Capítulo 23

1410 Words
Marvila se sentou ao lado dele na beira da cama, tentando controlar o coração acelerado. Passou a mão devagar pelo braço dele e murmurou: — Eu estou aqui para te ajudar, Dom. Vamos… vai tomar um banho, você precisa despertar um pouco. Depois, a gente janta. Ele virou o rosto lentamente para ela, com os olhos semicerrados, e deixou a mão escorregar pelas costas dela num gesto que a deixou em alerta. — Quero tomar banho com você… na banheira. — falou, com a voz rouca, e um sorriso cansado nos lábios. A vergonha tomou conta do rosto dela. Nervosa, respondeu num fio de voz: — Tudo bem… eu preparo. O banho. Levantou-se rápido, antes que ele insistisse mais. No banheiro, mexeu nos registros até encontrar a temperatura certa. A água quente começou a encher a banheira, soltando vapor pelo ambiente. Pegou duas toalhas limpas, arrumou sobre o suporte de madeira, mas em sua mente não havia a mínima intenção de dividir aquele banho. Respirou fundo, olhou em volta e, com a banheira quase cheia, voltou ao quarto. — Já está pronto. — disse, tentando parecer natural. Dom levantou-se, ainda meio cambaleante, mas com menos indisposição que antes. Caminhou até o banheiro. Jogou água no rosto, lavou-se rapidamente na pia e até escovou os dentes, como se quisesse retomar um pouco da dignidade perdida. Marvila pigarreou, sem jeito: — Eu vou ali e já volto. Saiu e ficou no quarto, encostada no guarda-roupa, observando pelo espelho da porta entreaberta. Dom entrou na banheira de cueca, relaxou contra a borda e soltou um suspiro pesado, como se parte do peso fosse levado pela água quente. Então, ergueu a voz, chamando-a de longe: — Marvila, você não vem? — o tom era quase brincalhão, mas carregado de sinceridade. — Não vou fazer nada com você, não precisa ter medo. Sou mais agressivo ou perigoso sem beber. As palavras ecoaram pelo quarto, deixando Marvila paralisada, dividida entre a vontade de fugir dali e a estranha curiosidade que crescia dentro dela. Marvila respirou fundo, prendeu os dedos na beirada da porta e, sem coragem de encarar diretamente, falou apressada: — Tá bom, eu já vou… eu estava arrumando aqui. Calma, eu já vou. A voz de Dom ecoou do vapor quente, tranquila: — Eu estou calmo. Mas se não quiser vir, tudo bem. Você que sabe. Eu só fiz um convite. Ela engoliu em seco, deu dois passos para dentro, ainda apreensiva. — Não… eu vou, eu vou. Fique calmo. Ele riu baixo. — Mas eu estou calmo. É você que está nervosa? Ficar perto de mim te deixa nervosa? Marvila, constrangida, apenas balançou a cabeça que sim. Com passos curtos, aproximou-se da beirada da banheira. A água quente subia em pequenas ondas suaves, refletindo a luz. — Eu não quero ficar sem roupa. — ela murmurou, encolhendo os ombros. — Então não fique. — ele respondeu, com naturalidade. Marvila hesitou, mas puxou o vestido devagar pelos ombros, revelando o top simples e a calcinha. Sentia-se exposta, mas respirou fundo e entrou com cuidado. A água a envolveu, quente, quase anestesiante. Dom estendeu a mão firme, segurando a dela para apoiá-la. Com delicadeza, a colocou sentada, de costas para ele, no meio de suas pernas. Ainda assim, não se encostou demais. Ela ficou encolhida, com as pernas dobradas e os braços ao redor dos joelhos, com o coração disparado. O silêncio entre os dois só era quebrado pelo barulho suave da água. Até que, nervosa, ela mesma o quebrou: — Eu nunca entrei numa banheira. Dom sorriu, recostando os braços abertos sobre as bordas da banheira, com o olhar curioso. — Nunca entrou? E você queria? Tinha essa vontade? Ela assentiu, tímida: — Sim. Eu via nos filmes, nas novelas… e ficava curiosa. Ele inclinou um pouco a cabeça, rindo de leve: — Eu também gosto de água quente. Então, já temos algo em comum. Marvila riu, baixinho, mais relaxada. — A bebê gosta também. Ela se mexeu… Passou a mão pela barriga, deixando a água quente escorrer entre os dedos. Dom a observou com atenção e, depois de um instante, falou baixo: — Posso sentir? Ela hesitou, respirou fundo e, apreensiva, respondeu: — Sim. Pegou a mão dele com delicadeza e levou até o ponto onde a bebê se mexia. Dom a pousou devagar, com os dedos abertos, e sorriu ao sentir o movimento. — Oi, bebê… você está tomando banho? Estamos tomando banho juntos. A voz dele saiu suave, quase um sussurro reverente. Marvila fechou os olhos por um instante, emocionada, sentindo o contraste entre o medo e a estranha sensação de conforto que aquela cena lhe causava. O vapor da banheira envolvia os dois, e o silêncio parecia pesado. Marvila respirou fundo, passou a mão na barriga e falou com a voz serena, mas firme: — Dom, eu sinto muito pelo que eu fiz insistindo no nome. Eu vou mudar o nome, mas eu não gosto de Aurora. Se pudesse… outro nome. Ele ficou em silêncio alguns segundos, depois balançou a cabeça devagar. — Não. Eu não quero tirar isso de você. Você disse que sempre sonhou que teria uma Maria. Esse nome é muito comum… e bonito. Eu só não sei como me sinto sobre isso, mas… eu vou me adaptar. A você, à bebê, a gente, a tudo. Marvila virou o rosto para olhá-lo de relance, emocionada. — Eu sei que ainda é difícil. Eu também me sinto assim. Não sei exatamente como me sinto, mas eu não quero colocar o nome na bebê que te lembre da pessoa que você tanto amou… que você ainda ama. Tudo isso remete ao seu luto, ao seu sentimento, e eu entendo. Eu não quero ser egoísta e te forçar a conviver com isso. Vamos escolher outro nome juntos. Você aceita? Ele respirou fundo, olhando para o teto, antes de responder: — Aceito. Mas… qual o problema de Aurora? A minha vozinha vai ficar ofendida. — tentou brincar, forçando um sorriso. Marvila apertou os lábios, e uma risadinha nervosa escapou: — Não é só porque tem a linguiça Aurora… — ela riu contra a própria vontade. — Eu realmente pensei nisso. Mas é um nome diferente, né? Eu não gosto. Eu acho tão… sei lá, estranho. Ela ajeitou-se um pouco, ainda com os joelhos juntos, abraçada a si mesma como dava. — Eu pensei em Sofia. Ele franziu a testa. — Alice? Ela riu baixinho. — Luísa. Ele arqueou a sobrancelha, curioso. — Você gosta de nome comum? Porque o seu não é. Marvila suspirou e falou com sinceridade, com o olhar baixo: — Não, eu não gosto. Mas eu queria um nome que ninguém pudesse achar ela tão facilmente. Eu queria um nome repetido… pra ninguém saber quem fosse ela e não procurar facilmente. As palavras ficaram suspensas no ar, revelando não só o cuidado dela com a filha, mas também o medo constante de ser encontrada. Dom voltou a acariciar a barriga dela, com o toque firme mas suave, falou com a voz baixa: — Pode se encostar em mim. Se quiser. Marvila virou um pouco o rosto, apreensiva, séria: — Você quer? Ele não respondeu de imediato. Apenas a envolveu sutilmente com os braços e a puxou para trás, até que as costas dela encostaram em seu abdômen. A proximidade era intensa demais. Marvila ofegou, com o coração disparado, e murmurou com a voz trêmula: — Você… quer algo comigo? Fazer? Dom sorriu de canto, sem parar de acariciar a barriga dela. — Fazer amor com você? — Sim… — ela respondeu, encolhendo os ombros, quase se arrependendo de ter perguntado. Ele sorriu e respondeu com calma: — Não. Você está grávida. E é muito nova… para um velho como eu. Marvila mordeu os lábios, confusa, e murmurou baixinho: — Hum… é mesmo. Ele arqueou a sobrancelha, curioso: — Por quê? Você quer? É uma dessas grávidas fogosas? Marvila arregalou os olhos e começou a rir, nervosa demais. — Não! Eu não. Gorda, inchada, não. Me sinto tão feia… Eu não era assim. — m*l consigo me cuidar. Minhas unhas estão horríveis e a depilação, então... Dom riu com ela, balançando a cabeça. — Você está linda. Não seja boba. Ainda é jovem e sua beleza, é genuína. As palavras dele a fizeram silenciar por alguns instantes. O coração dela ficou dividido entre acreditar e desconfiar. Então, apreensiva, perguntou quase num sussurro: — Você estava namorando? Aquela moça loira?
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