O convite

3005 Words
Nas noites seguintes que emaranham-se a nossa eterna existência perdendo-se assim no tempo, Morgana sempre estava conosco no meu aposento ou nós estivemos em seu ateliê. Nicolas se cedia a nós dois começando a habituar-se mais a presença do que a ausência dela. E depois disso, de alimentar nossa fome c***l, ele pousava para as pinturas dela. O ego por ela pintá-lo o alimentava o suficiente para não exigir que eu fizesse amor com ele. Eu os assistia encantado e podia assim afastar Sarah da cabeça. Morgana pintando era lindo, na calma humana sem seus dons sobrenaturais, os pinceis, ela misturando as tintas, concentrada, pareciam elementos do próprio Criador. E ele pousando no sofá sem camisa era formidável. Eu me aproximei de Morgana, abracei sua cintura e espiei a tela, sentindo o odor de óleo e escutando o som macio do pincel roçando na tela com delicadeza e impressionante firmeza. Seus belos pulsos pálidos destacando-se na luz da lareira e do luar que invadia pela janela. Eu notei a dedicação e o amor daquela pintura cuja beleza de Nicolas resplandecia como a de um poderoso ser celestial. Ela capturou a inocência dos olhos castanhos, a insolência do porte jovem, o brilho do cabelos e eu selei os lábios nos dela, cativado, por seu senso estético. Morgana apenas selou demoradamente os lábios nos meus toda carinhosa, sorriu para mim agradecendo-me mentalmente, mas focou-se no seu modelo e em sua pintura novamente com concentração que fazia seu rosto uma perfeita estátua lisa ganhar algumas ruguinhas rápidas na testa. Eu fiquei com o queixo apoiado em seu ombro, vendo-a conceber Nicolas no seu particular e amado mundo de tinta que incrivelmente nada tinha de sombrio. Era sempre o sol. Era sempre vida. E nele era parecia ter encontrado ambos. Nicolas não distorceu o rosto quando a beijei, mesmo eu sentindo sua raiva, ele manteve-se quieto e focado em sua missão buscando agradá-la. Ele se manteve na posição exigida por ela e alvo dos olhos dóceis e melancólicos dela. Eu ainda o tinha, eu era sua paixão e seu mestre, mas ela era algo cativante demais para se ignorar. — Pronto, meu querido. Agradeço imensamente. — Ela foi amável. Nicolas veio até nós. Analisou o conteúdo com impetuosa curiosidade. Os olhos dele se encheram de lágrimas. Ele levou os dedos até perto da tela, mas não tocou porque a tinta ainda secava. Então ele analisou a ela e a mim. — É seu. Um presente Nicolas. — Ela disse intensa. Beijou o rosto dele carinhosamente como se ele fosse quebrar e essa era a maior demonstração de afeto já que Morgana era bem desastrada e não media sua força com o que não a importava. Servos eram tratados como objetos basicamente. Mas Morgana e eu tínhamos isso em comum, aqueles que escolhíamos tinham nossa dedicação por alimentarem o monstro dentro de nós. — É realmente lindo minha lady. Não acho que ... seus olhos são muito gentis para comigo. — Nicolas estava mesmo surpreso, sem palavras, sem ar. Ele não sabia de sua própria beleza? Ele não era humilde nunca ou modesto, mas agora parecia realmente impactado pelo ser no retrato. Ela sorriu. — Não seja modesto agora, querido. Pintei o que vi. Sei que nosso rei concorda comigo. Eu assenti sem demora. Nicolas sorriu para ela abertamente. Morgana abaixou a cabeça como uma menininha com seu primeiro amor, a odiei e a amei por isso. E então as batidas na porta. Morgana ergueu a cabeça de imediato. Os olhos dela ganharam maturidade e determinação que eram um contraste. — Entre. — A voz dela era imponente agora. Mel, a serva de Morgana entrou e a postura defensiva de Morgana que tinha com os outros de nossa raça se desfez para o mais puro amor. Mel era filha da antiga serva de Morgana que morreu ao dar à luz. Então Morgana cria Mel basicamente. E a morde apenas para que os outros de nós não façam de Mel serva deles. Sangue de criança é o mais doce e puro. A linda menina de cabelo louro correu até sua mestra com sua camisola rosa de renda e sua postura dócil. E Morgana a recebeu carinhosa como sempre era, pegou a menininha no colo e beijou a face branca da menina que corou violentamente. Nicolas apenas bufou. —Mamãe... Desculpe incomodá-la, mas há um mensageiro de Fenit lá embaixo para a senhora. Os outros estão o intimidando. Fiquei com pena dele. Faça algo ou vão machucar o pobre homem.— A menina parecia ter vindo correndo porque o tórax frágil por baixo da camisolinha de renda era como o de um beija flor que quase não se vê as asas de tão rápido que batem, subia e descia sem fôlego. — Não incomoda de modo algum, Mel. — Morgana falou acalentadora e maternal. Então Mel roçou o nariz no dela. Morgana sorriu e roçou os lábios nos rosados nos da menina. Mel ofertou seu pescoço infantil e suculento. — Há tempos não me tem, mamãe. Sinto falta do seu beijo. — O tom meigo de Mel era tristonho e de aquecer o coração. Morgana apenas deixou rapidamente as presas na pele alva do pescoço, num rápido beijo e tomando um mero gole mesmo eu conhecendo sua fome e sabendo que ela não bebeu o suficiente de Nicolas para não deixá-lo fraco e deixando que eu tivesse mais sangue do que ela. E então lambeu a ferida de Mel e tocou o rosto dela. — Pronto, minha querida criança adorada. Agora estamos unidas como sempre. Agora, meu bem, peça ao mensageiro para subir. — Pediu Morgana a Mel, comovida, e a colocou no chão. — Me dê seu sangue, mamãe. Quero senti-la também. — A menina pediu sedutoramente com os longos cílios de boneca. Mel tinha Morgana na palma de suas mãos. Morgana se ajoelhou, refém daquela criança, a beijou várias vezes na face rechonchuda e rosada e disse sem pensar e sendo levada pela emoção se esquecendo de nós: —Te amo, doce bebezinho. Morgana com a unha, fez um corte no próprio pescoço, levou a mão a nuca de cisne de Mel, a guiando até seu pescoço e deixou que ela bebesse um pouco como se a amamentasse. — Também te amo, minha Lady. — Mel sussurrou sua declaração a sua mãe sombria. Morgana chorou novamente, Mel enxugou as lágrimas de sangue e roçou o pequeno nariz no de Morgana. — Agora vá chamar o mensageiro, meu bebê. — Pediu Morgana acariciando os fios de Mel. Mel assentiu e correu porta à fora. Nicolas apenas as analisou sombriamente, o maxilar travado e eu senti o perigo. Ele não via como eu uma mãe com uma filha, ele via amante e amante. Sim, o sangue era traiçoeiro fazendo deles nossos filhos e nossos amantes ao mesmo tempo pela entrega total que o ato da mordida e de consumir o coração era. A mão dele se fechava em punho. A feição adorável por ela ter o pintado e elogiado na minha frente tornou-se uma máscara cheia de profundo escárnio e um sorriso amargo de lado se formou em seus tentadores lábios crispados. Eu senti o fogo do ciúme queimando por minhas veias e sabia que não era meu. Mas eu sabia que Morgana não fez de propósito ou para testar o afeto dele por ela, ela ainda considerava cedo para isso e queria ele aos poucos. Ela era pura e honesta demais para isso. Ela só era carinhosa com aqueles que a serviam. Nicolas não a entendia como eu. Toquei Nicolas no cabelo para ele se acalmar e ele me olhou como se me pedisse para intervir naquilo como uma criança cujo afeto de um dos pais lhe é tomado. Foi assim que eu me senti quando Morgana disse que o queria. Eu senti que ele a estava tomando de mim. — Não faça nada precipitado, Nicolas. — Eu sugeri mentalmente. — Morgana é bastante tolerante, mas não suporta que a façam se sentir presa ou destratem quem ela escolheu para servi-la. Cuidado. Nicolas me escutou em parte. Ele se afastou de mim, tocou Morgana no rosto e selou os lábios nos dela. Eu sentia que os beijos eram sem emoção apenas para reivindicá-la. —Pinte a mim quantas vezes quiser, minha lady. — Ele falou sedutor e adulador. Morgana tremeu. Ele deixou a boca encontrar a dela. — Me deixe beber de você também, minha Lady? — Pediu-a traiçoeiramente carinhoso. — O que quiser, meu querido Nicolas. — Ela disse dócil como sempre era com quem estimava e a cedia sangue. Mas antes de fazer qualquer algo, ela parou, me analisou e me pediu permissão. Tão educada mesmo ansiando por fazê-lo. Assenti com a cabeça. Ela sorriu cortês e grata. Eu não estava cedendo meu sangue a Nicolas de qualquer forma, ainda estava magoado com ele e sua incapacidade de manter-se de boca fechada. Ela fez um r***o no pescoço com a unha que era como uma faca afiada, Nicolas passou a língua na f***a. E Morgana tremeu o recebendo. Ele tocou o rosto dela e como fazia comigo a beijou nos lábios ensanguentados. Ele bebeu e bebeu. Morgana beijou o rosto dele o idolatrando. E Nicolas sorriu satisfeito. A pintura celestial que ela fez dele, nada combinava com o diabinho que ele era. Eu sabia bem o quanto ele era manipulador, sedutor e atraente e talvez por isso eu o amasse. Mas Morgana era muito ingênua. Ela o via como o retratou no seu quadro. Como uma das entidades celestiais. Nicolas então audaciosamente tirou a língua da f***a, o sangue dela escorreu até o colo. O decote do vestido preto descia num V. O sangue escorreu até os vales alvos e leitosos expostos pelo decote dela. Nicolas passou a língua. Morgana gemeu agarrando-se a ele e olhando para mim. Nicolas a beijou então a puxando pelo cabelo e eu ouvi mais dos gemidos sublimes dela. E quando Mel entrou novamente acompanhada do mensageiro, Nicolas encarou a garota com desdém e um sorriso de triunfo. Ele limpou a boca ensanguentada na frente de Mel. Mas Mel como Morgana apenas sorriu dócil para ele: — Se bebeu o sangue da mamãe, então é meu irmão. —Mel sussurrou. Mel foi até ele e o beijou no rosto. Nicolas apenas analisou a menina ingênua e loira com confusão. Ele estava acostumado a competir e lutar por afeto. Eu soltei um suspiro e quis rir por algum motivo da cara de i****a dele. O mensageiro tremia. Ele nos entregou o envelope com o selo da Fênix. Morgana que recebeu, ignorando as mãos trêmulas do mensageiro e, rompeu o selo, tirando o convite de papel reforçado e, viu a caligrafia formidável feita em tinta vermelha: ( Estão convidados para o baile real de Fenit daqui dois dias para saudar a princesa da pátria, Sarah Fenit. Assinado, sua majestade real, Rei Alexander.) — Um convite para um baile. — Ela murmurou num sopro. Morgana me mirou. — Devemos ir? — Questionou-me. Ela me entregou a carta. — Quem em sã consciência nos convidaria? — Ela me questionou, o rosto de estátua ganhando linhas que evidenciavam suas emoções confusas e surpresas. — Sei bem quem pode ter sido. — Eu comentei. Ri me lembrando de Sarah. Mas que meio mais esperto de dizer que me quer perto sem usar suas próprias palavras, garotinha. Essa maldita petulante. — Nós vamos, meu rei? — Morgana questionou formal por estarmos na frente de um mensageiro. Eu olhei para o homem. E apenas disse. — Vá, parta daqui. Nenhum m*l será feito a você. Confirme nossa presença ao seu rei. — Eu falei e o homem assentiu freneticamente. Fui até Morgana. Mel estendeu os braços para mim, eu a peguei no colo e beijei seu rosto. — Tire a poeira dos seus vestidos de baile e do seus sapatos, querida Morgana. — Pedi a ela. — Nós vamos a esse maldito baile saudar a princesa regida pela Fênix. ... Na noite seguinte, quando levantei e fui ao ateliê de Morgana que todos os outros deuses evitavam porque sabiam que atrapalhá-la era pedir para morrer, eu vi Nicolas brincando com Mel, ainda era o começo da noite. Ele a fez um boneca de madeira. Era esculpida na faca. Realmente me deixava impressionado que ele soubesse como fazer tantos detalhes. Mel parecia cativada pelo simplório objeto mesmo que tivesse várias bonecas de porcelana caríssimas que Morgana importava com um mestre de brinquedos de Fenit. E Morgana os analisava apaixonadamente. Eu me aproximei dela, tomando a poltrona ao seu lado. Toquei o rosto dela. Seus olhos se voltaram para mim. “Eles me lembram nós.” Ela disse calma. “ Quando você me salvou da morte. Te amo, meu rei.” Me estudou depois da declaração, essa era diferente das outras. Assenti. Então senti os lábios dela nos meus e antes que percebesse o que fazia, eu deixei minhas mãos descerem para sua cintura e a puxei para o meu colo. Morgana apenas ofegou. Os sentimentos antigos por mim renascendo, mas ela não ousou. Ela me bloqueou. “ Não se envergonhe de ter me desejado” Acalentei tocando seu macio cabelo. Nicolas voltou-se para nós. Ele pegou Mel no colo e a trouxe para nós. Eu gostaria de dizer a Morgana que foi recíproco, que não foi platônico. Que eu a amei no instante que a vi mesmo envolta de sua fragilidade como eu devo ter amado Demetria naquela outra versão minha. Morgana se retirou sutilmente do meu colo indo para seu lugar lendo a expressão sombria de Nicolas, mas tocando meu rosto. Eu suspirei e beijei a palma da mão dela, Nicolas apenas tomou o lugar dela no meu colo ainda com Mel brincando em seus braços. Eu a cedi Nicolas, o meu amado, porque não pude ceder a mim mesmo para aplacar a solidão desnorteante dela. Ela nunca tinha me dito antes em voz alta ou exigido nada de mim. Era sempre calada, soturna e sempre que sentia minha invasão mental me bloqueava para não me deixar ouvir seus lamentos, mas agora me deixava saber o quão grata estava por ele. — Venha cá, querida. — Morgana solicitou, ia pegar Mel e se retirar para deixar a mim e Nicolas a sós. Nicolas se manteve quieto a analisando como se tentasse entendê-la, como se quisesse compreender essa proximidade dela comigo. Havia ciúme dele por mim e havia ciúme dele por ela estar próxima a mim. Em outro momento eu me irritaria pela petulância dele em querer nós dois. Mas não havia entre mim e Nicolas a i********e de antes e isso foi antes dela, foi quando ele disse em voz alta o meu segredo sobre Magda e quebrou minha confiança. Ele tocou numa ferida muito funda e quando à trouxe ao mundo real por suas palavras, eu o odiei. Mas Mel agarrou-se a Nicolas abraçando o pescoço dele não querendo ir com sua sombria mãe e agarrando a boneca simples dele com força. E Nicolas sorriu discretamente que tivesse conquistado mãe e filha. Morgana apenas tocou Nicolas no cabelo numa carícia que o fez mirá-la por minutos e eu escutei ele ofegando. E ela o beijou na maça do rosto. Então ignorando a recusa de Mel, Pegou Mel do colo dele ignorando os protestos da menina que erguia insistentemente os bracinhos roliços para Nicolas. — Meu bebê tem que dormir. — Ela explicou a nós e a própria Mel, acalentando-a em seu colo como uma mãe humana. — Mamãe vai te pôr para dormir. Você tem que crescer bem. — Nico...Nico. Nico. — Mel pediu por ele. Como se separar dele que era quente e diferente de nós fosse assustador demais. Nicolas apenas levantou-se do meu colo. Beijou Mel nas bochechas rechonchudas e depois beijou Morgana nos lábios. Ele tocou o longo cabelo n***o e macio dela hesitante, mas vendo-a entregue ao gesto dele e com a criança no colo, ganhou confiança de estar perto dela e conversar com ela como fazia só comigo. — Volte depois que ela dormir, querida lady. — Ele pediu a Morgana no ouvido dela. — Quero me ceder a você também. — Murmurou bem baixo para Mel não ouvir. — Hoje não, querido. — Ela dispensou-o. — Eu tenho que arrumar minhas coisas e as de Mel para visitarmos a corte de Fenit. Aproveite seu momento com seu mestre. Sei que quer ele só para você um pouco. Desculpe ter os atrapalhado esses dias... — Não se desculpe. — Nicolas disse. — Sua companhia faz bem a mim e ao mestre. Mel apenas depositou o rosto no ombro de Morgana, sonolenta. Morgana assentiu. Beijou os lábios dele. E de sua forma humana se retirou da sala. Nicolas veio para mim então. Ele tirou sua camisa e os indícios da paixão já estavam nele pela respiração ofegante. Eu o mordi, cravando-me em sua pele e tendo seu sangue. E ele gemeu. De novo, ansioso por mim. Ele puxou meu cabelo enquanto eu o mordia. Senti sua mão dentro da minha calça e os olhos dele queimavam por mim. — Me tome hoje. — Nicolas pediu. — Me deixe ficar por baixo? Toquei o rosto dele com as duas mãos. Eu vi lágrimas nos seus olhos. Essa entrega “ submissa” o que ele queria dizer assim ao abrir mão de seu orgulho tão cultivado? Eu entendia que ele pedir para eu ficar por cima era um baque para seu ego. Apesar da posição para mim não ser nada demais. — Sim, querido. O que quiser. Ele sentia tanta culpa. Culpa por desejar Morgana. Não sabia que esse era meu plano. Que eu basicamente o empurrei para ela. Me senti m*l por sua culpa. Mas feliz porque ele percebeu o quão maravilhosa Morgana é. E apesar de amá-lo, se fosse escolha dele estar com minha Morgana, eu sabia que ele estaria em boas mãos. E desde que vi Sarah, eu sabia que algo dentro de mim havia mudado.
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