capítulo 4

830 Words
Irada com a nova descoberta, Katherine sentiu o peso da realidade esmagar seus ombros. O príncipe, enfim, tornara-se sapo. Demorou, mas ele revelara sua verdadeira essência: uma face horrenda e suja, capaz das artimanhas mais baixas para alcançar o que queria. Dinheiro. Status. Uma vida sem esforço. — Onde eu estava com a cabeça? Mamãe me avisou tanto... — sussurrou para si mesma, sentindo o gosto amargo do arrependimento. Indignada, ela saiu do quarto enquanto ouvia o "marido" bêbado berrar aos quatro ventos. Pierre, com um cinismo rasteiro, gritava que ela deveria ter ouvido a mãe, mas que agora era tarde — ela teria que aguentar. Katherine apenas balançou a cabeça. Sem qualquer possibilidade de resolver uma fraude jurídica às duas da manhã, ela se refugiou no quarto de hóspedes. O sono não veio. A mente de Katherine era uma tempestade de milhões de pensamentos, revirando cada palavra de Pierre até que, às cinco da manhã, uma luz de esperança brilhou em meio ao caos. Ela se lembrou de Lia. Lia era sua amiga de infância, alguém de quem se afastara após a mudança para o Rio e o início do sufocante "casamento". Lia sempre fora brilhante, uma força da natureza que passara em Direito com louvor e se tornara uma das advogadas mais ferozes de Brasília. Katherine não queria envolver os pais ainda; precisava de uma estratégia, não de um sermão. Ligação On — Lia? Bom dia. Eu sei que é cedo... — Bem cedo — a voz de Lia soou rouca de sono. — Espera... Katherine? É você mesma? — Sim, sou eu. Desculpe pelo horário... — Imagina, Kah! Eu te desculpo se você parar com essas formalidades. Quando foi que passamos de melhores amigas para duas estranhas? Katherine sorriu. O laço não havia se rompido; estava apenas empoeirado. — Amiga, estou desesperada. Preciso de ajuda. Lia, que já conhecia o histórico de Pierre por alto, não demorou a ligar os pontos. — Você quebrou a cara, não foi? Eu sabia! Não me diga que esse cretino encostou em você. Se for para pedir medida protetiva, já aviso: não serve para nada contra canalhas. A solução é o sumiço dele. Vou fazer as malas agora, sei como cobrir os rastros! Katherine soltou uma risada genuína, a primeira em meses. — Calma, Lia! Não precisamos recorrer a um assassinato. Você lembra quando eu bati sozinha naqueles três moleques que roubavam nossos lanches? Acha que um frouxo como o Pierre daria conta de mim? — É verdade... — Lia suspirou, aliviada. — As aulas com aquele professor bonitão de jiu-jitsu surtiram efeito, então? Lembro que você ia para o tatame só para assediar o homem! — E você acha que eu perderia a oportunidade de ter aqueles braços me segurando? Desafiei tanto o instrutor que ele não resistiu. Aprendi muito mais do que golpes, amiga — Katherine brincou, permitindo-se um momento de leveza. Após as risadas, o tom de Lia voltou ao profissional. — Se não quer que eu esconda um corpo, o que você quer, Kah? Katherine explicou o golpe: o papel assinado sem ler, a união estável forjada, a comunhão de bens. — Ele diz que tudo o que é meu é dele, Lia. Ele se recusa a sair da casa. Não sei o que fazer. — Acalme-se. Você tem a casa e o carro no seu nome, certo? O problema não é o patrimônio. Vou mover meus pauzinhos aqui em Brasília. Se ele não assinar o divórcio por bem, conheço juízes que podem resolver isso sem burocracia. Esse "contrato" vai virar pó. — Obrigada, Lia. Eu te amo. — Não me agradeça. Se não quiser ficar aí, venha para minha casa. Katherine agradeceu, mas sua vida — o hospital, a residência, sua carreira — estava no Rio. Ela não fugiria. O Espelho da Realidade Na manhã seguinte, Katherine não acordou; ela apenas levantou, já que não pregara o olho. Arrumou-se com cuidado. Tinha dois dias de folga e uma determinação de ferro: não passaria um segundo sequer sob o mesmo teto que Pierre. Agendou quarenta e oito horas em um SPA de luxo. Precisava de silêncio, massagens e paz antes de enfrentar a guerra jurídica que viria. Quando estava prestes a cruzar a porta de saída, foi interceptada. — Onde você pensa que vai? — Pierre descia as escadas com a cara deslavada, escorando-se no hall como se nada tivesse acontecido. Katherine o olhou por um instante. Para um desconhecido, ele ainda pareceria o homem mais lindo do mundo — a moldura de um príncipe. Por muito tempo, ela fora hipnotizada por essa imagem. Mas agora, a visão estava límpida. Ela não via beleza. Via um parasita. Um miserável interesseiro. — Não é da sua conta — respondeu, a voz seca como o deserto. Mesmo sentindo o olhar enfurecido dele queimar em suas costas, ela não hesitou. Saiu, bateu a porta e deixou para trás, ao menos nesses dois dias, o cheiro de mofo daquela relação falida.
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