ou eu não respondo por mim. Estamos entendidos?
— Me mataria? — O menino o perguntou com certa ingenuidade que alimentou a lascívia de Kai e o deus da carnificina sentiu vontade de drená-lo até a última gota. Lágrimas vieram aos olhos de Nicolas ao notar o desprezo de Kai.
— Sim. — Kai respondeu friamente. — Ainda mais se me irritar novamente falando de coisas que já passaram. —Ameaçou deixando as presas rasparem na curva do pescoço do outro. — E minha estima por Magda e o fato de também apreciar mulheres, deve permanecer entre nós.
— Sim, meu rei. — Nicolas concordou aterrorizado.
— Certo. Agora saia antes que eu o mate e chame Maybel para mim.
O menino saiu do colo de Kai, e sumiu pela festa, indo até a casa mais esquecida da aldeia enquanto Kai mantinha-se em seu trono horrendo feito de ossos e pele humana.
Quando Maybel apareceu com sua figura esguia, apesar de mais velha se curvou a ele, Kai apenas a chamou docemente e ela se aproximou do trono respeitosa. E ele a beijou no rosto, próximo dos lábios.
— Querida... — Chamou-a assim comovido que ela soubesse seu segredo e nunca tivesse comentado nada sobre.
— Meu rei, como posso servi-lo? — A mulher perguntou delicadamente deixando os olhos com alguns pés de galinha encontrarem-se com os dele. Kai não se importou com a idade no rosto dela ainda sentindo seu coração agitado que ela soubesse seu segredo por vinte anos e nunca tivesse comentado nada como Nicolas tão imprudentemente o fez.
— Um passeio comigo pela Floresta. Podemos? — Perguntou-a suavemente.
— O que vossa majestade desejar. — Ela disse respeitosa.
Kai apenas soltou um suspiro e selou os lábios nos dela sem resistir ao apelo do seu coração.
— Me dê seu sangue e te darei o meu. — Kai sugeriu. — Quero sentir você mais uma vez.
— Não sou mais tão jovem, meu rei. — A bela mulher murmurou e apesar de alguns fios brancos penderem junto aos escuros e das rugas suaves que tomavam sua face, a beleza dela ainda era jovem e enfatizada por seus olhos espertos de cor oliva.
— Os mais jovens podem ser imprudentes. — Kai falou impetuoso e ainda ressentido com Nicolas. — Eu quero você hoje. Me ceda seu sangue e eu te cederei o meu e seremos um só.
— Majestade. — Ela disse isso somente.
Kai se levantou sabendo que era um sim. Estendeu o braço para ela. E a guiou para a Floresta de forma cavalheiresca.
Quando chegaram a uma parte mais isolada onde nenhuma audição intrusa podia adentrar ou visões poderosas que penetravam as mais densas trevas assistirem-nos, Kai deixou que os lábios fossem aos dela, e a tocou no rosto vendo as lágrimas na face dela.
— Eu também te aprecio. — Ele falou a Maybel acalentador e como um segredo inadmissível. — Obrigado por guardar meus segredos só para você e nunca os pronunciar em voz alta. É uma serva fiel. E eu te amo tanto por isso e por me provar que eu estava errado. Nicolas me desapontou profundamente hoje. E pensar que eu achava que era só mulheres que não eram confiáveis. — Kai confessou sua raiva.
— Vai matá-lo, não vai? — Maybel o perguntou cuidadosa. — Posso ler sua expressão traída.
— Sim, o matarei. — Kai confessou. — O garoto não sabe se conter e tudo o que não preciso é que minhas fraquezas sejam expostas por uma criança que acha que porque o estimo está acima de todos os outros.
— Meu rei, o garoto apenas errou uma vez. Tenha piedade. — Maybel pediu.
— Não quero mais falar disso com você. — Kai sussurrou amoroso no ouvido dela e deixou o rosto repousar sobre o decote dela escutando o coração dela bater. Os trajes sem graça de camponesa não conseguiam apagar a beleza agora madura dela.
— Eu lembro de quando te vi pela primeira vez dançando na colheita para a lua abençoar sua tribo de nômades, era a sacerdotisa deles e a xamã. — Sussurrou Kai. — Era completamente diferente de todas as mulheres com quem já cruzei caminho. Seus pensamentos que gritavam coragem, força e liberdade. Eu te amei naquele instante em que não quis se render a mim. Sua força e sua coragem. — Ele apreciou. — Eu escolhi você como minha para que ninguém te forçasse a nada. E quando você cedeu seu sangue a mim por livre espontânea vontade, eu fiquei tão feliz... senti seu amor por mim.
— Quando eu finalmente entendi que você me escolheu para que nenhum outro dos desumanos deuses me tocasse, você conseguiu meu coração, majestade. — Ela confessou o que antes eram só pensamentos. Kai suspirou e beijou o meio dos s***s dela, comovido. Então ele mordeu o pulso e com o sangue jorrando o cedeu a ela confessando-a seus segredos mais profundos sabendo que ela os levaria para o túmulo, Maybel bebeu dele e, Kai a mordeu sentindo-se vinculado a ela mais uma vez.
Kai invadiu a mente dela.
“ Te amo, Maybel” Confessou-a.