Assim que deixou o quarto dele, Marvila foi para o dela. Estava apenas de top, a barriga descoberta ainda marcada pelo brilho do óleo que Dom havia passado na noite anterior. Sentiu-se exposta, corou e apressou-se em vestir um vestido simples dela. No banheiro, lavou o rosto com calma, tentando se recompor. Passou alguns minutos ali, pensativa, encarando o próprio reflexo. Seu coração estava confuso, entre gratidão, medo e uma estranha curiosidade sobre Dom.
Quando saiu, a casa estava em silêncio, exceto pelo som distante da chuva que agora caía mais fraca. Ao sair do banheiro, Marvila avistou os cacos de vidro do copo quebrado durante a madrugada. Instintivamente, abaixou-se e começou a juntar os pedaços, apoiando-se com dificuldade.
Dom surgiu na porta, vindo do quarto dele, e parou ao vê-la agachada.
— O que você está fazendo, Marvila? — disse, com a voz firme, mas não ríspida.
— Não! Deixe isso, eu vou limpar. Você não pode se abaixar desse jeito.
Ela ergueu o rosto, surpresa, mas manteve os pedaços na mão.
— Está tudo bem, eu consigo. Não precisa se preocupar.
Ele franziu a testa, deu um passo à frente.
— Vai deitar. Quer ir para a sala? Eu preparo o café da manhã e levo pra você.
Marvila suspirou, balançando a cabeça.
— Não, Dom… não precisa me servir. Eu não sou inválida. Está tudo bem.
No exato momento em que falava, um dos cacos escorregou e cortou o dedo dela. O sangue brotou rapidamente, fazendo-a soltar o pedaço de vidro com um pequeno grito.
— Ai!
Dom avançou, tomado pela preocupação.
— Marvila! Eu disse! Olha só… — segurou a mão dela com cuidado, sem saber se brigava ou se acalmava.
— Você não pode ser teimosa assim. Vem, deixa eu ver.
Ele pressionou o corte com um pedaço de papel higiênico limpo, segurando firme para estancar o sangue, enquanto a olhava nos olhos, sério, mas com um brilho de diversão verdadeira.
— Teimosaaaa!
Com cuidado, ele a guiou até a cama, com a mão ainda segurando a dela. O toque era firme, mas surpreendentemente delicado. Foi pegar um curativo.
— Senta aí, e não mexe.
Marvila obedeceu, um pouco envergonhada. Ele abriu uma gaveta do guarda-roupa, pegou uma caixinha de primeiros socorros e começou a limpar o corte com soro fisiológico. Depois, enrolou um curativo, com seus dedos calejados sendo suaves como nunca haviam sido.
— Pronto. Tá vendo? Não doeu. — disse, erguendo o olhar para ela.
— Vou cuidar da sua cesariana.
Ela balançou a cabeça que não, querendo rir, em silêncio, com os olhos fixos nele. Era estranho vê-lo assim, calmo, cuidadoso, quase… íntimo.
Dom então se levantou, a chamou para descer, a amparou pela mão nas escadas; ao chegar na cozinha a colocou sentada, lavou as mãos e começou a preparar o café da manhã. Acendeu o fogo, colocou a frigideira, jogou os ovos e mexeu devagar, com queijo e orégano. O cheiro quente invadiu a cozinha. Depois passou manteiga no pão, colocou para tostar na sanduicheira. Preparou café e esquentou leite. O som das panelas misturava-se ao cheiro de café fresco e à bagunça dele, todo desajeitado.
Marvila, com o dedo doendo, ficou observando a cena, com o olhar meio perdido na bagunça.
— Posso tomar um pouquinho, de café? — perguntou, quase tímida, apontando para a garrafa.
Dom virou o rosto para ela e sorriu de canto.
— Não deveria, mas pode. Porque grávida… só quer fazer o que não pode?
Marvila sorriu também, mas com um certo ar de mistério.
— Eu também não sei. Quando eu descobrir eu te conto.
Ele soltou uma risada curta, com um toque de malícia leve que ela nunca tinha visto nele.
— Você anda querendo fazer mais coisas que não pode? Além do refrigerante e do café… eu não sei. — disse, mexendo os ovos sem olhar para ela.
Marvila baixou o olhar para o curativo no dedo. Ele continuou.
— Você tem falado com a sua família? — ele perguntou, agora mais sério, colocando os ovos no prato dela.
— Não. — respondeu seca.
— Eu não tenho família. Não falo com eles porque se eu contar para minha mãe onde eu estou, é capaz que ela conte para o meu ex… e você já sabe.
Dom parou, com o olhar fixo no fogão.
— Se ele descobrir que eu estou grávida, está tudo acabado para mim. — Marvila completou, com a voz embargando.
— Eu nunca mais vou… — ela parou no meio da frase, apertando os lábios para conter as lágrimas.
Dom largou a colher, secou as mãos e se virou de frente para ela. Ficou ali por um segundo, apenas olhando, como se quisesse dizer algo mas não encontrasse as palavras.
— Marvila… — disse, finalmente, num tom baixo e sério.
— Eu não vou deixar ninguém chegar perto de vocês. Nem ele, nem ninguém.
Ela ergueu os olhos para ele. Dom segurou de leve o encosto da cadeira dela, inclinando-se um pouco para falar mais próximo:
— Come. Se alimenta. Essa bebê precisa de você forte. E eu… eu também preciso que você esteja forte.
O clima na cozinha ficou denso, mas havia algo novo ali, uma sinceridade que deixava o ar pesado e, ao mesmo tempo, seguro. Dom terminou de ajeitar o café da manhã, na frente dela e se inclinou um pouco, olhando firme para Marvila.
— Você vai estar segura, Marvila. Eu vou registrar a bebê. Mesmo que o seu ex ache você, ele não vai poder fazer nada. Eu sei como proteger vocês duas.
Ela respirou fundo, passou a mão devagar pela barriga, com os olhos marejados.
— Eu acredito, Dom. Mas algumas coisas não mudam…
Ele se sentou, tomou um gole de café e perguntou em seguida, quase cauteloso:
— Você já pensou melhor sobre o nome?
Marvila ergueu o rosto e respondeu sem hesitar:
— Não tenho o que pensar. Esse nome é perfeito. Até ela já conhece.
Colocou a mão na barriga e sorriu doce:
— Ana… cadê a minha Aninha?
Ficou esperando, em silêncio. Depois balançou a cabeça, rindo baixinho.
— Agora ela não mexeu, mas ela sabe. Esse é o nome dela e ela gosta.
Então, virou-se para Dom, séria, com os olhos cravados nele:
— Por que você não gosta desse nome? Qual o problema, Dom?
O silêncio caiu pesado na cozinha. Dom desviou o olhar, apertando o punho sobre a mesa. O nome ecoava nele como uma lembrança impossível de afastar.