Capítulo 22

1153 Words
O silêncio na cozinha ficou insuportável. Dom respirava fundo, com o olhar perdido na parede. Então, sem conseguir mais segurar, murmurou com a voz falha: — Ana… era o nome da minha esposa. Marvila gelou. Ele tentou continuar, mas a voz embargou: — Esse nome… ele me corta ao meio. E as pessoas vão falar. As lágrimas vieram sem pedir licença. Ele se levantou bruscamente, empurrou a cadeira para trás e saiu sem olhar para trás. Marvila ficou paralisada, com o coração disparado, sem saber o que dizer. Poucos minutos depois, ela ouviu o motor da caminhonete e o portão. Dom havia saído. Ele foi direto para o cemitério, estacionou, andou chorando até o túmulo de mármore frio onde estavam Ana Carolina e o filho. Ficou ali ajoelhado, soluçando como uma criança. — Eu não consigo, Carolina… eu não consigo esquecer. Eu tô perdido. Depois de um tempo, sem forças, levantou e dirigiu até um bar na beira da estrada. Pediu um conhaque, depois Campari, depois pinga. Antes das dez da manhã já estava caindo de bêbado, com a cabeça pesada, o corpo largado na cadeira. — Eu não presto… nem pra morrer eu presto. — murmurava, com os olhos vermelhos. Um conhecido da cidade passou, viu Dom dormindo curvado sobre a mesa do bar e achou a cena deprimente. Não sabia o que fazer, mas ligou para Janete, que já trabalhara para Dom e fora, em segredo, um de seus casos. Pouco depois, Janete entrou no bar, segura e vistosa, como sempre. Pediu a conta, pagou a bebedeira dele e, com ajuda de um senhor, arrastou Dom até o carro. Ela assumiu a direção e levou-o para a casa dele. Chegando lá, buzinou alto. Marvila, assustada, saiu depressa até o portão. Quando se aproximou, viu Janete parada na calçada, abrindo a porta do carro. Janete deu um sorriso debochado. — Vem pegar o seu homem, querida. — disse com ironia. — De nada, por trazer ele. Estava caindo de bêbado no bar. Marvila se aproximou, nervosa, com o olhar alternando entre Dom desmaiado no banco de trás e a mulher cínica à sua frente. — O que aconteceu? Ele está bem? — perguntou aflita. Janete a encarou por alguns segundos, avaliando, como se quisesse medir sua ingenuidade. — Bem? Ele nunca está. — disse, com um tom c***l. — Você deve estar iludida… mas olha só, ele não vai te amar, nunca. O coração e a vida dele são da Ana Carolina. A falecida. Deu um passo para trás, com os braços cruzados. — Não ache que ele vai mudar por você. O silêncio pesado caiu entre as duas. Marvila sentiu um aperto na garganta, a insegurança queimando o peito, enquanto Dom permanecia inconsciente no carro, com a cabeça tombada, alheio a tudo. Marvila respirou fundo, tentando disfarçar o nervosismo que corroía por dentro. Aproximou-se de Janete e respondeu firme, embora sua voz tremesse: — Eu sei que ele não está bem… mas ele vai ficar. Eu acredito nisso. Sem esperar resposta, ela se inclinou até a porta do carro. Dom estava largado no banco, respirando fundo, sonolento, com o rosto marcado pelo álcool. Marvila tentou segurá-lo pelos ombros, mas ele apenas murmurou algo desconexo e tombou de lado. Janete revirou os olhos com impaciência. — Ai que dr oga… vai logo, eu te ajudo. Mas só porque você está grávida. Do contrário, nunca colocaria a mão nisso. Nunca, tá ouvindo? Janete se inclinou mais perto, com os olhos duros cravados em Marvila. — Eu não te conheço, mas já não gosto de você. E pode anotar, você vai ser muito infeliz com ele. Pode ter certeza disso. Marvila engoliu seco, sem saber o que responder, apenas abriu o portão e caminhou até a porta da casa. — Vai, abre lá a casa. Eu ajudo a levar ele. — Janete completou com um sorriso cínico. As duas conduziram Dom para dentro. Ele tropeçava, cambaleante, murmurando palavras sem sentido. Janete, com força e um certo desprezo, empurrou-o para o sofá da sala, onde ele se largou sem resistência. — Ana… Ana… — a voz dele saiu arrastada, chamando pela falecida esposa. O coração de Marvila se apertou. Ela ficou imóvel, encarando-o, enquanto Janete ria baixo, satisfeita com o caos que havia semeado. — Boa sorte, querida. Vai precisar. — disse por fim, saindo pela porta e deixando a risada ecoar no quintal. Marvila permaneceu sozinha, paralisada. Olhava para Dom desmoronado no sofá, chamando por outra mulher, sem saber se o cobria, se o repreendia ou se simplesmente chorava. O peso da escolha de estar ali com ele nunca pareceu tão c***l. Marvila respirou fundo, ainda sentindo a presença incômoda das palavras cruéis de Janete ecoando em sua mente. Aproximou-se do sofá, onde Dom estava largado, chamando por “Ana” entre resmungos. Com delicadeza, começou a tirar os sapatos dele, um de cada vez. Ele não reagiu. Depois, envergonhada, tocou na barra da camisa amarrotada e a puxou com cuidado. Dom murmurou algo, levantou os braços com dificuldade, e ela conseguiu tirá-la. O calor subiu ao rosto dela. Respirou fundo e encarou a calça. Não queria, mas ele não podia dormir daquela forma. Puxou o cinto, abriu o botão, e com esforço foi baixando a calça, enquanto ele, meio sonolento, levantava o quadril para ajudar, quase automático. — Desculpa… desculpa, Marvila… — murmurou, enrolando as palavras. — Eu não queria… eu não… a Ana. Em poucos instantes, adormeceu de novo, apenas de cueca box, respirando pesado. Marvila cobriu-o com um lençol e saiu em silêncio. Passou o resto da manhã entre a cozinha e o quintal, almoçou sozinha, mas o coração estava apertado. A palavra “Ana” não saía da cabeça dela. Doía e doía ainda mais porque, em segredo, desde menina, seu maior sonho sempre foi dar esse nome à filha que um dia teria. À tarde, o sol já baixo, voltou à sala. Dom ainda dormia, mas se remexia inquieto. Ela aproximou-se, hesitou, mas falou baixo: — Vamos para a cama, Dom… aqui não dá. Ele abriu os olhos vermelhos, semicerrados, e com esforço se levantou, só de cueca. Marvila desviou o olhar, não sabia se sentia mais vergonha ou raiva. O corpo dele parecia forte e era todo lindo, mas o estado era deplorável. Ela subiu próxima, amparando-o pelo braço, sustentando o peso enquanto caminhavam devagar pelo corredor até o quarto dele. Quando chegaram, Dom se sentou na beira da cama, respirando fundo. Então, num gesto inesperado, segurou o braço dela com firmeza, embora a voz saísse enrolada: — Quero que fique comigo, Marvila… O coração dela disparou. Não sabia se aquilo era apenas efeito da bebida, se um delírio, ou se, no fundo, havia verdade naquelas palavras. E, em silêncio, com a mão pousada na própria barriga, repetiu para si mesma, com a doçura de quem guarda um desejo antigo: “Minha filha vai se chamar Ana.”
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