DEMETRIA
Não sabia nunca se era dia ou noite. Nem quanto tempo se passou. Esse mundo era confuso. Parecia sempre o mesmo cenário uma noite durava além de uma noite comum e com o dia a mesma forma. Ela caminhou junto as outras servas no grande salão de jantar do castelo. Elas tinham as mesmas marcas que ela nos pulsos e pescoços e a odiavam. Usavam vestidos bonitos, mas numa cor cinza sem graça.
Sua preocupação estava em seu povo e seus amados. Enquanto servia a água dele, por um descuido deixou a jarra de cristal cair. Imaginou que sentiria um tapa na boca como antes, mas ele refez a jarra com um movimento da mão e cheia de água e a entregou a ela. Ele usava uma elegante vestimenta, um terno branco, ao redor dos ombros havia uma pomposa coisa branca felpuda que parecia macia. O cabelo azul solto ao redor dos ombros apesar de impecavelmente para trás das orelhas.
— Mais cuidado da próxima vez. — Ordenou intimidante com sua voz forte. — Tão desastrada. Os cristais dessa casa logo se tornarão lenda se continuar com seu manuseio terrível.
— Sim, senhor. Desculpe.
— Como se estivesse mesmo arrependida. Aposto que adoraria pegar um desses cacos e cortar minha garganta. Ossos do ofício. — Comentou inabalável.
Demetria olhou a mesa de madeira composta de pernil, batatas cozidas, ervilhas e várias outras coisas e lambeu os lábios ao lembrar do pão duro e dormido de mais cedo que a velha cozinheira serviu com ódio para ela. Ela fez um meneio de cabeça e se afastou. Demi suspirou aliviada longe dele enquanto ele iniciava o banquete sozinho. Na sala de jantar desolada com um lustre no teto, havia quatro retratos de Hela, uma na forma dela criança como uma menina, um na forma de Morte criança como um menino, um na forma dela mulher e outro na forma masculina da Morte. Na forma masculina, como Hel, usava uma máscara de chifres. Se pegou olhando fascinada como uma vez ficou por Hela.
— Se não há mais nada, vá para o seu aposento. — Ordenou Aldahain. Assentiu obediente. Seguiu seu caminho pelo piso de mármore preto e branco que se assemelhava a um tabuleiro de Xadrez, a grande escada era de madeira que ela mesma polia e formava um x, havia um caminho de cinco degraus pequeno que cessava num degrau maior, nesse degrau mais extenso poderia escolher-se o lado direito e o esquerdo. O lado esquerdo era proibido. Quanto tempo já havia se passado? Um, dois, três meses? Mantinha-se quieta. Tentava não pensar muito. O castelo dele parecia estar em outra dimensão mágica além de Tretagon, além de tudo de tangível e havia televisão e outras coisas da Terra, armaduras e coisas medievais. Funcionava a luz elétrica. Quando abriu a porta uma vez com o intuito de escapar não viu a praia conhecida do porto da Fênix. E foi queimada nos lugares onde as sombras das correntes estavam. Desmaiou e passou várias noites desacordada. Lamentou por Kai, lamentou por Cinder, por Iker e por Dera. Ele parou ao lado dela. Seus pés não tinham som. Apenas sentiu a respiração em seu pescoço.
— Por que está parada aí feito uma estátua? Se esqueceu de como se anda? — Raiou Aldahain. O odiava. O odiava tanto. Ele a arrancou de tudo que amava.
— Qual o seu propósito em me manter presa? Onde estamos? Quanto tempo faz que...
A expressão jovial dele se distorceu em raiva, como uma pintura bela que capta o rosto de um querubim que quando se joga querosene parece se derreter. Ela esperou um tapa. Sentiu a mão dele em seu cabelo e os olhos encontraram os rubros por alguns momentos, sentiu a carícia doce dos dedos frios e cheios do sangue de seu povo. Ela se afastou por impulso ao lembrar-se da chacina na praia, dando passos para trás e quase caiu da escada não fosse ele arrodear sua cintura com o braço e quando ela estava segura, ele também recuou como se não se compreendesse e analisou ela longamente com os olhos arregalados.
— Tome cuidado nessa escada, é traiçoeira. — Disse suave. A voz fria com tons aveludados. —Está na dimensão fantasma. — Sussurrou bem baixinho, cabisbaixo e com a mão atrás das costas mirando qualquer coisa que não fosse ela. — É aqui para onde minha alma fugia do meu corpo com o poder espiritual que adquiri ao longo de milênios preso e adormecido fisicamente. É aqui onde as coisas descartáveis e os fantasmas que não alcançam paz vagam antes do Inferno, chamam de Limbo. Esse mundo é o mundo dos fantasmas que vez ou outra conseguem fazer aparições ou possuir um corpo vivo em outros mundos. Antes eu vagava aqui como um deles, agora que não sou mais espírito e conquistei terreno com a luta com os outros senhores, eu sou o rei deles.
— Ah. — Foi só o que Demi disse. — Mas por que me manter aqui? — Ela o perguntou, confusa.
— Você está aqui porque é uma inimiga poderosa. Eu prendi sua alma a mim porque te temo. — Explicou. — Mais alguma coisa?
Ela negou.
— Eles virão por mim, sabe? Os meus amigos... — Ela tentou. — Eles virão por mim!
— Se convença do que quiser, escolhida da Fênix. — Falou bruscamente. Ele tomou a jarra de água das mãos dela e a jogou lá embaixo num ataque de fúria, vendo-a assustada, ele desviou os olhos dos dela. Os dois observaram os cacos. Demi recuou mais. Aldahain a sondou
— Informe a Malfada que ordenei que te escolha um vestido bonito, te dê um banho e escove seu cabelo e te faça parecer apresentável para o baile que você e eu iremos esta noite.
Demi se aterrorizou. Tudo que não precisava era de Circe, a bruxa, furiosa que não seria par dele.
—. Você mesmo tem que dizer, majestade. Ela achará que estou mentindo que me escolheu como sua companhia quando é Lady Circe quem o acompanha nessas ocasiões. — Demi se viu falando rápido mesmo sabendo que era uma boa chance de avaliar onde estava e entender como sair desse mundo e voltar para Tretagon e os seus amados.
Aldahain a fitou por longos minutos. Ele conjurou uma tesoura com sua magia, cortou uma mecha do seu cabelo azul, transmutou-a em um anel e entregou a Demetria colocando o anel de safira na palma da mão dela brilhando como o colar da Fênix brilhou. E então ela analisou o cabelo dele crescer novamente.
— Mostre isso e diga para que te leve ao aos aposentos de hospede e te prepare um magnífico vestido que combine com sua beleza pura. Foi uma rainha, foi uma princesa e tem sangue nobre. Agora estou te pedindo para agir como tal sob minhas ordens. Haja como a monarca que é e pare de se deixar ser tratada como serva. Mas lembre-se que se me desrespeitar, eu vou te punir impiedosamente.
Demi assentiu.
— Os mortos dão bailes? — Demi perguntou, confusa. Ele riu dela. Tocou o rosto dela. Demi se manteve quieta. Quando ela não recuou Aldahain apenas beijou a testa dela e suspirou a mirando como se ela fosse uma criança. Ela era baixa, dava um pouco perto de seu peito.
— Essa pequena rainha tem tanto o que aprender. — Murmurou ele. — Não os mortos. Os demônios não ficam o tempo inteiro em Relian, eles colocam carcaças mortais que escondem sua feiura e brincam de serem humanos em dimensões sem dono, o mundo dos espíritos. Ou possuem pessoas e quando há compatibilidade se torna uma integração. Para ir ao baile será preciso que tire o colar com o sangue da Fênix, coloque o que eu te der que terá meu símbolo. Cada demônio leva seu servo preferido como um cachorro. Tem sorte de não ser uma coleira que colocarei em você e sim uma gargantilha com meu símbolo. E você poderá comer o que te ofertarem. Está viva. Não é preciso que haja oferenda para você. Demi assentiu, curiosa e ao mesmo tempo furiosa consigo mesma.
— Por que vai me levar?
— Não é da sua maldita conta. Só faça o que eu disse. Se comporte e fique sempre ao meu lado. Demônios não respeitam servos, fazem deles o que quiserem, as festas são cheias de orgias, brigas espirituais, sangue e outras coisas. Mas respeitam pessoas com poderes maiores que os dele e eu sou aquele que eles temem. O trono de Serper está vazio e em Relian está havendo uma rebelião. Está na hora de Relian ter um novo rei. E eu vou tentar de um modo pacífico conseguir esse trono. Mas se não, haverá guerra.
— Por que está... está... — Demi hesitou.
— Pare agora. Vá fazer o que eu falei. — Ordenou se afastando dela.