Marvila se sentou ao lado dele na beira da cama, tentando controlar o coração acelerado. Passou a mão devagar pelo braço dele e murmurou:
— Eu estou aqui para te ajudar, Dom. Vamos… vai tomar um banho, você precisa despertar um pouco. Depois, a gente janta.
Ele virou o rosto lentamente para ela, com os olhos semicerrados, e deixou a mão escorregar pelas costas dela num gesto que a deixou em alerta.
— Quero tomar banho com você… na banheira. — falou, com a voz rouca, e um sorriso cansado nos lábios.
A vergonha tomou conta do rosto dela. Nervosa, respondeu num fio de voz:
— Tudo bem… eu preparo. O banho.
Levantou-se rápido, antes que ele insistisse mais. No banheiro, mexeu nos registros até encontrar a temperatura certa. A água quente começou a encher a banheira, soltando vapor pelo ambiente. Pegou duas toalhas limpas, arrumou sobre o suporte de madeira, mas em sua mente não havia a mínima intenção de dividir aquele banho.
Respirou fundo, olhou em volta e, com a banheira quase cheia, voltou ao quarto.
— Já está pronto. — disse, tentando parecer natural.
Dom levantou-se, ainda meio cambaleante, mas com menos indisposição que antes. Caminhou até o banheiro. Jogou água no rosto, lavou-se rapidamente na pia e até escovou os dentes, como se quisesse retomar um pouco da dignidade perdida.
Marvila pigarreou, sem jeito:
— Eu vou ali e já volto.
Saiu e ficou no quarto, encostada no guarda-roupa, observando pelo espelho da porta entreaberta. Dom entrou na banheira de cueca, relaxou contra a borda e soltou um suspiro pesado, como se parte do peso fosse levado pela água quente.
Então, ergueu a voz, chamando-a de longe:
— Marvila, você não vem? — o tom era quase brincalhão, mas carregado de sinceridade.
— Não vou fazer nada com você, não precisa ter medo. Sou mais agressivo ou perigoso sem beber.
As palavras ecoaram pelo quarto, deixando Marvila paralisada, dividida entre a vontade de fugir dali e a estranha curiosidade que crescia dentro dela.
Marvila respirou fundo, prendeu os dedos na beirada da porta e, sem coragem de encarar diretamente, falou apressada:
— Tá bom, eu já vou… eu estava arrumando aqui. Calma, eu já vou.
A voz de Dom ecoou do vapor quente, tranquila:
— Eu estou calmo. Mas se não quiser vir, tudo bem. Você que sabe. Eu só fiz um convite.
Ela engoliu em seco, deu dois passos para dentro, ainda apreensiva.
— Não… eu vou, eu vou. Fique calmo.
Ele riu baixo.
— Mas eu estou calmo. É você que está nervosa? Ficar perto de mim te deixa nervosa?
Marvila, constrangida, apenas balançou a cabeça que sim. Com passos curtos, aproximou-se da beirada da banheira. A água quente subia em pequenas ondas suaves, refletindo a luz.
— Eu não quero ficar sem roupa. — ela murmurou, encolhendo os ombros.
— Então não fique. — ele respondeu, com naturalidade.
Marvila hesitou, mas puxou o vestido devagar pelos ombros, revelando o top simples e a calcinha. Sentia-se exposta, mas respirou fundo e entrou com cuidado. A água a envolveu, quente, quase anestesiante.
Dom estendeu a mão firme, segurando a dela para apoiá-la. Com delicadeza, a colocou sentada, de costas para ele, no meio de suas pernas. Ainda assim, não se encostou demais. Ela ficou encolhida, com as pernas dobradas e os braços ao redor dos joelhos, com o coração disparado.
O silêncio entre os dois só era quebrado pelo barulho suave da água. Até que, nervosa, ela mesma o quebrou:
— Eu nunca entrei numa banheira.
Dom sorriu, recostando os braços abertos sobre as bordas da banheira, com o olhar curioso.
— Nunca entrou? E você queria? Tinha essa vontade?
Ela assentiu, tímida:
— Sim. Eu via nos filmes, nas novelas… e ficava curiosa.
Ele inclinou um pouco a cabeça, rindo de leve:
— Eu também gosto de água quente. Então, já temos algo em comum.
Marvila riu, baixinho, mais relaxada.
— A bebê gosta também. Ela se mexeu…
Passou a mão pela barriga, deixando a água quente escorrer entre os dedos.
Dom a observou com atenção e, depois de um instante, falou baixo:
— Posso sentir?
Ela hesitou, respirou fundo e, apreensiva, respondeu:
— Sim.
Pegou a mão dele com delicadeza e levou até o ponto onde a bebê se mexia. Dom a pousou devagar, com os dedos abertos, e sorriu ao sentir o movimento.
— Oi, bebê… você está tomando banho? Estamos tomando banho juntos.
A voz dele saiu suave, quase um sussurro reverente. Marvila fechou os olhos por um instante, emocionada, sentindo o contraste entre o medo e a estranha sensação de conforto que aquela cena lhe causava.
O vapor da banheira envolvia os dois, e o silêncio parecia pesado. Marvila respirou fundo, passou a mão na barriga e falou com a voz serena, mas firme:
— Dom, eu sinto muito pelo que eu fiz insistindo no nome. Eu vou mudar o nome, mas eu não gosto de Aurora. Se pudesse… outro nome.
Ele ficou em silêncio alguns segundos, depois balançou a cabeça devagar.
— Não. Eu não quero tirar isso de você. Você disse que sempre sonhou que teria uma Maria. Esse nome é muito comum… e bonito. Eu só não sei como me sinto sobre isso, mas… eu vou me adaptar. A você, à bebê, a gente, a tudo.
Marvila virou o rosto para olhá-lo de relance, emocionada.
— Eu sei que ainda é difícil. Eu também me sinto assim. Não sei exatamente como me sinto, mas eu não quero colocar o nome na bebê que te lembre da pessoa que você tanto amou… que você ainda ama. Tudo isso remete ao seu luto, ao seu sentimento, e eu entendo. Eu não quero ser egoísta e te forçar a conviver com isso. Vamos escolher outro nome juntos. Você aceita?
Ele respirou fundo, olhando para o teto, antes de responder:
— Aceito. Mas… qual o problema de Aurora? A minha vozinha vai ficar ofendida. — tentou brincar, forçando um sorriso.
Marvila apertou os lábios, e uma risadinha nervosa escapou:
— Não é só porque tem a linguiça Aurora… — ela riu contra a própria vontade.
— Eu realmente pensei nisso. Mas é um nome diferente, né? Eu não gosto. Eu acho tão… sei lá, estranho.
Ela ajeitou-se um pouco, ainda com os joelhos juntos, abraçada a si mesma como dava.
— Eu pensei em Sofia.
Ele franziu a testa.
— Alice?
Ela riu baixinho.
— Luísa.
Ele arqueou a sobrancelha, curioso.
— Você gosta de nome comum? Porque o seu não é.
Marvila suspirou e falou com sinceridade, com o olhar baixo:
— Não, eu não gosto. Mas eu queria um nome que ninguém pudesse achar ela tão facilmente. Eu queria um nome repetido… pra ninguém saber quem fosse ela e não procurar facilmente.
As palavras ficaram suspensas no ar, revelando não só o cuidado dela com a filha, mas também o medo constante de ser encontrada.
Dom voltou a acariciar a barriga dela, com o toque firme mas suave, falou com a voz baixa:
— Pode se encostar em mim. Se quiser.
Marvila virou um pouco o rosto, apreensiva, séria:
— Você quer?
Ele não respondeu de imediato. Apenas a envolveu sutilmente com os braços e a puxou para trás, até que as costas dela encostaram em seu abdômen. A proximidade era intensa demais. Marvila ofegou, com o coração disparado, e murmurou com a voz trêmula:
— Você… quer algo comigo? Fazer?
Dom sorriu de canto, sem parar de acariciar a barriga dela.
— Fazer amor com você?
— Sim… — ela respondeu, encolhendo os ombros, quase se arrependendo de ter perguntado.
Ele sorriu e respondeu com calma:
— Não. Você está grávida. E é muito nova… para um velho como eu.
Marvila mordeu os lábios, confusa, e murmurou baixinho:
— Hum… é mesmo.
Ele arqueou a sobrancelha, curioso:
— Por quê? Você quer? É uma dessas grávidas fogosas?
Marvila arregalou os olhos e começou a rir, nervosa demais.
— Não! Eu não. Gorda, inchada, não. Me sinto tão feia… Eu não era assim.
— m*l consigo me cuidar. Minhas unhas estão horríveis e a depilação, então...
Dom riu com ela, balançando a cabeça.
— Você está linda. Não seja boba. Ainda é jovem e sua beleza, é genuína.
As palavras dele a fizeram silenciar por alguns instantes. O coração dela ficou dividido entre acreditar e desconfiar.
Então, apreensiva, perguntou quase num sussurro:
— Você estava namorando? Aquela moça loira?