POV KAI
A Floresta das Sombras se encontra agitada assim como minha mente depois de vê-la, a criança escolhida por Serper e escolhida pela Fênix. O sussurro das árvores com as folhas movendo-se numa estranha dança seguindo os ventos frívolos e uivantes que já não mais me causavam qualquer desconforto ao tocarem minha face imutável a passagem dos anos.
A lua penetrando com sua luz sanguinolenta as frestas das árvores é bem pouco reconfortante. Sentei num pedregulho e analisei tudo o que aquela garota me mostrou e passei a mão por meu cabelo. Curioso, devo admitir. Há algo de tão difuso na minha servidão a ela. Demetria era fraca quando me encontrou e eu tive que protegê-la. Eu odeio mulheres, inclusive as fracas como ela e só as fortes são suportáveis. O que por Relian me fez ajudá-la naquela guerra de Fenit contra Dragomir? Me conhecendo como eu me conheç, eu só sei que não a ajudei porquê acreditava que ela podia derrotar Serper. O que não estou captando aqui? O que fez eu sair de dia e me arriscar por ela?
Vendo eu mesmo através olhos dela, em seu ponto de vista ingênuo, eu vejo que me pintou com uma benevolência irritante que não é realmente como eu penso. O que eu estou perdendo aqui? O que...
Ela era fraca e inútil. Pode estar mais forte agora, mas naquela época era só intolerável para mim. O que no inferno eu pensava naquele instante quando enfrentei Alexander e a levei para a Fortaleza das Sombras e transformei seu amado príncipe i****a em um de nós? O que eu via lá que eu não vejo agora? Será que era a abstinência de sangue humano me deixando louco o suficiente para não me importar com minha alma se desintegrando? Serper me deixaria em paz se eu o deixasse em paz pelo nosso pacto.
Logo naquela versão minha eu já sabia que ia morrer se a servisse e mesmo assim fui seu fiel cão de guarda. Serper tinha lá e tem aqui minha alma em mãos. Era inevitável. Eu seria sacrificado. O que eu acreditava o suficiente para me fazer querer morrer por ela?
Argh! Vou ficar louco se pensar tanto. Eu não sou aquele i****a suicida que ela conheceu melodramático e cheio de porquês nauseantes para questões existencialistas da vida. Eu amo o meu trono, amo sangue, amo a imortalidade e o poder que eu tenho. Mesmo sendo dragão, se eu fosse apenas um humano comum, já que não tinha e não tenho poder espiritual para me transformar, eu já teria morrido. E minha alma estar nas mãos de Serper tanto faz para mim, eu tenho o que sempre quis... poderes ilimitados. Não sou mais um patético dragão preso em sua forma humana por ser fraco. Agora sou como Magda e se duvidar tão poderoso quanto aquela maldita!
E o sol é só uma coisa quente e sem graça e realmente não quero vê-lo ou me importo em estar condenado a escravidão da lua. Não pude dizer isso aquela garotinha porém, que eu não sou o herói aqui e que ela estava equivocada sobre mim, era só c***l a um extremo que eu não pude tirar suas tolas esperanças e sua traiçoeira felicidade em rever. Eu não quero ser um herói aqui tanto quanto ela quer ser. Heróis morrem ou perdem tudo o que amam. E eu gosto da minha vida. E ao que parece ela sabe bem do que estou falando.
Não a culpo por abdicar de ser Demetria depois de ter vivido toda uma vida infeliz. Só que temo o retorno de Serper e como a história toda mudou agora, pode ser que ela o escolha e se torne sua rainha. Se o maldito voltar tudo será dele e ele vai reformular tudo. O que fazer? Devo usar a garota e a fazer escolher aceitar o seu destino para que eu não me prejudique com o fim de tudo? Ela vai ser útil? O rubi com o sangue da Fênix é a chave e ela também. Mas ela não quer aceitar o destino dela dessa vez. Que dor de cabeça infernal. Massageio as têmporas e respiro, mesmo sendo inútil. É só um hábito que tinha quando ainda era humano e eu sei disso, mas ainda teimo com essa porcaria.
Devo fingir ser amigo dela? Seria c***l usá-la apenas para ela destruir Serper e eu ficar livre do maldito ou seria matar dois coelhos com uma cajadada só? Afinal eu a ajudaria e me ajudaria. Talvez seja isso o que eu antigo eu pensou, que valia à pena morrer para que Serper fosse derrotado. Sim. Foi isso. E aquela versão minha era um suicida nato. Mas dessa vez, eu preciso pensar num modo de ajudá-la sem ser morto de preferência e recuperar minha alma e ao mesmo tempo manter meus poderes. Não voltarei nunca mais a ser aquele dragão fraco novamente. Nunca mais.
Havia algo de comovente nela quando me reviu. E me amaldiçoa que a felicidade dela em me ver fosse tão genuína . As lágrimas que derramou por mim me eram tão desconcertantes que eu não soube o que fazer além de abraçá-la e acalentá-la. Os pensamentos dela são uma capa de culpa tão descomunal e gigantesca, que quando ela me viu, ela só repetia e repetia um pedido de desculpas comovente.
Minha testa martela. E eu solto um suspiro. O que devo fazer? Como devo agir? Certo. Uma parte da história já mudou, ela vai se casar com Iker como a princesa Sarah e assim impedir que o reino dele pereça e Kalahan morra. Kalahan vivo é uma nova variável, além dela ter voltado antes do previsto. Salvar Kalahan do seu destino c***l pelo que captei é o plano dela por agora. Ela vai levá-lo para Dragomir com a desculpa de querer alguém que lhe seja fiel. Alexander acreditou na história dela ser bastarda dele e esse truque foi bem útil e inteligente.
Ela não é mais a garotinha ingênua de antes e sua mente sagaz agora trabalha para se proteger e proteger os que ama. Só que não há nada além disso. Nenhuma estratégia contra Serper e há apenas futilidades como se tornar esposa do príncipe draconiano novamente. Ah, pela Fênix. Mulheres!
POV DEMETRIA
Era uma tarde esplendorosa. Alexander queria que ficássemos em Fenit até minha oficialização e coroação como princesa. Eu já estava morrendo de saudade de minha doce Cinder, mas não achei má ideia ficar mais em minha pátria, voltar para Dragomir me faria ter que ver Cecily como uma rival e não como uma amiga.
Foi divertido tirar esse tempo para pensar e não ser eu a cuidar dos assuntos do reino era um alívio tão grande. Só quem carrega uma cruz por muito tempo sabe que o alívio quando ela é tirada de si e eu podia chamar ser rainha disso. Nada glamoroso como fazem parecer usar uma maldita coroa que pesa em sua cabeça e só te traz dor de cabeça figurativa e literalmente.
Se eu fizer tudo certo o único inimigo para me preocupar e só bem futuramente é Serper. Mas sabia que Iker sentia falta de Fedrer que ficou em Dragomir considerando-se o fato de queríamos conversar com Alexander e não ameaçá-lo. Era tão estranho não olhar para as feições humanas de Fedrer, ele pareceu tão desumano quando o reencontrei que eu o temi e quase fiz xixi nas calças. Mas sei lá. Não podia dar o braço a torcer, porque se não Iker não me respeitaria. Tive que peitar essa feição selvagem do Fedrer e tive sorte dele não me queimar e devorar. Uma coisa que aprendi é que dragões gostam de assar suas vítimas primeiros e só depois consumi-las. Ah, que coisa mais formidável.
Agora reencontrar Kai me fez incerta sobre tudo o que eu estava fazendo, não que eu precisasse da permissão dele para fazer algo era só que ele já havia vivido bem mais do que eu e sempre foi estrategista. Eu queria vê-lo de novo para que ele me aconselhasse se o meu plano estava certo. Soltei um suspiro sobre o cavalo. E perdi a velocidade de cavalgar e competir nessa brincadeira i****a enquanto Iker continuava a corrida junto a Vince. Idiotas despreocupados, esses dois. Não podia me dar esse luxo. Eu tinha que pensar em como sobreviver e em como eles sobreviveriam.
Kalahan vinha caminhando logo atrás de nós pelos extensos campos que estavam em descanso para o plantio. Estendi a mão para ele, para ele subir comigo no cavalo, não sei por qual razão ele não pegou um cavalo só para ele com esse maldito sol. Mas Kalahan negou com a cabeça. A expressão dele era aterrorizada. Será que tem medo de cavalos?
— Não me diga que meu futuro cavaleiro tem medo de cavalos. — Caçoei dele sem resistir a essa hipótese formidável.
As bochechas dele ganharam violenta cor e ele me fitou furioso. Que estranho, Kalahan me olhar com raiva e real ofensa. Ele cuspiria em mim se pudesse, eu sinto essa sua inimizade já que eu sou uma ameaça a tudo o que ele acredita. Acho que nunca esperei isso dele. Mas eu entendo como ele se sente... Eu apenas dou um suspiro.
— Desculpe. Não foi minha intenção ofendê-lo. É perfeitamente normal ter medo de cavalos. — Comentei com ele. — Eu também tinha, mas precisei aprender por necessidade. Homens não levam a sério alguém que se esconde atrás do próprio exército.
Por que no inferno eu falei isso? Eu gelei. Que? Que merda foi que eu disse? Droga. Porcaria. Eu tive a atenção dele e incredulidade de seus olhos verdes. Kalahan é tão jovem e tão franzino. Nada com a versão do Thor que eu conheci quando ele foi me buscar no meu mundo. E aqui ele não confiava em mim, eu era só a bastarda de Alexander que tomou o lugar da rainha filha de Luther e Kiera. Aqui eu não sou a criança que ele foi buscar em outro mundo ou sua idolatrada rainha. Esse i****a. Ele me serviu tão cegamente e sem dar valor a própria vida. Revirei os olhos.
— Quer saber, se não quer minha ajuda para sobreviver, que se dane. — Eu falei m*l-humorada. — Mas o caminho de volta é bem longo. E se você chegar todo ardido pelo sol a culpa não será minha.
Ele realmente olhou para trás analisando se podia andar todo o caminho que já tinha feito a pé. E nem sombra do castelo por longos hectares de terra. Ele me estendeu a mão. O ajudei o puxando com uma força que eu não reconhecia, mas era minha, ele sentou atrás de mim porque se sentasse na minha frente por ser muito mais alto do que eu compremeteria minha visão. Kalahan ainda é um garoto. A força que tenho é ocasionada porque como a protetora de meu reino, eu tive que aprender a ser uma rainha guerreira para lutar contra Ratifar e algumas vezes os deuses da carnificina que me odiavam pela morte de Kai e porque não dei meu sangue a eles. Tudo o que eu não precisava eram de vampiros caminhando a luz do sol. Nem pensar.
Comecei a cavalgar conduzindo Kalahan na minha garupa. E alcancei os rapazes. Iker me fitou com estranhamento ao ver Kalahan segurando minha cintura e eu o conduzindo de volta para casa. Me mantive inalterável. Kalahan nunca foi rival de Iker, então ele não tem que fitá-lo como se fosse matá-lo. Porque em Kalahan sempre senti que por trás de sua rudeza havia uma delicadeza marcante. E essa delicadeza me dizia muita coisa sobre ele. Algo que eu nunca me permiti pensar antes, mas vendo sua versão jovem fazia total sentido.
Kalahan, como Kai, gostava de homens. Isso era só tão óbvio. Na verdade, pelo jeito que ele olhava para Iker e pelo tempo que passou junto a Iker, eu era a intrusa da história. Ah merda. Eu tenho realmente que começar ver os meus aliados com outros olhos e de uma maneira que eu nunca pensei deles antes. Claro. Eu não estava tão ligada a eles e estava no meu drama i****a ou não de aceitar meu maldito destino que mais me ferrou do que me fez feliz.
Eu comecei a sorrir por alguma razão.
Iker me confrontou:
— O que há de tão engraçado? — Ele me confrontou profundamente irritado e com sua petulância habitual de que ninguém podia achar graça se ele não soubesse do quê. Eu apenas comecei a rir mais e neguei com a cabeça.
Claro. Esses dois gostavam um do outro quando eu cheguei, Kalahan e Iker tinham uma relação não carnal, mas de respeito mútuo. Kalahan era o cavaleiro de Iker e conhecendo Iker como eu conheço, eu só sei que ele era quem protegia Kalahan porque Kalahan nunca foi muito bom com a espada. E Iker era bem conhecido na corte de Dragomir por dormir tanto com homens quanto mulheres. Ah, doce merda.
Eu começo a rir mais sem me controlar.
— Alteza, você bebeu? — Eu escutei Vince me perguntar.
— Não, sir. Eu acho que eu nunca estive tão sóbria em toda a minha vida sendo honesta. — Respondi ao belo moreno. — Vamos voltar para o palácio? Logo vai anoitecer. — Solicitei e os dois assentiram com a cabeça. Dei de ombros. E fiz o cavalo correr com Kalahan se agarrando a mim assustado.
Ah, essa sensação de liberdade ao cavalgar sem ter que avaliar nada ou me preocupar se os plebeus estão ou não passando fome. Sem ter que me desdobrar raciocinando em com racionalizar a comida no inverno ou com possíveis guerras. Com os sacríficos aos deuses da carnificina que se tornaram cada vez mais sanguinários depois do fim de Kai e só me ater a me divertir e deixar tudo nas mãos de outra pessoa. As pessoas faziam o poder parecer bom, mas quando você estava no topo, muita gente dependia de você e decisões sombrias tinham que ser tomadas para que nada ruísse.