Capítulo 14

934 Words
O silêncio depois do choro de Marvila pesava nos corredores da casa. Dom ficou no quintal por alguns instantes, olhando a terra espalhada, os vasos quebrados, e sentiu o peso do arrependimento cair sobre seus ombros. A raiva havia passado, restando apenas a vergonha de ter descontado em quem não merecia. Entrou devagar, lavou as mãos e o rosto, tentando se recompor. Abriu uma das sacolas que trouxera e retirou uma lata de refrigerante e uma caixa de bombons. Não sabia ao certo como se desculpar, mas precisava tentar. Caminhou até o quarto de hóspedes. A porta estava fechada, mas ele ouviu o choro abafado de Marvila lá dentro. Bateu levemente. — Marvila… — chamou, com a voz baixa. — Posso entrar? Não houve resposta. Ele esperou alguns segundos, com o coração apertado, e abriu a porta devagar. Ela estava encolhida na cama, deitada de lado, abraçada à barriga. Com o rosto molhado de lágrimas ainda mostrava o quanto estava chateada. Dom respirou fundo, aproximou-se e deixou a lata de refrigerante e o bombom sobre a mesinha de cabeceira. — Eu errei. — disse, com sinceridade. — Não devia ter falado daquela forma. Muito menos ter perdido a cabeça. Ela virou o rosto, evitando encará-lo. Ele continuou falando. — Essas plantas… eram as flores da minha esposa. São coisas que ainda sinto ela. Por isso eu não deixo ninguém tocar. Não é sobre você. É sobre as memórias dela. Dom se sentou na beira da cama, mantendo uma distância respeitosa. — Mas um dia… — continuou, com a voz embargada. — Você terá a sua própria casa. Um lugar só seu, onde poderá plantar, mexer, cuidar de tudo do seu jeito. Sem medo de quebrar nada, sem medo de errar. — Eu prometo. Vou construir uma casa linda. O silêncio tomou conta do quarto. Marvila respirava fundo, ainda chorosa, mas as palavras dele começavam a encontrar espaço dentro dela. Ele sentou na beirada da cama. — Eu não quero ser mais um homem que vai te ferir, Marvila. — completou, deixando o olhar cair sobre o chão. — Só quero que você saiba que eu ainda estou aprendendo a lidar com tudo isso. E tenho as melhores intenções. Ela enxugou as lágrimas com a mão, olhou para a lata e para o bombom ao lado. — Eu só queria ajudar. — disse baixinho. Dom a olhou com uma ternura inesperada. — Eu sei. E agradeço por isso. Me perdoe, por favor. O silêncio voltou, mas dessa vez menos pesado. Era um silêncio de uma reconciliação tímida, de passos pequenos para a confiança. Ele pegou o refrigerante na mão. — Quem quiser um refrigerante, precisa pedir. Posso, colocar a mão? Ela sorriu apreensiva, com receio e medo. — Ele está dormindo. Muito quieto. Dom percebeu que ela não queria, lhe entregou o chocolate e o refrigerante, sorriu e saiu do quarto. Depois, Marvila manteve distância. Ela devorou tudo e até sorriu, contente. Passou a evitar se sentar à mesa com ele, preferindo comer sozinha no quarto ou apenas beliscar alguma coisa quando tinha certeza de que Dom não estava por perto. Ficou muito desconcertada, de estar lá. Ele, envergonhado pelo descontrole, respeitou o silêncio. Passou a sair cedo e voltar tarde, sempre ocupado com reformas no quintal. O som da lixadeira, do martelo e do pincel arrastando pelas paredes preenchia a casa. Ele estava pintando tudo, consertando portas, trocando vidros, reformando móveis, recebendo profissionais, que o ajudavam. Tentava ocupar a mente, mas no fundo era uma forma de se afastar dela e de si mesmo. Ele percebeu, que ela ficou mais distante, séria. Marvila, da janela do quarto, o observava. Via o corpo dele inclinado enquanto carregava peso, os músculos marcados pelo esforço, o peito nu suado, reluzindo sob o sol. Forte, bonito, carregava no semblante uma seriedade que a intrigava. Ela se sentia culpada por ter se afastado, mas ainda magoada demais para se aproximar. No terceiro dia, bem cedo, Dom se aproximou da porta do quarto dela. Não bateu forte, apenas três toques leves. — Marvila, bom dia. — Você tem médico hoje. — disse, sem abrir. Sua voz era firme, mas havia um cuidado escondido. — Vou deixar um vestido aqui pra você. Marvila ouviu os passos dele se afastando. Tomou banho ainda irritada, pensando em como ele queria moldá-la a um papel que não era o seu. Quando abriu a porta, encontrou o vestido pendurado no cabide, era lindo, de tecido leve, cor clara, com detalhes delicados de renda. Mas ela não quis vesti-lo. Colocou uma roupa sua, simples e surrada, uma blusa já desbotada e uma saia folgada. Deixou o cabelo solto ondulado, caindo pelos ombros, sem nenhum cuidado especial. Pegou a bolsa quase vazia e calçou a sandália nova que Dom havia comprado, única concessão que fez. Saiu do quarto de cabeça erguida, determinada a mostrar que ainda tinha controle sobre si mesma. Na cozinha, Dom estava preparando café. Ao vê-la entrar, ficou confuso, com a testa franzida. — Você pode se arrumar rápido? — perguntou, com calma, mas um tom sério na voz. — Não podemos nos atrasar. Marvila pegou uma banana na fruteira, descascou com calma e deu uma mordida antes de responder. — Já estou pronta. Ele a olhou de cima a baixo, sem disfarçar o incômodo. Respirou fundo, largou a caneca sobre a mesa e disse firme, quase num pedido: — Não está. Por favor… coloque o vestido. O silêncio se instalou entre os dois, denso como nunca. Marvila mordeu mais um pedaço da banana, com os olhos fixos nele, e o coração batendo forte.
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