Capítulo 24

1170 Words
Dom respirou fundo, afastando um pouco o queixo do cabelo dela, como se buscasse coragem. — Enquanto eu bebia muito… Janete trabalhava aqui. Limpava a casa, cozinhava, fazia companhia. — a voz dele saiu grave, cansada. — E eu acabei me envolvendo. Dormi com ela algumas vezes. Ela criou expectativas das quais eu nunca poderia corresponder. Marvila manteve os olhos baixos, passando a mão nervosamente sobre a barriga. Depois, ergueu o olhar e perguntou, curiosa e séria: — Foi só se xo? Sem sentimentos? Dom soltou uma risada curta, quase amarga, exultante com a própria sinceridade: — Sim. Na maior parte do tempo eu m*l me lembrava do que estávamos fazendo. Eu só… bebia e deixava acontecer. Conversávamos. Ela passava muito tempo aqui. O silêncio caiu pesado. Marvila engoliu em seco, com o rosto sem expressão. Ficou quieta por alguns instantes, até que murmurou baixinho, quase para si mesma: — Homens não ficam sozinhos… é normal. Ela suspirou, pensativa, e acrescentou: — Mas eu acho que ela gosta de você. Pareceu enciumada quando me viu. Dom franziu a testa, balançando a cabeça firme. — Não, Marvila. Não precisa se preocupar com isso. Se existe uma coisa que você nunca vai precisar temer em mim, é falta de fidelidade. Eu não tenho intenção de te envergonhar depois que estivermos casados. Marvila permaneceu calada, pensativa, cética. Seus olhos não revelavam se acreditava ou não. Depois de alguns segundos de silêncio, murmurou cética: — Posso sair da banheira? — Pode. — ele respondeu, sério, pensativo, mas os olhos a acompanharam até o último instante. Ele a observava com um misto de respeito e fascínio, achando-a muito linda. Marvila se enrolou na toalha e foi para o próprio quarto, com o coração apertado. Confusa, não sabia se um dia teria, de fato, um marido de verdade, alguém que não fosse apenas uma promessa ou uma formalidade. Entrou no chuveiro, deixou a água cair sobre o corpo e tentou clarear os pensamentos. Depois, já mais calma, foi até a cozinha. Arrumou a mesa com cuidado e, antes de sentar-se para comer, ouviu passos vindos da escada. Dom desceu. Usava um pijama de frio, cheirava a perfume forte, diferente dos outros dias e o cabelo estava penteado, como se quisesse se apresentar melhor. — Preciso me desculpar… por ter bebido. — disse ele, com a voz baixa. Marvila apenas assentiu, serviu os pratos e empurrou o dele na direção da cadeira. — Coma. Não foi nada. — respondeu de forma simples. Eles começaram a comer em silêncio, lado a lado. O clima era denso, mas de repente Dom pigarreou e falou, um tanto desconcertado: — Amanhã… acho que vamos receber visitas. Minha irmã vai vir. Então, teremos que dormir no mesmo quarto e desocupar o seu. Marvila respirou fundo, forçando um sorriso cansado. — Tudo bem. — respondeu, concordando sem questionar. Ficou quieta, com a cabeça baixa, os olhos fixos no prato. Dom arqueou a sobrancelha, intrigado. — Você não tem nada pra perguntar? Não quer saber nada sobre a minha irmã? — Não. — ela respondeu seca, permanecendo em silêncio. Ele suspirou, e num gesto sutil segurou a mão dela, como quem pede calma. — Eu posso dormir no chão, você não precisa dormir ao meu lado. — disse, apreensivo. Marvila ergueu os olhos e sorriu de leve, constrangida. — E você acha que o problema é dormir ao seu lado? Eu não sei o que a sua família vai pensar… mas eu já posso imaginar. Ninguém vai gostar de mim. Nem você gosta de mim. Você m*l me conhece. Tudo está certo para dar errado. Eu sempre estou no lugar errado, na hora errada. Estou com um mau pressentimento… eu não consigo comer. Ela empurrou o prato, largando o resto da comida, e se levantou nervosa. Foi até a pia, serviu-se de um copo d’água e bebeu em silêncio. Dom a olhava, quase divertido, querendo rir do drama. — Você está com medo de quê? O importante é eu gostar de você. Marvila virou o rosto, séria: — Mas você não gosta de mim. Ele respirou fundo. — Não exatamente. Mas a minha irmã… ela só vai aceitar. Acredite, a minha família quer que eu recomece. E você é melhor que a Janete. Você não acha? Marvila arregalou os olhos e, por instinto, soltou uma risada nervosa. — Por quê? Dom inclinou a cabeça, analisando-a de cima a baixo, e respondeu firme: — Olhe para você. Olhe para ela. Digamos que… ela é um pouco espetaculosa. Marvila gargalhou, cobrindo a boca com a mão. — O que isso significa? Eu posso ser também, você não sabe. Eu só estou gorda e impossibilitada de me exibir, mas eu posso ser igual. Ele sorriu com admiração, com os olhos fixos nos dela. — Não, você não é. Eu já te conheço o suficiente pra ver como você é. E eu não acho que essa sua barriga gigante mude a sua personalidade. Dom ficou olhando para ela, com a expressão mansa, e falou: — Volta pra mesa, Marvila. Termina de comer. É pra alimentar a bebezinha. Marvila soltou uma risada curta, meio nervosa: — A bebezinha sem nome… — olhou para ele de lado. — O que a sua irmã vai achar do nome Aurora? Vamos lá comprar um quilo de Aurora. Os dois riram juntos. Marvila se sentou novamente, pensativa, mexendo no garfo. — Ai, ai… eu não sei. Mas… eu acho que o nome dela tem que ser… especial. Talvez eu possa esperar ela nascer, olhar pra cara dela e dar o nome. — suspirou, tocando a barriga. — Eu tenho medo, sabia? Medo de acontecer alguma coisa comigo. Um dia ela ficar sozinha. Por isso eu aceitei me casar com você. Porque você parece ser uma boa pessoa. E dos males o menor, né? Afinal… você não vai abandonar a minha bebê se algo acontecer comigo, né? Dom ergueu os olhos para ela, e havia algo diferente em seu olhar. Uma espécie de exultação, um brilho misturado com tristeza profunda. Ele respondeu com firmeza: — Não. Jamais. O que eu estou propondo é um acordo pra vida toda. Eu não vou me arrepender. Nada vai mudar, independente do que aconteça entre nós. Marvila parou com o garfo no ar, o cenho franzido. — Como assim? — perguntou, curiosa, tentando decifrar. Dom respirou fundo, desviando o olhar. — Eu não pretendo continuar casado com você para sempre. Só enquanto você precisar de mim ao lado. Marvila ficou em silêncio, mastigando devagar, tentando entender. Sua mente correu direto para a palavra “divórcio”, imaginou papéis, separação, a bebê crescendo entre idas e vindas. Mas, enquanto ela pensava nisso, Dom, por dentro, pensava em algo muito mais sombrio, a ideia de desistir da própria vida, de entregar tudo e desaparecer depois que cumprisse a promessa. O silêncio ficou pesado. Ela abaixou os olhos para o prato, mexendo na comida. Ele permaneceu ali, firme, mas com o olhar perdido, como se já estivesse em outro lugar.
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