O clima em casa estava cada vez mais pesado. O silêncio se tornara uma barreira invisível. Marvila, com seu jeito ainda imaturo, não suportava se sentir vigiada e contida. Queria provar que era independente, que podia caminhar com as próprias pernas. Assim que chegaram, ela saltou do carro sozinha, sem o apoio gentil dele.
Ela foi para a cozinha, comer pão com banana e mortadela, Dom foi para os fundos da casa, estava reformando um canteiro. O barulho do martelo abafava seus pensamentos.
Marvila estava impaciente, jogou água no corpo, colocou um vestido seu e espiou Dom, totalmente distraído. Foi nesse momento que Marvila, decidida, ela desceu, abriu discretamente o portão da frente. Ajustou a bolsa no ombro e saiu andando pela rua, sem destino certo, com o vestido solto balançando ao vento.
De longe, Dom a viu pelo canto do olho. A cena chamou sua atenção de imediato, mas ele teve dúvidas se era realmente ela ou não, ele entrou a procurar, e saiu as pressas, Marvila caminhava com dificuldade, com os passos pesados, lembrando uma pata choca, tropeçando leve no meio-fio. Ele correu em disparada até o portão, sem camisa, com o corpo marcado de suor.
— Marvila? Onde vai? — gritou, com a voz ecoando firme.
Ela fingiu não ouvir, manteve o olhar à frente e continuou andando. Mas alguns passos depois, uma contração forte a surpreendeu. Parou bruscamente, levou a mão às costas e arqueou o corpo, respirando com dificuldade.
Dom não pensou duas vezes. Correu até ela, segurou-a nos braços e, quase à força, a ergueu do chão.
— Você está perdendo o juízo! — disse, com a voz grave e cheia de raiva misturada com medo.
Ela tentou protestar, mas a força dele era inabalável. Em poucos instantes, já estava deitada no sofá da sala, ofegante, com a mão ainda sobre a barriga.
Marvila virou o rosto, brava e calada, recusando-se a olhar para ele.
— Não serei sua prisioneira.
Dom foi até a cozinha, encheu um copo de água e voltou. Entregou-o para ela, com a voz mais firme do que antes:
— Você não pode sair sozinha, Marvila. Não desse jeito. Não agora.
— Porque eu te faria prisioneira? Você é tão teimosa, menina!
Ela pegou o copo sem responder. Seus olhos baixos denunciavam a mistura de vergonha e teimosia.
Ele respirou fundo e mudou o tom, mais prático:
— Configurou o celular? Que te dei?
— Não fique chateada, comigo. Preciso aprender, a conviver com você e a nossa, nova realidade.
Marvila balançou a cabeça em negativa. Sem esperar, Dom se levantou e foi até o quarto. Voltou com o aparelho na mão. Sentou-se à frente dela e começou a configurá-lo ali mesmo, em silêncio, com os dedos ágeis na tela. O ambiente ficou pesado, apenas o som das notificações preenchendo o ar.
Quando terminou, colocou o celular sobre a mesa de centro e a encarou.
— Aproveite a oportunidade, Marvila. Pense na bebê. Ela depende de você. — disse firme, mas o olhar deixava escapar a preocupação genuína.
— Não quero te prender, apenas ajudar.
Ela permaneceu em silêncio, respirando fundo, sem coragem de encará-lo. O coração batia acelerado entre o orgulho ferido e a sensação de estar protegida, mesmo contra a sua vontade.
Marvila, ainda deitada no sofá, virou o rosto e murmurou com amargura:
— É a bebê, não o bebê.
Levantou-se devagar, ignorando o olhar dele, e foi até a cozinha. Pegou os ingredientes, preparou polenta doce, para comer com leite e sentou-se para comer em silêncio. Dom deixou o celular recém-configurado em cima da mesa perto dela, sem dizer nada, voltou para o quintal, retomando o trabalho. Mas antes, trancou o portão.
A casa ficou quieta. Marvila, após terminar de comer, olhou o celular sobre a mesa. Pegou-o com curiosidade. Mexeu nas funções, deslizou a tela, testou a câmera. Depois subiu para o quarto e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu vontade de se olhar diferente.
Diante do espelho, posicionou a câmera e começou a tirar fotos. Primeiro com o vestido simples, depois com o cabelo solto, até que tomou coragem, retirou a roupa e ficou apenas de calcinha e sutiã. A barriga redonda, iluminada pela luz da janela, enchia a tela. Ela sorriu tímida em algumas poses, passando a mão pela pele esticada, tentando registrar aquele momento que, apesar de doloroso, também era único.
Do lado de fora, Dom trabalhava no telhado, consertando as goteiras. O suor escorria pela testa, mas em determinado momento, ao olhar para baixo, percebeu a janela aberta do quarto de hóspedes. Parou.
Seus olhos se fixaram. Lá dentro, Marvila posava diante do espelho, com o celular em mãos, revelando a intimi.dade de seu corpo grávido. Calcinha simples, sutiã gasto, mas ainda assim havia uma beleza crua, quase selvagem, que o deixou sem fôlego. O coração disparou. Uma mistura de choque, desejo e culpa o consumiu.
Ele não conseguia desviar o olhar. Era como se estivesse hipnotizado, preso entre a lembrança da esposa e a imagem viva daquela mulher tão vulnerável e ao mesmo tempo tão forte.
Nesse instante, o jardineiro Chicho entrou pelo portão e gritou do quintal:
— Seu Dom!
O chamado o fez estremecer. Antes de responder, Marvila, alertada pelo som, levantou os olhos e o viu. Dom, no telhado, imóvel, a observava.
O choque percorreu o corpo dela como uma corrente elétrica. O rosto corou de imediato. Com o coração disparado, largou o celular e correu até o banheiro. Trancou a porta às pressas, desesperada, saiu de toalha, foi puxando uma roupa qualquer para vestir. As mãos tremiam enquanto fechava a cortina da janela com força, tentando apagar qualquer vestígio do que acabara de acontecer.
Dom permaneceu alguns segundos paralisado no telhado, com o sangue fervendo de vergonha. O peito subia e descia rápido, como se tivesse corrido uma maratona. A mente gritava com ele: “O que você fez? Como pôde olhar? Ela está grávida, vulnerável… e você sentiu atração.”
A culpa se misturava ao desejo, deixando-o ainda mais atordoado. Dom desviou o rosto, passou a mão pelo cabelo suado e desceu do telhado sem sequer responder ao jardineiro. Precisava se recompor antes de encarar Marvila novamente.