Capítulo 18

1152 Words
Elena, animada ao ver Marvila com o vestido branco, não se conteve. — Sabe… eu conheço uma loja em outra cidade que aluga vestidos lindos. Posso até ver algumas opções pra você, já que está grávida e cansada. — disse, com um sorriso cúmplice. — Quando vai ser o casamento? Marvila ficou sem jeito, passando a mão na barriga. — Eu não sei… — murmurou, sem coragem de encarar Dom. Ele, porém, entrou na conversa de imediato, com um tom firme e risonho ao mesmo tempo: — Vai ser antes do bebê nascer, essa é a intenção. Mas… talvez seja depois. Afinal, ela pode nascer em três dias, ou daqui a três, quatro semanas. A risada leve escapou, quebrando por um instante a tensão. Ele colocou a mão no bolso e completou, orgulhoso: — A bebê… quem decide. Elena arregalou os olhos, curiosa. — E já decidiram o nome? O sorriso de Dom murchou quando Marvila, sem hesitar, respondeu com a voz doce: — Ana. Eu sempre disse que, quando tivesse uma filha, ela se chamaria Ana. O silêncio caiu sobre a sala como um peso. Dom ficou sério, com o olhar perdido por alguns segundos. O nome ecoava como uma ferida aberta, Ana era o nome de sua falecida esposa, a memória mais dolorosa que carregava. Elena, que também conhecera Ana Carolina, se atrapalhou com as roupas em mãos, tentando disfarçar o desconforto. Ainda assim, sorriu sem jeito. — É… é um nome lindo. — disse, com a voz um pouco trêmula. — Vai ser só Ana, ou Ana alguma coisa? Marvila, sem perceber o impacto que causara, respondeu com simplicidade: — Ainda estou pensando. Talvez Maria só. Talvez acompanhado. Mas sempre Ana. O constrangimento pairava pesado no ar. Dom desviou o olhar, engolindo em seco, enquanto Elena, percebendo o clima, se ocupava em dobrar uma peça qualquer, como se quisesse sumir dali. Marvila, ingênua à tempestade que havia despertado, apenas passou a mão na barriga e sorriu de leve, sentindo-se feliz em compartilhar aquele pequeno sonho. O clima ficou pesado depois da revelação de escolha do nome. Dom, desconfortável, se afastou devagar. — Eu vou sair um pouco. — disse, com a voz firme, mas baixa, antes de desaparecer pela porta dos fundos. Elena, sem entender o motivo da mudança de humor, continuou animada. Sentou-se no sofá ao lado de Marvila e começou a abrir mais sacolas. Vestidos de gestante, calças de tecido leve, blusas frescas e até algumas lingeries discretas. — Olha, esse lilás vai ficar lindo em você! E essa blusa branca combina com qualquer coisa… — falava empolgada, dobrando e separando. Marvila, tímida mas agradecida, foi escolhendo algumas peças. No fim, Elena conseguiu vender boa parte do que trouxera. Encheu novamente as sacolas, mas agora mais leves, e se despediu satisfeita. — Foi um prazer, Marvila. Vou trazer mais novidades na semana que vem. — disse sorridente. — Ah, sua festa, vai dar o que falar… espero que seja lindo esse casamento. Marvila apenas sorriu sem graça, sem perceber a segunda intenção da moça. Elena saiu feliz, pronta para espalhar novidades para a família e, talvez, para a cidade inteira. Quando a casa voltou ao silêncio, Marvila pegou as roupas novas e levou-as para o tanque. Começou a lavar à mão, esfregando delicadamente cada peça, e depois foi estendendo no varal. O vestido lilás, a blusa azul, as calças frescas… um a um, balançavam ao vento. Dom estava no quintal, de longe. Parou de trabalhar, apoiou-se na enxada e ficou apenas observando. O sol batia sobre Marvila, iluminando seus cabelos soltos, e havia algo de hipnótico em vê-la tão simples e tão dedicada, cuidando daquelas roupas como se fossem tesouros. Mas em sua mente, só um nome ecoava: Maria. O peito apertava a cada vez que ele pensava nisso. Não resistiu. Caminhou devagar até se aproximar, com as mãos ainda sujas de terra. Parou perto dela, que estendia um vestido, e respirou fundo. — Eu andei pensando… — começou, sério. Marvila se virou, surpresa com o tom da voz. Ele sorriu sutilmente. — A minha mãe tinha feito uma promessa. Que, quando eu tivesse uma filha, ela se chamaria como a minha avó… Aurora. Ele engoliu seco, mas continuou: — Eu ficaria muito feliz se você colocasse esse nome na bebê. Eu sei que não tenho direito, e que a filha é sua… mas agora… agora ela vai ser nossa. Seus olhos brilharam, firmes, mas cheios de esperança. — E a minha família ficaria muito feliz se ela se chamasse Aurora. Marvila ficou em silêncio por alguns segundos, com as mãos ainda molhadas, olhando para ele como se tentasse decifrar sua sinceridade. O vento balançava o varal, as roupas novas dançavam no ar, e o instante parecia suspenso entre o passado doloroso de Dom e o futuro incerto dos dois. Marvila parou de estender a roupa e se virou para Dom. O rosto estava sério, os olhos firmes, sem espaço para rodeios. — Não. — disse, com a voz firme, sem hesitar. — Isso é uma coisa que não é negociável, Dom. Você vai me desculpar… mas algumas coisas não são. Ele a olhou, surpreso com a dureza. Marvila respirou fundo, com a emoção transbordando. — Você já estragou uma vez. Descobriu o que era o bebê sem eu querer. Tirou de mim o momento que eu mais sonhei. Você não sabe o quanto eu quis essa bebê… o quanto eu lutei por ela. As lágrimas começaram a escorrer, mas a voz dela não vacilava. — Ela é tudo pra mim. Tudo. E ela vai se chamar Ana. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Dom a encarou por alguns segundos, mas não encontrou palavras. O nó na garganta o impediu de responder. Virou-se devagar, com o peito apertado, e voltou para as suas tarefas no quintal. Pegou a enxada, depois um pincel, qualquer coisa para manter as mãos ocupadas. Mas a mente não parava. Ana. O nome pesava como uma pedra. Ele sabia que, quando a cidade descobrisse, as comparações seriam inevitáveis. Todos iriam comentar, rir pelas costas, falar m*l dele, acusá-lo de viver no passado ou de transformar Marvila em sombra da esposa morta. Enquanto pintava as grades do portão, Dom pensava num modo de convencê-la. Talvez com calma, talvez com argumentos sobre o futuro da criança, sobre o quanto a família dele ficaria feliz com Aurora. Mas dentro dele crescia o medo de que, se insistisse demais, perdesse o pouco de confiança que Marvila começava a ter. O pincel seguia marcando o ferro, respingos de tinta caíam no chão, e Dom murmurava para si mesmo, com a testa franzida: — Preciso achar um jeito… sem brigar, sem machucar. Preciso convencê-la. Não pode ser Ana. Enquanto isso, Marvila, dentro da casa, acariciava a barriga em silêncio, murmurando baixinho para a filha o nome que já havia escolhido no coração. Dizendo que estava ansiosa, para conhecê-la.
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