Capítulo 20

1242 Words
Marvila ainda enxugava discretamente as lágrimas quando murmurou, com a voz baixa e carregada de gratidão: — Obrigada, Dom… por tudo que você está fazendo por mim e pela minha bebê. Eu não sei como vou retribuir, mas eu vou. Vou cuidar da sua casa, trabalhar para você, te fazer companhia. — E todos os dias eu peço a Deus para te abençoar e tirar esse luto que você carrega. Você merece paz. Recomeçar. — A sua vida, importa. Ele respirou fundo, sentindo o coração apertar. — Eu entendo, Marvila… mas pra isso eu preciso reagir. Preciso querer ficar bem. E isso só depende de mim. — E é aí, que mora o problema. Sinto que não... olha, eu desisti a muito tempo. Ela se aproximou e o abraçou afetuosa. — Não pode. Desistir! O silêncio caiu por alguns segundos, cheio de significado, ele correspondeu desconcertado, sentindo o calor do corpo dela, a barriga no meio. Dom se levantou e a acompanhou até o quarto, dizendo que o dia seguinte, seria cheio de surpresas. Na porta, trocaram um “boa noite” suave, diferente de antes. Cada um foi para seu lado da casa. Ele por fim se deitou, vencido pelo cansaço. A madrugada chegou carregada de chuva. As janelas vibravam com o vento forte, e trovões ecoavam à distância. De repente, um barulho seco e estridente cortou o silêncio, vidro quebrando. Dom acordou assustado, com o coração disparado. Sentou-se na cama, tentando entender de onde vinha o som. Então, ouviu um gem ido de dor vindo do quarto de hóspedes. Correu descalço pelo corredor escuro. — Marvila?! — chamou, ofegante. A casa estava completamente apagada, a energia tinha caído com a tempestade. Ele tateava as paredes, desesperado, sem lembrar onde havia deixado o celular para acender a lanterna. Entrou no quarto e a encontrou arqueada, sentada na beira da cama, com o celular clareando lá. Com um copo quebrado no chão, pedaços de vidro espalhados, a água ainda formando uma poça. Ela segurava a barriga com força. — Dom… está doendo muito… muito mesmo. Eu tentei ignorar, mas a dor não passa. — disse, com a voz trêmula, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Um raio caiu ali perto, iluminando a janela por um instante. Dom correu até ela, com o coração disparado, sentou na beirada da cama. — Calma, calma… respira. Eu tô aqui. Vai dar tudo certo. Se machucou? Mas, por dentro, ele mesmo estava em pânico. O barulho da tempestade, a escuridão da casa, o copo quebrado, e o desespero de ver Marvila sofrer… tudo o fazia sentir como se o passado estivesse se repetindo diante dele. — Tente respirar, fundo. Aos poucos, a dor de Marvila foi cedendo. — Não...me machuquei. Desculpa! — Acordei você. O suor frio em sua testa começou a secar, e ela respirava com mais calma, embora ainda trêmula. Dom ficou ali, ao lado dela, de vigia, até ter certeza de que a crise passara. Então, se levantou e a pegou no colo: — Vamos para o meu quarto, aqui você pode se ferir, com os cacos. Ela se segurou no pescoço dele, se sentindo protegida, ele a carregou e a colocou na cama, suavemente com cuidado, ela estava usando um top e o shorts de pijama, ele encontrou uma vela na cômoda, acendeu e colocou sobre a mesa de cabeceira, iluminando o quarto com uma luz fraca. Ele arrastou a velha cadeira de balanço até perto da cama. — Vou ficar aqui. Se acontecer de novo, eu já estou por perto. Marvila o olhou, ainda fragilizada, mas com doçura. — Você vai ficar com dor nas costas nessa cadeira… Deita na cama. — Eu estou bem. Ela se sentou, desconcertada. — Por favor, não quero ser um fardo. Deite-se. Dom hesitou, mas depois suspirou e se deitou ao lado dela, mantendo distância respeitosa, ele estava de calça apenas. Ficaram em silêncio por alguns instantes, ouvindo apenas o barulho da chuva lá fora. Então, ele quebrou o silêncio: — Você está cuidando da barriga, não está? Pode ser só gases, ou contrações de treinamento. É normal sentir dor nesses últimos dias. Ela se virou de lado, franzindo a testa, curiosa. — Como você sabe tanto sobre gravidez? Você é homem… disse que não tem filhos. Você tem filhos, Dom? Ele ficou em silêncio por um momento, com os olhos fixos no teto. Era como se uma sombra passasse sobre seu rosto. Respirou fundo e respondeu, depois de pensar bastante: — Não… eu não tenho filhos. Mas minha irmã teve, e eu morava junto na época. Acompanhei de perto. Então sei como é que funciona. Marvila não percebeu a meia-verdade escondida na resposta. Apenas suspirou, aliviada. — Ahhh. Estou com medo, da chuva. Quando te conheci, eu não chorava só de dor. Estava com medo. Dom virou o rosto para ela, falando mais baixo, apreensivo: — Podia ter me chamado. Então, esta tensa. — Posso fazer uma massagem na sua barriga e pés? Passo o óleo… ajuda a acalmar a bebê, acalma você também. Você relaxa e dorme melhor. Tudo bem? Ele hesitou, como se não quisesse que ela se sentisse pressionada. — Se você não se sentir ofendida, eu gostaria de fazer isso. Só para te ajudar a descansar. O pedido dele era sincero, quase inseguro, diferente do homem firme e duro que ela conhecia. Marvila respirou fundo e, depois de alguns segundos de silêncio, assentiu com a cabeça. — Tudo bem. — murmurou, envergonhada. — Eu não alcanço meus pés. Dom se levantou devagar, foi até o outro quarto, e pegou o óleo corporal, voltou ansioso. Sentou-se ao lado dela na beira da cama e, com movimentos lentos e circulares, começou a espalhar o óleo pela barriga. Seus toques eram firmes, mas suaves, carregados de cuidado. Marvila ficou tensa no início, sem saber como reagir. O coração acelerado, as mãos inquietas no lençol. Mas o cansaço venceu o nervosismo. Pouco a pouco, o corpo relaxou, e ao ter os pés e pernas massegeados, os olhos pesaram, e ela adormeceu. Dom percebeu o ritmo da respiração dela mudando. Continuou a massagem por mais alguns instantes, depois se deitou, deixou a mão repousar sobre a barriga. Ficou ali, em silêncio, admirando a vida que se movia sob sua palma. Um sorriso suave surgiu em seus lábios. Havia algo genuíno naquele gesto, uma mistura de carinho, respeito e profunda admiração. Acabou pegando no sono também, ainda com a mão sobre a barriga dela. Quando a manhã chegou, a luz entrou suave pelas frestas da cortina. Marvila abriu os olhos devagar e, surpresa, notou a mão pesada dele ainda sobre sua barriga. O rosto de Dom estava sereno, como não ficava há anos. Assustada, ela se levantou com cuidado, sentindo-se envergonhada pela intim idade daquele gesto. Mas o movimento a fez esbarrar na cama, e Dom acordou no susto, endireitando o corpo. — Está tudo bem? — perguntou, com a voz ainda rouca de sono. Marvila desviou o olhar, ajeitando o shorts com pressa. — Sim… só acordei. — respondeu baixinho. — Com fome. Dom a observou por um instante e, percebendo o constrangimento dela, falou com suavidade, evitando olhar: — Você precisa fazer repouso, Marvila. Não pode se esforçar tanto. Pense na bebê. — Fique deitada. Ela assentiu, ainda sem coragem de encará-lo. — Sim, mas vou ao banheiro. Saiu do quarto apressada, levando consigo a confusão de sentimentos que a presença dele começava a despertar.
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