Matheus
—O que houve?— dei um pulo da minha cadeira, quando vi meu consultório ser invadido. Primeiro achei que era Raíssa, como ela liderava o setor de recursos humanos e eu atuava com psicólogo, nosso trabalho era interligado e ela tinha a estranha mania de não bater em minha porta, antes de entrar.
—Eu acho que a gente que deveria te perguntar isso— João Pedro, o amigo mais próximo que eu tinha, se jogou na poltrona na minha frente.
—E vocês não deveriam estar trabalhando?— Olhei para o relógio no meu pulso, dez e meia da manhã.
—Eu sou o chefe, não você. A vontade de fofocar é maior que eu— Marcos também se sentou, aparentando curiosidade. Apesar de ser o CEO, as suas atitudes eram completamente diferentes do "padrão" e acho que a sua proximidade com os seus empregados era um ponto importante para o sucesso da empresa. Eu não era tão próximo dele, quanto era de JP, nem achava que seria saudável na relação chefe/funcionário, então a maioria das aproximações partia dele e eu só acompanhava.
—Tuane veio me falar que você a rejeitou e disse que está namorando, fiquei sem entender nada. Então por favor, nos explique que eu estou aguardando— João Pedro praticamente ordenou.
—E nós sabemos que você só inventou uma mentira, então nem precisa fingir. Se você estivesse namorando, a gente com certeza iria saber de sua própria boca. Provavelmente antes mesmo do primeiro beijo você já estaria completamente emocionado, nos contando sobre cada detalhe criado pela sua imaginação— Marcos deu corda ao abusado do meu melhor amigo, mas eu não podia negar que eles estavam certos, eu era um cara de natureza romântica, gostava de fantasiar, a minha imaginação era bem menos frustrante do que a realidade.
—Vocês dois sabem, melhor do que eu mesmo, que ela está insistindo em sair comigo faz um tempão. Nós fomos jantar uma vez, achei que assim ela iria deixar de lado, mas parece que só piorou. Não entendo o porquê da insistencia...
—Para alguém tão inteligente, as vezes você é bem burro, cara. É óbvio que ela ia ficar mais em cima, ela gostou e quer mais. O que vocês fizeram depois do jantar, em?
—Nada— cortei, rapidamente, a especulação de JP— Deixei ela em casa e fui para a minha, não aconteceu exatamente nada. Eu não sei porque ela pensa que a gente deveria ter algo, quando para mim é bem claro que somos quase como incompatíveis.
—Acho que a deixou com um gostinho de quero mais. E isso muito me preocupa, essa insistência absurda em cima de você— Marcos falou sério, pela primeira vez naquele dia— O estágio dela vai até o início do ano que vem, ela é uma ótima funcionária na prática, mas sua atitude muitas vezes não é profissional. Ela te persegue e isso é uma forma de assédio, além de tudo, não é a primeira vez que noto os seus problemas de lidar com o ambiente de trabalho. Ela faz o que faz, de maneira bem feita, mas a falta de postura deixa muito a desejar.
—E o pior é que você não pode nem pedir para ela procurar o psicólogo da empresa, para ver se ajuda ela a encontrar seu lugar no mundo— João tentou brincar e eu dei uma risada forçada— Mas eu ainda não entendi como tudo isso virou uma grande fofoca sobre o seu suposto namoro.
—Eu pensei que, falando que tinha uma namorada, ela entenderia que eu realmente não quero nada com ela, que estou comprometido e não adianta ela tentar. Sem falar que o nosso "encontro" foi há mais de seis meses, tem gente que conhece, namora, noiva, casa e se bobear ainda faz um filho, nesse tempo. Nunca iria imaginar que ela passaria todo esse tempo remoendo um jantar que nem tinha a pretensão de ser um encontro e que, no final, não nos levou a lugar nenhum. Mas como assim uma grande fofoca? Vocês só não estão sabendo porque a Tuane contou? Achei que tinham descoberto pela própria boca dela.
—Meio que foi assim, mas da mesma forma que ela contou para João Pedro, contou para Edgar e ele espalhou para todo mundo, como sempre— Marcos explicou.
A história não me surpreendeu muito, Edgar era chefe de Tuane, assim como também era a pessoa mais fofoqueira que eu já conheci em toda a minha vida. O cara sabia, se bobear, até o número do CPF de cada funcionário da empresa. Boatos diziam que ele fazia seu trabalho em tempo recorde, apenas para ficar escutando conversas pelos corredores. Eu não duvidava que aquilo fosse verdade, ele era um bom profissional e atendia a qualquer comando, finalizando o serviço muito rapidamente, mas aparentemente Marcos não dava sorte com a seriedade de seus funcionários.
—E olha, não é querendo colocar lenha na fogueira não, mas quando estávamos vindo para cá, Paulo nos parou cheio de piadinhas sobre como você teve que inventar um namoro porque não aguenta com Tuane, já que ela é "mulher demais para você".
—Esse cara é ridículo. Marcos, porque não muda o ramo da empresa? Eu acho que seus funcionários se dariam muito melhor trabalhando em uma revista de fofocas— Esbravejei.
—Eles são bons no que fazem, ok? Agora eu só acho que você deveria resolver logo essa situação, porque pelo que nós escutamos, ninguém está caindo muito na sua mentira— Meu chefe falou— Eu até poderia fingir ser seu namorado, mas você sabe que meu noivo é ciumento e ele logo logo está voltando para o Brasil!
João Pedro deu uma gargalhada tão escandalosa que chegou a doer meus ouvidos. Por fim, me encarou e disse:
—Digo o mesmo. Não posso nem me oferecer para o cargo, se não corro o risco de perder todo o trabalho que estou tendo para conquistar Fernanda. Ela ainda acha que eu sou mulherengo e não quero nada sério com ninguém, então...
—Vocês são tão engraçados. Nem se eu topasse, até parece que ia convencer alguém. E Fernanda não está errada sobre você, JP, você que mudou depois que a conheceu e é mais que justo que prove isso para ela.
—Tá, tá, já entendi— Ele revirou os olhos e eu voltei a falar:
— O grande problema disso tudo é que eu preciso arrumar alguém de fora da empresa e eu literalmente não conheço ninguém nessa cidade, além de quem trabalha aqui.
—Mas qual é seu plano? Arrumar uma namorada de verdade? Ou contratar alguém para fingir?
—Nem uma coisa, nem outra. Se eu tiver alguém para tirar algumas fotos e de repente sair para algum lugar no fim de semana, acho que a mentira já cola.
—Não cola não, cara. Tuane é obsessiva contigo, acho que você realmente vai precisar encontrar alguém que esteja disposta a fingir que está te namorando— JP disse.
—E digo mais, se for alguém de dentro da empresa, vai parecer mais real.
—Mas aí eu iria transformar minha vida em um fingimento, Marcos. E quem seria a doida que toparia entrar nessa furada comigo?
—Só por alguns meses, até o estágio dela terminar. Se a sua "namorada" estiver aqui dentro, ela não vai se aproximar tanto e vai dar crédito para o relacionamento, afinal, quem fingiria estar namorando uma companheira de trabalho?
—O problema é que as coisas não funcionam tão fácil desse jeito. Como que eu viro para alguma garota da empresa e peço para que ela finja ser minha namorada?
Mais uma vez me assustei com batidas na porta. Falei um "entra" e me ajeitei na cadeira, logo percebendo que era Raíssa.
—É, desculpe interromper— ela deu dois passos para frente— Eu sem querer ouvi uma parte da conversa de vocês e...
—O que?— JP quase gritou. Era só o que me faltava, agora precisaria arrumar outro plano, porque o meu tinha acabado de descer pelo ralo.
—Você não vai comentar com ninguém, certo?— Marcos instruiu.
—Gente, vamos com calma. Posso continuar?— seus olhos atentos passaram por nós três— Eu estava vindo aqui falar que encaminhei Joana para consultas semanais, mas sem querer acabei ouvindo que você precisa que alguma garota da empresa finja ser sua namorada.
—É— afirmei, envergonhado. Eu e ela éramos bons colegas de trabalho, mas não tínhamos muita i********e e eu não fazia o tipo de pessoa muito aberta socialmente.
—Então pode me agradecer, porque eu conheço a solução para seus problemas, que atende pelo nome de Brenda.