POV KAI
O ato mais egoísta que eu poderia ter cometido foi o de beber dela contra sua vontade. Foi além do sacrilégio. Mas não me arrependo, não agora apreciando o sol sem me tornar cinzas. Foi impulsivo, admito. É que só queria tê-la de alguma forma depois que ouvi sobre o noivado. Minha raiva suprimiu meu bom senso. Acontecia em alguns momentos. Eu podia ser brincalhão e amoroso, todavia, o demônio em mim era mais forte. Eu me desesperei. Queria possuí-la pelo menos no sangue. Contudo, eu a tive além.
E tê-la em meus braços foi a consumação o mais puro ato de amor. Sarah, minha princesa. Demetria, a minha rainha. Ela era tão macia. Tão macia. Tão pequena. Seu rosto pálido ganhando cor comigo. Sua pele marcada pelas minhas bruscas investidas. E até certo ponto eu estava marcado por suas chupadas e demoníacas mordidas me reivindicando. Sarah e eu finalmente nos encontramos nessa vida como amantes e sem o protetor e protegida.
Eu assistia uma serva estendendo os lençóis alvos com cheiro de sabão de coco. O cheiro da água dos lençóis molhados caindo na terra e sendo vaporizada invadia minhas narinas assim como o som das gotas que chegavam ao som com pancadas inaudíveis aos humanos.
O pulsar dos corações. As veias convidativas nos esqueletos com carne que se moviam a minha frente repletos do fluido que me impedia de morrer. O tilintar de espadas vinda do pátio de treinamento.
Ouvia o canto dos pássaros de uma distância absurda. Ouvia os sons diurnos de orações a Fênix dos sacerdotes do dia, dos fornos abrindo e não só ouvia como sentia o cheiro e o que não via podia imaginar com uma riqueza de detalhes. Ouvia o som estrondoso que era uma formiga numa folha. O som da água encontrando o aguadeiro dos chafarizes.
Sarah não mentiu sobre o sangue dela me deixar ver o sol e toda a paisagem humana e cotidiana deste a qual me lembrava só como uma história longínqua.
O sol, eu o encarava da sacada dos aposentos designados aos convidados na ala leste do castelo. Meu sentidos amplificados por ter me alimentado, como sempre ficavam. Só que meu domínio espiritual a um alcance medonho.
O sono da morte parecia longe de mim agora. Parecia que eu estava vivo e era tão bom sentir o calor da vida e não o frio da morte durante o dia.
Eu estava muito sonolento, como um humano que acorda sem ter tido uma boa noite de sono, mas desperto como quando um mortal toma algum chá preto estimulante para não dormir.
Estava no dia. Sem precisar das nuvens agourentas, sem a dor que sair durante o dia provocava aos meus ossos e sem o sono da morte me reivindicando cruelmente me fazendo querer fechar os olhos e me entregar ao vazio a todo instante em que teimava contra ele. O sono que me lembrava que eu era tudo menos uma criatura viva, mas algo que oscilava entre morte e vida e, para piorar o parasita de outros.
O sol, eu o contemplei saudoso como se ele fosse a própria divindade, que com seu calor dizia que agora eu fazia parte da luz. Admirei, de novo, e o olhei novamente até meus olhos arderem e se tornar insuportável a luz.
Então contemplei seus raios fugazes penetrando entre as folhas das árvores destacando com sua luz a cor verde e o orvalho da manhã de uma noite de sereno, observei flores desabrocharem. Estudei admito que fascinado o brilho que dava a água dos chafarizes que pareciam cintilar como diamante líquido. O contemplei invadindo as janelas de vitral com imagens da Fênix trazendo luz em diferentes cores de azul, vermelho, amarelo e branco.
Morgana partiu noite passada junto a Nicolas e Mel. E ela estava preocupada comigo mesmo sendo como sempre respeitosa.
Uma coisa sobre nossa espécie é que podemos passar horas parados estudando o nada e isso faz com que pareçamos estátuas. Um homem parou me olhando lá embaixo e me movi fazendo uma aceno com a mão só para ele saber que eu não era uma estátua. Não sei o que o causou mais medo eu me movendo ou o fato de a estátua que sou se mover. Dei um suspiro. Não importa. Ele correu derrubando um balde cheio de leite. Creio que foi buscar outro.
Eu desacreditei de Sarah. Eu pensei que era contos místicos como o da Fénix era para alguns, não para mim que vi, da grande serpente que rege nossa ilha que se a ponta encontrar a calda o mundo será distribuído em água como uma vez foi , De Geena a gigante que chorou tanto pelos dois filhos perdidos que formou o mar, o dos grandes dragão de fogo, de água, de ar e de luz que eram ajudantes do todo poderoso e formaram Tretagon depois da adaga do firmamento dividir dia e noite, dos gigantescos tigres de além do mar conhecido, os gigantes cavalos brancos com asas e o de Aldahain, o demônio que não foi criado pelo criador e que existe pelos sentimentos humanos nocivos e se este último existisse mesmo nem Serper podia lutar contra ele.
No entanto quando senti que o primeiro raio de sol me tocou, chorei. Esse raio que eu sempre posso contemplar como um gosto traiçoeiro do que eu nunca mais podia ser não fez minha pele arder. E senti o sono m*****o me chamando para o caixão para algo que não era dormir, e sim repousar com os mortos, mas por não haver palavra melhor é dormir. E notei cheio de medo que esse sono da morte que não me tomou pela primeira vez inteiramente e de forma dolorosa quase dominante acordando-me só quando a lua estava no céu e a minha fome descomunal me dava toda noite força o suficiente para me erguer do caixão.
A esfera luminosa não me queimou, eu senti a esperança renascer depois de um mar sombrio onde onda após onda noturna fui sendo tragado para ser acorrentado a lua e a um caixão por incontáveis séculos.
Eu só agora percebi, que a fala de Sarah sobre si mesma não era mero ego para me enfatizar de sua importância ou me fazer não matá-la. Ela era humilde a um extremo irritante para isso. Se subestimava muito sem crer no próprio potencial. Essa fala estava concretizada estava agora consumada no sangue, nas nossas alma que vinculados pela troca de sangue. Estranho falar em alma. Eu sinto que minha alma não está mais presa a nada. E a melodia de Serper que me assombrava a todo instante morto ou morto-vivo quando eu levantava do caixão pela fome descomunal não existe mais. Que sangue é esse?
Eu bebi dela e pude contemplar o calor, a luz e a esfera brilhante. Eu realmente necessitava dela agora. Antes eu a vergonhosamente queria somente para meus caprichos carnais, seu corpo pequeno sempre me deixava pensativo sobre certas maneiras de prazer. Agora há a sua alma linda. Nada mais importava. A minha cortesia para com o príncipe draconiano seria só avisá-lo que Sarah teria um novo pretendente e eu seria seu rival.
O que está acontecendo afinal entre mim e ela? O que é esse amor todo que sentimos um pelo outro? E por que antes quando ela era Demetria nos recusamos a ver o que era tão gritante?
Ela pode ter quem estimar ao seu lado. Ela pode fazer o que desejar. Falei sobre terminar o noivado com Iker para saber até onde ela estava disposta a ir pelo que sente por mim. E ela estava disposta a tudo. E eu a amo.