Já passava do meio-dia quando Dom, ainda sem coragem de bater na porta, respirou fundo diante do quarto de hóspedes. Forçou a voz a sair calma:
— Marvila… o almoço está pronto. Fiz churrasco. Venha comer.
Alguns segundos de silêncio se seguiram. Então, a maçaneta girou devagar. Marvila abriu a porta, cabisbaixa, sem encará-lo. Ajustou a sandália nos pés e caminhou atrás dele em direção à área externa.
A mesa estava posta no quintal, sob a sombra da varanda. O cheiro da carne recém-tirada da brasa preenchia o ar. Dom puxou uma cadeira para ela, mas Marvila sentou-se em silêncio, ajeitando a roupa sobre a barriga.
Ele passou a mão pelo rosto, nervoso.
— Eu preciso falar uma coisa… — começou, hesitando.
— Eu te vi… sem roupas, mas foi sem querer. Eu não fiz por m*l. Me perdoe.
Marvila permaneceu em silêncio, cortando um pedaço de carne no prato. Não levantou os olhos.
Dom suspirou fundo, se servindo também.
— Eu estou nervoso com tudo, Marvila. Não sei como acertar com você. Parece que tudo que eu faço… sai errado.
Ela parou, largou o garfo e finalmente o encarou. Havia tristeza em seu olhar, mas também um certo alívio por vê-lo vulnerável.
— Você não tem deveres comigo. Nem obrigações. Já fez mais do que qualquer um faria. Isso já é bom demais.
Ele a olhou sério, com a voz embargada quando respondeu:
— Bom… mas não o suficiente. Tenho sido rude, você não merece isso.
As palavras ficaram suspensas no ar. Eles voltaram a comer em silêncio, com o barulho dos talheres preenchendo a ausência de conversa.
Depois de alguns minutos, Dom limpou a boca com o guardanapo e, tentando retomar a calma, sugeriu:
— Amanhã cedo, vamos viajar. Ir ao shopping, montar o enxoval da bebê. Passear um pouco, se divertir. Você merece isso.
Marvila respirou fundo, fixando os olhos nos dele.
— Não quero parecer ingrata, Dom… mas eu não quero nada disso. Eu gosto do simples. Do pouco.
Ele ficou em silêncio por um instante, depois sorriu com uma admiração genuína.
— Então aceita que eu traga roupas em casa? Para você experimentar com calma, no seu tempo. Se gostar, fica. Se não gostar, devolvemos.
Marvila pensou por alguns segundos. Depois, assentiu levemente.
— Sim. Assim… eu aceito.
Dom sorriu de volta, mas foi um sorriso contido, cheio de respeito. Um gesto simples, mas que deixava claro que, apesar de todos os desencontros, ele estava tentando encontrar o caminho certo até ela.
Enquanto ainda almoçavam, Dom pegou o celular. Fez algumas ligações rápidas, falando com a voz firme e prática. Em uma delas, sua expressão suavizou.
— Sim, Elena. Preciso de um favor. — disse.
— Você pode separar algumas roupas para gestante e trazer aqui em casa? O quanto antes.
Do outro lado da linha, a filha do jardineiro confirmou animada. Pouco mais de uma hora depois, Marvila já estava na sala quando a campainha tocou. Elena entrou sorridente, jovem, simpática, com longos cabelos presos num r**o de cavalo. Trazia várias sacolas enormes nos braços.
— Oi, Marvila, prazer. Eu sou Elena. Meu pai é o Chicho, o jardineiro. Trabalho numa loja de roupas e trouxe algumas peças pra você experimentar.
Marvila, envergonhada mas educada, agradeceu com um sorriso tímido. Elena começou a abrir as sacolas, tirando vestidos, calças, blusas e cardigãs, foi arrumando tudo no sofá como se montasse uma pequena vitrine improvisada.
— Vai experimentar no banheiro? — perguntou com delicadeza.
Marvila assentiu e levou algumas peças. Aos poucos, foi vestindo e voltando, mostrando uma ou outra roupa na sala. Algumas ficavam largas, outras apertadas, e ela ria discretamente da situação, relaxando um pouco.
Até que, entre as opções, Elena entregou um vestido branco, elegante, de tecido leve e caimento impecável. Marvila hesitou antes de vesti-lo, mas quando se olhou no espelho, ficou em silêncio. Caminhou devagar até a sala.
O vestido a transformava. Mesmo grávida, Marvila parecia radiante, a barriga destacando-se de forma graciosa sob o corte delicado da peça. Tocando o tecido com a ponta dos dedos, ela murmurou com uma voz baixa, quase para si mesma:
— Eu poderia… me casar com esse vestido.
Nesse exato momento, Dom passava pela cozinha e a viu. Parou no batente da porta, imobilizado pela cena. O ar lhe faltou por segundos, e ele não conseguia desviar os olhos dela.
Deu alguns passos à frente, com a voz baixa e sincera escapando de seus lábios:
— Você está linda. — fez uma pausa curta, com o olhar pesado de significado.
— Mas não o suficiente para casar. Esse vestido, é para passear apenas.
Marvila o olhou, surpresa, sentindo o rosto esquentar. Elena, que organizava mais roupas sobre a mesa, ergueu os olhos, intrigada, percebendo a tensão invisível entre os dois.
Dom continuou, sem desviar os olhos de Marvila:
— Eu quero que você use um vestido adequado, melhor que esse. Você merece o melhor casamento, meu bem.
As palavras caíram como um choque suave no ar. O “meu bem” escapara sem que ele mesmo percebesse. Elena, curiosa, ficou em silêncio, fingindo dobrar roupas enquanto observava discretamente, entendendo que havia algo profundo ali, muito além de um simples amigo.
Marvila abaixou os olhos, com os dedos ainda apertando o tecido branco, sem saber como reagir. Mas, por dentro, sentiu o coração acelerar, dividida entre o medo de acreditar e a vontade de se permitir.