O sol batia forte no quintal, prestes a começar se por. Marvila recolhia as roupas no varal, ajeitando tudo com calma, enquanto Dom pintava uma das paredes próximas, concentrado no trabalho.
De repente, Marvila parou, levando a mão à barriga. O corpo se enrijeceu, e ela curvou levemente as costas. Dom largou o rolo de tinta e foi até ela em passos largos.
— O que foi? Outra contração? — perguntou, com a voz carregada de preocupação.
— Você está monitorando o tempo entre elas?
Marvila o olhou, confusa, respirando fundo.
— Monitorando? O que isso significa?
Dom respirou fundo, tentando manter a calma.
— Significa que, quando as contrações começam a diminuir o intervalo entre uma e outra, é porque o parto está próximo. Temos que ficar atentos.
Ela franziu a testa, assustada.
— E… o que acontece quando chegar a hora?
Ele hesitou, depois falou com firmeza:
— Você tem preferência? Parto normal ou cesariana? Eu posso falar com o médico e já deixar uma cesárea agendada. Seria mais seguro.
Marvila o encarou, surpresa, quase ofendida.
— Não! — disse, firme.
— Eu quero um parto natural. Sem intervenção. Eu quero ficar bem, pra poder cuidar da minha bebê sozinha.
Dom respirou fundo, tentando se conter.
— Marvila, cesariana é mais previsível, dá mais segurança. É melhor…
Ela o interrompeu com a voz embargada, mas firme:
— Quantas vezes você já pariu pra saber? Você é homem, Dom. Não entende o que é isso. Eu não quero depender de ninguém quando minha filha nascer.
Ele a encarou com intensidade, com a voz grave e determinada:
— Você pode contar comigo. E, sim, eu entendo mais do que você imagina.
Marvila ficou sem palavras. Sentiu o rosto corar de nervoso, o coração acelerado. Uma risada involuntária escapou, misturada à vergonha.
— Eu sou tão boba… tão sem instrução. — murmurou, balançando a cabeça.
Dom a observou por um instante, e então, sem resistir, também riu. Um riso baixo, cansado, mas sincero.
— Então vamos fazer assim. — disse, suavizando o tom.
— Juntos, a gente pesquisa, lê, entende cada detalhe. Eu estou disposto a te ajudar a decidir. Mas, no fim… a escolha vai ser sua. O que for melhor para você e para a bebê.
Marvila suspirou aliviada, sorrindo timidamente. Ele passou a mão pela nuca, envergonhado, mas contente por vê-la relaxar.
— Você precisa me contar, tudo. Monitorar.
E ali, entre roupas balançando no varal e uma parede recém-pintada, surgiu um pequeno acordo silencioso, a promessa de que, mesmo em meio às diferenças, eles poderiam aprender a caminhar lado a lado. Ela disse que iria se monitorar.
Ela entrou e fechou a casa, foi preparar o jantar, a noite caiu silenciosa sobre a casa. Depois do jantar simples, que comeram separados, Dom e Marvila se acomodaram na sala, com a televisão ligada em um canal para gestante. Ele havia conectado o celular para mostrar vídeos sobre parto, explicações, experiências de outras mulheres, depoimentos médicos.
No sofá, Marvila estava com as pernas dobradas de lado, abraçando uma almofada, enquanto Dom selecionava o conteúdo.
Os primeiros vídeos mostravam tudo sobre partos normais. Mulheres respirando fundo, contrações, gritos. De repente, Marvila começou a rir. Ria demais, um riso nervoso, descompassado, que logo se transformou em uma melancolia, quase choro.
— Eu não sei por que tô rindo… — ela murmurou, com a voz trêmula.
— Mas, na verdade… eu tô morrendo de medo. Muito medo.
O riso parou, e os olhos dela encheram de lágrimas.
— Tô com medo de que dê algo errado, Dom. E se… se eu não conseguir? E se eu perder minha bebê? Eu não sei o que eu faria.
Dom desligou a televisão e se aproximou dela, falando com firmeza, mas cheio de ternura.
— Vai dar tudo certo. Eu vou estar lá. Vou segurar sua mão o tempo todo. E a decisão é só sua, Marvila. Seja parto normal ou cesárea, eu vou te apoiar. Sempre.
Ela enxugou os olhos, respirou fundo e balbuciou:
— Eu quero fazer cesariana. Pelo menos assim eu tenho certeza que vai nascer bem, dar tudo certo na hora da cirurgia… sem colocar a minha bebê em risco.
Acariciou a barriga com as duas mãos, com o olhar cheio de amor.
— Sem ela… eu não estaria viva hoje.
Abaixou a cabeça, murmurando baixinho, quase como uma oração:
— Você sente, não sente, que a mamãe te ama? Mexe para a mamãe, bebê… Minha Maria, todos os dias eu peço, para papai do céu, te abençoar.
Dom, emocionado, perguntou suavemente:
— Posso sentir?
Ela sorriu tímida e assentiu. Ele colocou a mão grande e quente sobre a barriga. De repente, a bebê mexeu forte, como se respondesse ao toque. Dom arregalou os olhos, surpreso, e riu emocionado.
Abaixou o rosto, aproximando-se da barriga. Sua voz saiu grave e terna, como um sussurro cheio de vida:
— Você está me ouvindo? Hein, pequenina?
A bebê chutou de novo, ainda mais forte.
— Ah… você é muito linda. Eu tô ansioso pra te conhecer. A sua mamãe está com medo, mas vai dar tudo certo. Logo, logo você vai estar aqui, nos nossos braços.
A cada frase, a barriga se mexia, como se a bebê realmente entendesse.
— Eu tenho certeza que você vai vir muito forte e saudável. Todos os dias eu peço a Deus pra te abençoar, te dar saúde, vida longa, felicidade.
Marvila olhava a cena com os olhos marejados, sem conseguir dizer nada.
A bebê se mexia tanto que ela própria se contorcia um pouco no sofá, incomodada. Dom, enxugando discretamente os olhos marejados, sussurrou ainda mais emocionado:
— O milagre da vida… é a coisa mais linda que existe. O corpo humano… é a máquina mais perfeita do mundo.
— Sem vocês, eu não estaria aqui, Marvila.
Ele beijou de leve a barriga e recostou a testa contra ela, em silêncio, sentindo que aquele momento o marcaria para sempre.