Capítulo VII

1011 Words
Brenda Era o dia inicial para o nosso teatro: segunda-feira, três de dezembro. Trabalhando em um escritório de marketing e publicidade, onde éramos forçados, pelos clientes, a sermos criativos o tempo todo e, tendo um chefe que alimentava as nossas individualidades e um ambiente de trabalho mais informal e aconchegante, preciso dizer que normalmente eu me vestia seguindo o mesmo estilo de roupas que eu usaria para ir em qualquer outro lugar. Obviamente havia alguma linha de respeito a ser imposta. Cariocas normalmente utilizavam chinelos havaianas em todos os lugares possíveis, mas eu não os usaria para trabalhar, por motivos claros, por exemplo. Naquela manhã, entretanto, eu senti que precisava dar mais atenção ao que vestiria, porque sabia que olhares estariam voltados para mim. E ok, eu posso confessar que deveria ter parado para pensar nisso antes, porque no horário marcado por Matheus, para me encontrar na portaria do meu prédio, eu ainda estava com a minha cama lotada de roupas e sem saber o que fazer. Bendita preguiça de fazer as coisas no dia anterior, era por isso que eu acabava me vestindo com as primeiras peças que eu via pela frente, em todas as outras manhãs. Mas aquela era diferente, por isso que, depois de mandar uma mensagem para Matheus, pedindo por cinco minutos (eu não podia atrasar mais do que isso, se não correríamos o risco de não conseguirmos esbarrar com Tuane logo na garagem do prédio onde trabalhávamos), tomei vergonha na cara e deixei todo e qualquer traço de baixa autoestima existente em meu corpo para trás. Ok, eu admito que tive que vestir umas três calças, nesse curto período de tempo, mas depois que peguei uma das minhas roupas exclusivas para ocasiões especiais, me encontrei. Eu tinha comprado aquela calça de alfaiataria, em tom amarelo mostarda, pensando em usá-la no batizado de Antonella (minha afilhada mais nova), mas como no dia em que a batizei a temperatura estava muito alta, tive que colocar um vestido mais fresco e aquela roupa ficou esquecida justamente na parte do armário onde minhas roupas “reservadas” estavam. Se eu comprava um vestido para usar no Natal, uma roupa para o Ano Novo, algo para uma festa ou qualquer ocasião específica, ficava ali naquela prateleira, até ser usado e ir para outro pedaço do meu armário. Acabei por encontrar uma blusa aberta e mangas compridas bem fresca, porque na verdade ela era uma saída de praia, tanto é que nas mangas havia bordado tipicamente praiano e, bem, não havia botão para fechá-la, me fazendo usar um sutiã mais decotado e dando um nó na blusa, bem no alto do meu estômago, um dedo antes da calça de cintura alta se iniciar. Peguei minha necessaire de maquiagem e joguei tudo que estava na bolsa azul, que eu tinha usado no dia anterior, para a minha bolsa preta, por fim pegando um par de sandálias de salto médio também pretas. Antes da minha guerra com o meu guarda-roupas começar, eu tinha tomado banho, feito toda a minha higiene e tomado o meu café, então fedida e com fome eu não ficaria. E Deus, era dezembro, como fazia calor! Corri por dentro do meu apartamento, olhando no relógio e vendo que eu tinha confundido tudo e que, na verdade, aquela era a hora que nós havíamos combinado. Matheus é que havia chegado um pouco mais cedo. Respirei aliviada, por as chances de realmente trombarmos com Tuane no estacionamento terem aumentado. Tranquei o meu apartamento, entrando no elevador e aproveitando esse momento para passar os dedos por entre os meus super longos fios de cabelos. As ondas praianas apareciam, já que eu havia entrado no mar no dia anterior e, depois de lavá-lo, deixei que secasse naturalmente (como eu fazia na maioria dos dias, para ser sincera. Adorava a sensação de cabelos molhados contra o vento). Quando cheguei do lado de fora do meu prédio, precisei de alguns segundos para encontrar Matheus. Ele colocou a cabeça para fora de um Volkswagen Virtus de cor branca, em contraste com o insulfilm completamente preto, e acenou em minha direção. Atravessei a rua com cuidado, porque eu não combinava muito com saltos altos, toda vez que os usava, sentia que ficava andando como uma patinha, sem focar na parte em que eu tropeçava pelo menos meia dúzia de vezes e, à vezes, acabava por virar o pé. Obrigada Marcos, por não nos obrigar a utilizar saltos altos, como acontecia em algumas outras empresas de marketing e publicidade, que concorriam conosco no mercado. —Bom dia— o cumprimentei, assim que entrei em seu veículo— Desculpe por te fazer esperar, eu tive um probleminha com a escolha da minha roupa. Não estou acostumada a ter todos os olhares voltados para mim e, não sei por que, mas tenho a sensação de que isso vai acontecer hoje— brinquei com a minha ironia e ele riu baixo. —Bom dia, Brenda. Está linda, por sinal! —Obrigada— falei, concordando internamente com a sua constatação. Qual é? Eu tinha momentos e momentos, estava me sentindo f**a lá em cima, até achar essas calças perfeitas que fizeram o meu dia—Estou sem um pingo de maquiagem, então espero que não se importe de me ver fazendo isso em seu carro! —Não se preocupe, se você deixar a sua base cair sob o estofado do banco, já pode me pagar uma lavagem completa. Convenhamos que o Alfredo está mesmo precisando! —Falou, apontando para o próprio pé, onde o tapete estava um pouco sujo de terra. —Não acredito que deu nome ao seu carro, Matheus— falei, colocando o cinto de segurança e pegando a minha bolsinha onde eu guardava alguns anéis e colares, começando a colocá-los em mim, enquanto ele dava a partida. —É uma tradição familiar— ele deu de ombros. —Bem, se você acha que o seu carro está sujo, é porque não viu o meu, que eu coloco para fazer mini trilhas até umas praias que ninguém nem nunca ouviu falar!
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